Eles já sabem jogar

Empreendedores estão mais profissionais na busca de recursos de private equity e venture capital, e gestores acreditam ter superado a escassez de bons projetos

Reportagem / Edição 26 / 1 de outubro de 2005
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O mercado brasileiro de private equity e venture capital ficou mais bem-humorado no mês passado. A sinalização de que as escorchantes taxas de juros vão começar, ainda que de forma lenta, a descer a íngreme ladeira que escalaram no último ano somou-se às boas novas que já vinham animando o segmento. Dedicados à aquisição de participações em companhias com elevado potencial de crescimento, os gestores de fundos private equity e venture capital comemoram, por exemplo, o retorno dos recursos dos fundos de pensão – materializado pela agradável notícia de que a Previ está disposta a investir mais de R$ 300 milhões nessas carteiras. Comemoram também uma outra vitória, semeada com um trabalho demorado e persistente: as empresas candidatas a receber seus investimentos estão hoje muito mais preparadas, contam com projetos realistas e profissionais capacitados para lidar com a indústria de capital de risco.

É óbvio que sem o dinheiro dos investidores e com um momento econômico instável não há plano de negócios que faça milagres. Mas o contrário também é verdade. Sem bons projetos, o dinheiro e a economia saudável tampouco fazem chuva nesse mercado. Mais ou menos o que acontecia no Brasil há cerca de dois anos. Em 2003, existiam mais de US$ 700 milhões parados nos fundos de private equity e venture capital brasileiros esperando por boas – e viáveis – idéias. Tratava-se de uma situação quase surreal num país onde o crédito vem sendo, há anos, um dos grandes empecilhos para o desenvolvimento de novas empresas. “Eu recebia pessoas aqui que não sabiam ao menos elaborar um simples business plan. Era difícil”, diz Patrice Etlin, da Advent International.

A situação mudou. Ainda não é a que se poderia chamar de ideal, e nem está próxima da realidade norte- americana – a meca da indústria de capital de risco– . ou mesmo da européia. Mas os avanços são nítidos. “Hoje não temos mais problemas em selecionar projetos. A qualidade cresceu de forma substancial nos últimos anos”, afirma Paulo Bilyk, diretor executivo da Rio Bravo, que tem dois fundos de venture capital. Um deles, de R$ 20 milhões, é voltado para empresas nordestinas com grande capacidade de crescimento na região. O outro centra fogo em empresas de tecnologia – em especial as de TI e ciências da vida – e dispõe de R$ 50 milhões. Em ambos, Paulo diz estar com as negociações de investimento avançadas. A idéia é aportar todo o capital já no próximo ano.

IDÉIA BOA COM RISCO ATRATIVO – A principal mudança tem ocorrido na forma como os empreendedores têm encarado a indústria de capital de risco. Até pouco tempo, existia uma crença – ainda que velada – de que dinheiro de venture capital ou private equity era dinheiro de graça, quase um financiamento a fundo perdido. “Muita gente chegava até nós com uma idéia que achava genial, acreditando que conseguiria crédito, como se fossemos um banco de fomento”, conta Marcelo Safadi, diretor financeiro da Eccelera. “Hoje há uma maturidade muito maior”, diz ele.

A maturidade a que Safadi se refere é reflexo, principalmente, de uma compreensão muito mais ampla das empresas acerca do funcionamento da indústria e dos requisitos básicos para se conseguir um aporte de capital. As taxas de sucesso na prospecção continuam baixas, algo em torno de 1% a 3%. Mas, de acordo com os gestores, índices como esses são normais e pouco deve mudar. “A diferença é que agora todos que sentam à mesa de negociação sabem do que estão falando, entendem quem somos e como a coisa funciona”, diz Safadi. “As pessoas estão deixando de confundir boas idéias com bons investimentos”.

Agora, quem senta à mesa de negociação sabe do que fala. As pessoas estão deixando de confundir boas idéias com bons investimentos
Após a bolha da internet, gestores tiveram que reconquistar a confiança dos investidores e identificar as oportunidades certas de investimento

A desinformação, os mal-entendidos e o despreparo da maior parte das empresas em busca de recursos não são difíceis de entender. O mercado de capital de risco no Brasil é extremamente novo, só passou a ganhar certa dimensão há cinco, seis anos e, nesse meio tempo, ganhou também um bocado de propaganda negativa – principalmente por conta de casos conturbados, como o dos investimentos geridos pelo Opportunity. Os primeiros fundos começaram a surgir em meados da década de 90. Ganharam projeção com a privatização das teles e explodiram em 2000, quando a bolha da internet ainda inchava. Naquela época, todos aprendiam como funcionava a indústria em meio a um turbilhão poucas vezes visto no mundo dos negócios. “Foi um momento em que todos entraram, era uma corrida do ouro”, diz Frederico Greve, sócio da corretora Decisão.

