A arte de saber ouvir

Companhias que mais ganharam liquidez nos últimos três anos têm uma estratégia simples: ir a campo para descobrir o que os investidores querem

Reportagem / Edição 28 / 1 de dezembro de 2005
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De todas as estratégias já conhecidas para aumentar a liquidez de uma ação, talvez nenhuma seja mais importante do que saber ouvir o mercado. Afinal, é ele quem decide se um determinado papel merece ou não ser negociado a partir dos mais variados critérios – dentre os quais a própria facilidade de vender ou comprar aquele ativo. Quem aprende isso e se mantém atento aos pedidos de corretoras, analistas independentes, bancos e investidores em geral comemora o salto no volume de negócios de suas ações nos últimos três anos.

Estamos falando dos dez primeiros colocados num ranking de aumento de liquidez elaborado pela consultoria Economática, a pedido da Capital Aberto. Segundo o levantamento, as ações cujo volume de negociação registraram maior crescimento de março de 2002 a setembro de 2005 foram: Vale do Rio Doce PN, Braskem PNA, Vale do Rio Doce ON, Gerdau Met PN, Bradespar PN, Lojas Americanas PN, Gerdau ON, TAM PN, Unipar PNB e Cyrela ON. O estudo usou um índice de liquidez calculado pela Economática, cuja fórmula leva em conta o número de negócios realizados e a movimentação financeira do papel.

“Quando a empresa fala com o mercado, no mínimo, fica mais exposta e, desse modo, será coberta com mais facilidade pelos analistas”, explica Geraldo Soares, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri). Mostrar-se ao mercado, no entanto, não significa apenas abastecer a caixa de e-mail das pessoas com informativos ou divulgar um caminhão de dados durante as conferências. “Ser transparente não é só dizer o que você pensa. A companhia tem de ouvir o que o investidor necessita e trazer essa demanda em suas reuniões internas para ver se pode ou não adotá-las”, ensina Soares.

Graças ao diálogo com o mercado, os profissionais de RI da Bradespar – cujo índice de liquidez pulou de 0,60, há três anos, para 1,11 – perceberam que o seu relatório da administração estava um tanto quanto confuso. Para organizar as informações de um jeito que agradasse o investidor, contrataram uma consultoria especializada e mudaram a maneira de divulgar o seu desempenho trimestral.

A concessão de tag along de 80% para os acionistas preferencialistas era um pedido antigo do mercado, que foi atendido em setembro passado. Também está nos planos a adoção de uma nova política de dividendos, que começará a vigorar a partir de 2006. “Essa forma de contato é fundamental para melhorarmos a liquidez das ações”, avalia Carlos Tsuyoshi Yamashita, analista de investimentos da Bradespar. Sem dúvida, o incremento da negociação foi impulsionado pela oferta secundária de ações finalizada em setembro deste ano, em que o Banco Espírito Santo vendeu sua participação acionária, e, ainda, por uma oferta primária realizada em dezembro de 2004.

Como detectar as demandas do investidor? Uma boa resposta seria: indo a campo. Reuniões Apimec, road shows, visitas às equipes, visitas às companhias, vale tudo para estar próximo do mercado e perceber o que falta para aproximar a sua visão do que esperam os executivos da companhia.

A Unipar, por exemplo, contratou os serviços de uma consultoria para apurar qual repercussão das iniciativas tomadas pela sua área de RI. Assim, os balanços consolidados, que eram apenas anualmente até 2002, passaram a ser trimestrais no ano seguinte. “O modo de falar sobre o desempenho financeiro da companhia também mudou”, diz Vitor Mallman, vice-presidente e diretor de RI. Antes, eles usavam os números operacionais em base 100 para efeito de comparação com os anos anteriores, mas, a partir de 2004, viram que eram mais amigáveis os valores nominais. “A adesão ao Nível 1 de governança e o aprimoramento dos nossos relatórios também foram importantes”, acrescenta ele.

É claro que ter uma boa história para contar ajuda muito na hora de conversar com o mercado. O vice-presidente executivo de Finanças e diretor de RI da Gerdau, Osvaldo Schirmer, prefere não eleger razões específicas para justificar a presença da companhia entre as dez ações que mais aumentaram sua liquidez nos últimos três anos. “Não tem segredo, só tem trabalho”, brinca.

Na Braskem, a história se repete. Quem ouviu a voz do diretor de RI da companhia, José Marcos Treiger, rouca após uma intensa maratona de apresentações no Brasil e exterior no início de outubro, entende por que seus papéis são um dos mais líquidos do Ibovespa. A cada trimestre, ele faz pelo menos uma apresentação na Apimec do Rio e de São Paulo, além de visitar uma ou duas regionais da entidade no Brasil. Também procura estar presente na maioria dos 12 eventos internacionais promovidos pelos bancos de investimentos no exterior. “É cansativo”, desabafa. “Mas eu gosto. É muito compensador.”

Além de marcar presença nos principais eventos nacionais e internacionais, ter uma boa história para contar ajuda muito

Mas para que tanto esforço? “Manter a liquidez de uma ação é um dos mantras do profissional de RI”, resume Geraldo Soares. Ele cita o exemplo de uma feira de automóveis para explicar como isso acontece na prática: “Se você tem um carro que é muito comercializado naquele local, todo mundo tem uma certa idéia de quanto estão pagando por ele. Mas se for um modelo mais raro, fica difícil ter uma referência”.

A TAM, que também aparece entre as ações que mais aumentaram a liquidez, realizou em junho uma oferta pública que contou com uma distribuição primária e secundária de ações preferenciais. No total, foram distribuídas ao público cerca de 30 milhões de papéis. Na ocasião, a companhia também assinou a adesão ao Nível 2 de governança e contratou um formador de mercado (market maker). “O investidor, quando vai à bolsa, analisa duas perspectivas: a saúde da empresa e a facilidade de compra e venda das ações adquiridas”, acredita Líbano Barroso, diretor de RI.

De fato, quem pensa estratégias para garantir uma boa liquidez não deixa de atender uma demanda do mercado. A liquidez dá conforto ao investidor, que verá garantida a possibilidade de se desfazer do ativo caso precise. Além disso, quanto maior o índice de negociabilidade, menores as chances de a ação sofrer um ataque especulativo por um grupo isolado. Isso sem contar a visibilidade adquirida pela empresa presente nos índices de papéis mais líquidos. Sim, vale o sacrifício.


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