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Presidente do conselho de administração da Associação de Private Equity de Mercados Emergentes (Empea, na sigla em inglês), Roger Leeds é só sorrisos quando fala do Brasil. Para explicar seu otimismo quanto ao futuro do País, ele alia o embasamento acadêmico — é professor do centro de estudos internacionais avançados da Universidade Johns Hopkins, baseada em Washington, DC, e da prestigiada Wharton School, da Universidade da Pensilvânia — a anos de experiência profissional com investimentos em mercados emergentes. Chegou a trabalhar por uma década na International Finance Corporation (IFC), do Banco Mundial, visitou mais de cem países e publicou o livro Financing Small Enterprises in Developing Countries: Lessons Learned From Experience. Veja trechos da entrevista que Leeds concedeu à CAPITAL ABERTO em Londres.

CAPITAL ABERTO: O Brasil chegou ao fórum deste ano com um novo status, não?
Roger Leeds: É muito excitante. Conheço a expressão “o Brasil é o país do futuro”. Hoje, finalmente, todo o mundo acredita que o futuro reside no Brasil. Em meados deste ano, analistas de investimentos de Wall Street previam que o PIB brasileiro decresceria de 5% a 6% em 2009. Agora, estão chocados com o crescimento, que não é uma aberração. Acredito que seja sustentável. Obviamente que há problemas e riscos de reversão de cenários, mas a posição atual é muito forte. Essa é a boa notícia. A má é que deveria haver muito mais brasileiros por aqui (no fórum). Vocês têm de capitalizar em cima desse momento histórico. O Brasil é sinônimo de private equity na América Latina, pois concentra de 60% a 70% da captação de recursos. O resto é insignificante. Porém falta assumir o papel de liderança. Alguns estão fazendo isso, mas estou desapontado por não haver mais líderes do private equity brasileiro aqui.

“O Brasil tem uma história incrível, mas precisa de gente para representá-la mundo afora”

O senhor quer dizer que os brasileiros deveriam ir mais a eventos internacionais de private equity?
Eu gostaria de ver o Brasil participando intensamente desses encontros. Os gestores brasileiros deveriam se inteirar das perspectivas internacionais, saber dos padrões que os investidores estrangeiros estão usando. Algumas das pessoas vêm aqui sempre. E eles são os líderes. Mas esse grupo de liderança deveria crescer. Além de se aprender muito sobre como ser bem-sucedido no negócio, nesses eventos podem-se encontrar muitos clientes em potencial. O Brasil precisa atrair investidores estrangeiros. Vocês têm uma história incrível, mas precisam de gente para representá-la mundo afora. Seria um bom investimento.

Quais características brasileiras têm chamado a atenção dos investidores de private equity estrangeiros?
Eu mencionaria três ou quatro coisas. Os fundamentos macroeconômicos são muito sólidos. A crise serviu para deixar isso muito claro. O capital humano também está ficando melhor. Há cada vez mais profissionais brasileiros de private equity qualificados. Se eu fosse para o Brasil seis anos atrás, poucos entenderiam esse negócio de verdade. Hoje, há um número crescente de profissionais que poderiam trabalhar em qualquer lugar do mundo. É fator crítico de sucesso a presença de bons profissionais locais na indústria de private equity. Muitas pessoas que estudaram nos Estados Unidos, ou trabalharam para uma instituição financeira no exterior, agora estão de volta ao Brasil. Isso é muito promissor. Outro fator relevante é o aumento da captação de recursos em território nacional. Fundos de pensão e seguradoras estão mais dispostos a alocar somas importantes de seus patrimônios em private equity. O acesso ao capital doméstico é crucial para que a indústria não fique dependente somente de recursos estrangeiros. Não podemos nos esquecer da governança corporativa. Dez anos atrás, se você fosse para uma empresa média brasileira e mencionasse as palavras “governança corporativa”, era como se falasse numa língua incompreensível. Agora, entende-se que, se o objetivo é captar, é preciso ser mais transparente, adaptar-se a padrões internacionais de contabilidade e montar um conselho de administração com membros independentes, por exemplo. Essa consciência, não só nas grandes corporações, mas também nas empresas de médio porte, está aumentando.

O que fez a governança adquirir esse peso?
A resistência à entrada de investidores, algo tradicional na cultura de negócios no Brasil, é cada vez menor. Há uma nova geração de administradores e empreendedores, mais abertos à chegada de sócios. Percebo isso falando com eles. Esses profissionais reconhecem as vantagens que um investidor traz para a companhia — não só capital, mas também valores agregados, como uma expertise que pode ajudar no crescimento. Vejo uma mudança ocorrendo ao longo dos últimos anos. Antes, os empreendedores brasileiros eram muito fechados, “insulares” até. Por que isso está mudando? Porque o private equity tem demonstrado sucesso. Tem havido exemplos suficientes de empreendedores fazendo fortunas por terem recebido esses investimentos. As companhias ganham músculos, a ponto de partirem para um IPO e tornarem seus fundadores ricos. A repercussão dessas histórias incentiva outros a percorrem a mesma trajetória. Assim, fica evidente que não é uma má ideia melhorar a governança para receber um investidor. Ele adiciona à companhia um valor que os fundadores não conseguiriam atingir sozinhos. A imprensa também tem um papel nisso, porque dá publicidade a esses casos.

Em comparação a outros mercados emergentes, como a China, pode ser que o Brasil esteja na frente, em termos de governança corporativa. Mas, quando se fala em crescimento da economia, ainda ficamos para trás…
Como investidor de private equity, não estou investindo em PIB, nem em macroeconomia. Estou investindo numa companhia na qual identifico potencial de crescimento excepcionalmente rápido, mais veloz que o do PIB, com administradores e proprietários confiáveis e cooperativos. Uma taxa de expansão macroeconômica de 9% é muito atraente. A China está num nível jamais alcançado por nenhum outro país na história. Mas o Brasil tem muitas empresas subcapitalizadas, que podem crescer em ritmo acelerado se encontrarem os sócios certos. Uma das razões para esse descompasso é a falta de acesso a capital. Poucas pequenas e médias empresas têm condições de ganhar escala. Elas chegam até certo estágio, com recursos próprios e capital de curto prazo, e param de crescer. O private equity pode ajudar a resolver esse problema. A ineficiência, que existe em muitos lugares no Brasil, se torna amiga dos investidores de private equity.

Além de investir em networking e marketing, na sua opinião, o que mais os brasileiros deveriam começar a fazer?
Vamos falar do mercado dos gestores de fundos voltados a pequenas e médias empresas, não de firmas como a GP e a Gávea. Acho que eles precisam não apenas viajar mais, mas também ler, acompanhar o noticiário internacional e estar a par do que está acontecendo na comunidade financeira global. Viajo pelo mundo inteiro, o tempo todo. Já estive em mais de cem países. Sempre me surpreendo, quando vou para o Brasil, meu país favorito, com a dificuldade para encontrar jornais que não sejam em português, como o Wall Street Journal e o Financial Times, mesmo em alguns dos melhores hotéis. E quando os acho, são tão caros… Isso pode ser um indicador de que o Brasil é mais fechado para o mundo exterior que muitos outros países menos desenvolvidos. Se você quer estar na comunidade global, precisa ter acesso a informações de locais diferentes. Em qualquer outro lugar para onde vou, posso comprar esses jornais em inglês na rua. O Brasil é um dos mais importantes dentre os emergentes, mas tem de aprender a se comportar como um player internacional.


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