A seleção natural que ocorre em situações como esta pode não ter sido a única responsável pela profissionalização dos participantes desse jogo, mas, sem dúvida, foi fundamental para o amadurecimento do mercado. “Quem sobreviveu teve que se aprimorar e, no final, saiu mais fortalecido do processo”, diz Greve. Quando a bolha estourou, muita gente foi embora junto com o rombo. Quem ficou precisou, de fato, ganhar musculatura para sobreviver a um período de baixa considerável. Ao contrário do ditado popular, no mercado de capital de risco, após a bonança veio a tempestade.

A escassez de investidores que sucedeu a bolha veio acompanhada da escassez de projetos. Até as melhores idéias e oportunidades de investimento já não atraíam os donos do capital. Com a taxa de juros acima da casa dos 25%, pelos idos de 2002- 2003, não havia páreo para a renda fixa. Quem tinha dinheiro preferia, por razões óbvias, buscar o seguro refúgio do CDI a se aventurar em um investimento de longo prazo sem garantia alguma de sucesso, em um ambiente macroeconômico para lá de conturbado. “Com o ‘senhor CDI’ forte do jeito que estava, ficava difícil competir”, diz o ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), José Luiz Osório, que hoje comanda a Jardim Botânico Partners.

Os projetos melhoraram, é verdade, e experiências bem-sucedidas de investimento em capital de risco animaram o segmento. Mas a ingrata batalha com a renda fixa, essa continua.

A REAÇÃO DOS GESTORES – No meio desse quase Katrina do mundo financeiro, os gestores dos fundos tiveram de se especializar e profissionalizar ainda mais. Eles, que são a ponte entre o capital e as empresas, precisaram desenvolver habilidades para conquistar a confiança dos investidores e identificar as boas oportunidades de investimento – o ciclo virtuoso, que é a força motriz deste negócio. “Hoje temos no Brasil uma comunidade de gestores extremamente profissional, que é, sem dúvida, filha da bolha, mas agora crescida e amadurecida”, diz Paulo Bylik, da Rio Bravo. Para ele, nenhum país emergente tem gestores de private equity e venture capital tão competentes quanto o Brasil. “Sinceramente, acredito que temos uma comunidade bem mais desenvolvida do que os principais mercados emergentes que atraem investimentos, como Argentina, México, Rússia e Índia”.

Foi em vista de gestores mais exigentes – e escolados – que os empreendedores também tiveram de se aprimorar para emplacar seus projetos. Além de aprender como funciona, de fato, a indústria de capital de risco, empreendedores ou empresas já estabelecidas saíram atrás de profissionais que entendessem deste negócio.

A qualificação dos profissionais envolvidos também é o ponto crucial no amadurecimento daqueles que buscam um aporte de capital, segundo os gestores. “É claro que o projeto é a primeira coisa a ser analisada, mas são as pessoas que estão nele que fazem a diferença, que fazem você decidir se vai investir ou não”, diz Marcelo Safadi, da Eccelera, que tem dois fundos – um de US$ 20 milhões e outro de R$ 24 milhões, ambos com quase todo o capital comprometido. “O que temos percebido é que a qualidade dos profissionais cresceu de forma incrível nesses últimos dois anos”, diz.

Agora, as expectativas recaem sobre o terceiro ingrediente necessário para que a receita da indústria de capital de risco tenha mais sabor: os investidores. Na opinião dos especialistas do setor, as condições são mais do que favoráveis para que os donos do capital utilizem os fundos de private equity e venture capital na diversifucação de seus investimentos.

O cenário macroeconômico anda bem e, com as sinalizações de uma queda mais acentuada da taxa de juros, promete melhorar. Experiências positivas, como as da Gol, Natura e ALL – com a saída dos investimentos via mercado de capitais –, não chegam a apagar, mas, sem dúvida, minimizam os efeitos dos escândalos envolvendo fundos de private equity que volta e meia ainda despontam nos jornais e nas CPIs. “Esse, sem dúvida, é um momento muito positivo. Há muita gente captando e novos fundos surgindo, com o aval de investidores de peso”, afirma Gilbert Castro Filho, diretor de operações da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP).

Os investidores de peso a que Gilbert se refere são, entre outros, os fundos de pensão. Após um longo período de aversão aos fundos de capital de risco, eles acenam um retorno. O caso mais emblemático foi o anúncio, no primeiro semestre deste ano, de que a Previ investirá R$ 350 milhões no setor. “A entrada dos fundos de pensão é muito positiva, há muito tempo não víamos um movimento como esse”, diz Patrice Etlin, da Advent, que administra um fundo de US$ 200 milhões destinado apenas ao Brasil.

Ainda há muito que ser feito nesta indústria. Já existe massa crítica, sem dúvida, mas os volumes precisam crescer, tanto em investimento quanto em projetos de alto nível. No final das contas, uma coisa parece certa: apesar dos problemas que ainda existem, o capital de risco começa uma segunda fase no Brasil, bem melhor do que saiu da primeira.


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