Recuperação à vista

Depois da fraquíssima temporada de captações e investimentos, gestores se animam com a solidez dos emergentes

Especial / Relações com Investidores / Edições / Temas / Cobertura EMPEA 2009 / Reportagem / 1 de dezembro de 2009
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Houve um certo maniqueísmo ao se falar dos efeitos da crise financeira para a indústria de private equity, principalmente aquela dedicada aos mercados emergentes. Para os investidores especializados no mundo desenvolvido, acostumados com um grau de alavancagem incompatível com a secura de crédito que se estabeleceu, ninguém duvidava que a recessão seria brava. Já para as economias em ascensão, como Brasil, Rússia, Índia e China (grupo batizado de Bric), surgiram as correntes otimista e a pessimista. A primeira vislumbrava um aumento de poder econômico dos Bric e uma oportunidade excepcional para fazer compras, pois o estremecimento dos mercados levara ladeira abaixo preços de ativos. A segunda preferia destacar a dificuldade de captação de recursos, em tempos de aversão ao risco, e os problemas financeiros a serem enfrentados pelas empresas dos portfólios dos fundos. O tempo acabou mostrando que os dois grupos, de certa forma, tiveram razão.

O The Emerging Markets Private Equity Forum deste ano, coorganizado pela Emerging Markets Private Equity Association (Empea) e pelo grupo de mídia especializado em investimentos alternativos PEI Media, forneceu argumentos mais realistas para os dois lados. E se desenrolou sob o signo da esperança. A conferência, que reuniu perto de 300 profissionais ligados a investimentos em private equity e venture capital nos dias 3 e 4 de novembro, em Londres, teve título batido, mas bem sugestivo: “Luz no fim do túnel”. Isso significa que houve trevas, sim. Depois de encherem fundos com a captação recorde de US$ 66,5 bilhões em 2008, gestores de private equity de mercados emergentes viram investidores bem menos receptivos neste ano, amealhando apenas US$ 16 bilhões no primeiro semestre, ante US$ 30 bilhões em igual período de 2008 — queda de 55,5%.

Em compensação, o levantamento da Empea dá um alento. O tombo foi menos doloroso do que o dos fundos de países ricos, que receberam 65% a menos de recursos no mesmo intervalo. Essa diferença fez com que a participação de fundos de mercados emergentes no volume global de recursos captados atingisse a marca de 20% no primeiro semestre. Nos 18 meses encerrados em junho de 2009, a fatia foi de 16%; em 2001, de apenas 4%. “Os percentuais representados por mercados emergentes em captação e investimentos globais de fundos de private equity continuaram a crescer”, disse, sem esconder a satisfação, Sarah Alexander, presidente da associação que congrega gestores e investidores de mais de 50 países, com um patrimônio estimado em US$ 500 bilhões sob gestão.

Falar de longo prazo para uma categoria de investimentos que não pode tirar os olhos do futuro é crucial. Nesse campo de visão, a paisagem agrada a Charles Kaye, copresidente da Warburg Pincus, gestora de fundos que depositaram US$ 29 bilhões em aproximadamente 600 companhias de 30 países. Com 15 anos de experiência no ramo, ele disse que, saídos da turbulência, os mercados emergentes, em particular a China, “terão realmente emergido”. “Essas economias têm mais riscos, mas oferecem, em contrapartida, mais crescimento do que qualquer parte do planeta”, argumentou. É por isso que, hoje, ao avaliar esses mercados, Kaye não atribui mais somente prêmio pelo risco incorrido, mas também pelo crescimento e pelo câmbio, uma vez que as moedas locais tendem a se valorizar ante o dólar.

Uma das bases das previsões positivas de Kaye para os emergentes está nas transformações em curso sobre a composição da força de trabalho mundial. Enquanto nos Estados Unidos, na Europa e no Japão a população economicamente ativa crescerá pouco ou até decrescerá nos próximos 25 anos, os emergentes contam com uma massa trabalhadora em expansão. A Índia, até agora muito distante do feroz controle de natalidade chinês, é a maior expoente disso. Mais cedo ou mais tarde, o capital precisa migrar para onde há trabalho e gente disposta e disponível para fazê-lo. Isso já vem ocorrendo.

Somente os BIC
O gestor enumerou alguns desafios para os aspirantes. Preocupa-o, no Sudeste Asiático e na América Latina, o desenvolvimento atrelado a exportações, assim como a dependência do Leste Europeu por financiamento externo. Nos países do Oriente Médio e na Rússia, as oportunidades de investimento têm se revelado restritas demais a recursos naturais, sobretudo o petróleo. Diante desses percalços, quais emergentes podem ser considerados hoje “senhores de seus próprios destinos”? Kaye saca o “r” do Bric e enaltece os outros componentes do acrônimo. Apesar de pouco familiarizado com o Brasil, ele aposta em um “boom” de empreendedorismo por aqui, propiciado pela tendência da queda da taxa de juros.

O presidente da Warburg Pincus não gosta de tratar a China como a “salvadora” do mundo, mas reconhece a “extraordinária flexibilidade econômica” do gigante asiático para seguir na rota do crescimento. O ambiente de investimento pantanoso, sob forte influência do governo, na sua opinião, deve melhorar ao longo do tempo, tornando a terra do dragão ainda mais interessante. A Índia, por sua vez, tem fundamentos macroeconômicos consistentes, embora não tão sólidos como os dos chineses, na visão do especialista. O que enche seus olhos nesse país são a infraestrutura tecnológica e o talento da classe empreendedora indiana.

O céu não está mais tão cinza, mas tampouco ficou de brigadeiro. A última temporada não trouxe tantos investimentos em participações quanto se esperava. No primeiro semestre de 2009, os fundos destinados a mercados emergentes acumularam US$ 13 bilhões em negócios fechados, 52% a menos que os US$ 27 bilhões dos primeiros seis meses do ano passado. Segundo os gestores, a perda de referência de preços está por trás desse desaquecimento. Empresários ficaram presos aos valores atribuídos aos seus negócios no período de euforia do mercado, encarecendo a entrada de novos sócios. Os fundos preferiram, então, esperar os preços atingirem níveis mais aceitáveis.

Compras parceladas
Com a recuperação dos mercados, podemos imaginar que as pechinchas estão desaparecendo? Não exatamente. A janela para negócios com companhias boas em dificuldades financeiras (“distressed assets”) permanece aberta, dizem os profissionais da indústria. A diferença é que agora toda cautela é pouca. Para Tom Gibian, presidente executivo da Emerging Capital Partners (ECP), administradora de fundos especializada no continente africano, a “noção de que o próximo ano será melhor que o atual acabou”. Essa quebra de paradigma provocou uma mudança no planejamento estratégico dos fundos, traduzida basicamente por taxas de desconto maiores nas escolhas dos investimentos. Além disso, a ECP também tem procurado diversificar o leque de companhias investidas e esticado os prazos de entrada no capital das empresas. Por exemplo, em vez de aportar de uma só vez o volume previsto para determinada empresa, a gestora faz o investimento em parcelas. “Precisamos saber conviver com recursos mais escassos”, disse Gibian.

Até porque a pressão vem da clientela. Mais do que nunca, investidores estão cobrando resultados dos gestores. Os participantes da conferência tiveram de responder à seguinte pergunta: após a crise, qual será a mudança mais permanente para a indústria de private equity em mercados emergentes? Na opinião da maioria deles (53%), os chamados limited partners (ou LPs), investidores que entregam seu patrimônio aos cuidados dos gestores de fundos de private equity (os general partners, GP), cada vez mais farão um escrutínio de seus parceiros e exigirão também uma comunicação melhor dos times contratados.

“A ênfase, na avaliação dos gestores de fundos, mudou. Não queremos apenas buscar capacidade técnica, mas também saber se vão monitorar bem as companhias do portfólio”, disse Richard Laing, presidente da CDC, instituição financeira de fomento do governo britânico que investe em fundos de fundos de private equity direcionados a ex-colônias do Reino Unido. O processo de diligência acurado torna ainda mais difícil convencer os investidores a comprometer seu capital com esse segmento. Quem começa hoje a captar recursos para um fundo de private equity pode se preparar para passar muito tempo batendo de porta em porta. O intervalo em que um fundo permanece aberto para arrecadar o montante pretendido atingiu uma média de 18,3 meses em 2009, contra 15 meses em 2008, e somente 9,5 meses em 2004, segundo levantamento divulgado em outubro pela Preqin, uma consultoria norte-americana.

Confiar é preciso
Acabam obtendo sucesso os gestores que ganham a confiança dos investidores. Kathleen Bacon, superintendente da HarbourVest Partners, firma norte-americana de investimentos, conta que seu principal critério na escolha de um gestor é saber se pode confiar nele. A HarbourVest atua como uma espécie de consultoria, pesquisando e selecionando oportunidades de investimentos alternativos globais para fundos de pensão e de universidades norte-americanas. Para investidores como esses, é praticamente impossível conhecer profundamente os mercados estrangeiros em que se deseja estar presente. Crer na competência dos gestores locais é, portanto, fundamental. Ainda mais numa época em que os emergentes precisam concorrer até com empresas baseadas no primeiro mundo. “Encontramos bons preços nos mercados desenvolvidos”, pontuou Kathleen.

Janusz Heath, chefe da divisão de gestão de recursos da suíça Capital Dynamics, no entanto, acredita ser um erro comparar os investimentos em private equity de economias em desenvolvimento com os da Europa e dos Estados Unidos. Simplesmente porque as probabilidades de crescimento fora do eixo central são bem maiores. “A Ásia e o Brasil demonstraram uma maturidade encorajadora nos últimos meses”, elogiou. Esse pensamento é compartilhado por Neil Harper, diretor executivo da administradora de fundos de fundos do banco Morgan Stanley, a Morgan Stanley AIP. Prêmio de risco em mercados emergentes? Para ele isso não existe mais.

Caminho na crise leva fundo árabe ao oásisEspectadora ativa dos debates do congresso da Empea, Hoda Abou-Jamra chegou ao evento feliz com uma notícia: um dia antes, em 2 de novembro, conquistara a primeira captação para o fundo primogênito de sua gestora. Depois de quase dois anos na estrada, o veículo garantiu US$ 40 milhões do grupo formado pela International Finance Corporation (IFC), braço para o mercado privado do Banco Mundial; GE Healthcare, divisão da área de saúde da General Electric; e Saudi Health Investment Company (Shic). A missão do fundo, que pretende angariar até US$ 100 milhões, é desenvolver projetos de assistência médica na região conhecida como Mena, que inclui países do Oriente Médio e do norte da África.Antes de fundar a TVM Capital Mena, baseada em Dubai, a farmacêutica Hoda atuava prospectando recursos no Oriente Médio para investimentos no exterior. Percebeu, com essa experiência, que os árabes estavam mais interessados em aplicações locais. Por isso decidiu associar-se à firma de venture capital alemã TVM Capital para garimpar oportunidades na região. O contrato estava pronto para a gestora receber um comprometimento de US$ 17 milhões de seu primeiro cliente até que, no meio de setembro de 2008, o Lehman Brothers quebrou e parou tudo. “Em oito meses, tínhamos recebido uma ótima recepção e feito todo o nosso dever de casa”, recorda-se. A partir de então, só ouviu de investidores o pedido para que voltasse três, seis meses depois.

“É incrível como, alguns meses atrás, eu prometia a mim que jamais entraria em captação de fundos de novo”, diverte-se. Hoda considera a IFC sua “salvadora”, pelo fato de o banco acreditar na parceria e agregar credibilidade ao fundo, a ponto de a GE e a Shic terem aceitado participar do negócio. Por isso a presidente da TVM Capital Mena aconselha a qualquer novo gestor de mercados emergentes buscar o apoio de bancos de fomento. “Eles fornecem não somente capital, mas também consultoria técnica e uma ótima rede de relacionamentos”, exaltou. Ter conquistado a confiança dessas instituições e persistido no deserto da crise está lhe rendendo pontos com os investidores. “Disseram que o fato de termos sobrevivido até agora significa muito.”


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Tags:  mercado internacional Investimentos Captação de Recursos Emergentes Private equity e venture capital Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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