Unidas pelos erros

Mesmas falhas de governança estão na origem de escândalos empresariais recentes

Governança Corporativa / Governança / Temas / Edição 74 / 1 de outubro de 2009
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Société Générale, Agrenco, Lehman Brothers, Bear Sterns, AIG, Sadia, Aracruz, Siemens, Madoff, Stanford Bank e Satyam. Todas essas organizações passaram por sérios problemas de governança nos últimos 20 meses. Trata-se de um curtíssimo espaço de tempo, porém suficiente para uma enorme destruição do patrimônio de seus investidores. Uma estimativa conservadora das perdas associadas a esses episódios chega à astronômica cifra de cerca de
US$ 341 bilhões. Isso sem levar em conta os impactos sobre seus funcionários e a sociedade.

Obviamente que se trata de casos muito heterogêneos. Alguns envolvem fraudes e problemas legais, enquanto outros (como Sadia, Aracruz e os bancos de investimentos norte-americanos) resultam de más decisões na cúpula das empresas, sem ilegalidades. Todos eles, entretanto, apresentam lições importantes para os investidores, reguladores e o mercado em geral. Analisados de forma agregada, levam a importantes sinais de alerta. Antes de discriminá-los, vale trazer um resumo desses casos:

1) Société Générale: em janeiro de 2008, o renomado banco francês reportou prejuízos de cerca de US$ 7 bilhões associados a operações fraudulentas com derivativos. De acordo com o banco, todas as operações foram realizadas isoladamente por um único operador, Jérome Kérviel, que supostamente havia burlado o sistema de controles da instituição. Kérviel, por sua vez, afirma que “minha hierarquia fechava os olhos quando estava no positivo”.

2) Agrenco: em abril de 2008, apenas oito meses após captar cerca de R$ 700 milhões em seu IPO, a Agrenco teve seus principais executivos presos pela Polícia Federal, acusados de crimes como desvios de recursos, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal, dentre outros. Suas ações despencaram 99% posteriormente, e a companhia encontra-se sob recuperação judicial.

3) Lehman Brothers e Bear Sterns: ícones de Wall Street, essas instituições foram à falência (Lehman) ou vendidas a preços simbólicos (Bear Sterns) em 2008, devido a complexas operações financeiras que resultaram em sua insolvência. Falhas na supervisão dos riscos pelos conselhos e no sistema de remuneração dos executivos são apontadas como os principais culpados pela derrocada.

4) AIG: a então maior seguradora do mundo se envolveu em arriscadas transações financeiras que resultaram em perdas colossais, tendo que ser socorrida pelo governo norte-americano em mais de US$ 150 bilhões para escapar da falência. Os problemas de governança não eram novos, já que a companhia havia sido multada em quase US$ 2 bilhões em 2005 devido a manipulações contábeis e fraudes no balanço.

5) Sadia e Aracruz: no fim de 2008, as duas reportaram perdas bilionárias associadas a posições especulativas em operações com derivativos. Além do gerenciamento de riscos e da supervisão deficiente pelos conselhos e demais órgãos de controle, os problemas podem ter sido catalisados devido a sistemas de incentivo inadequados na alta gestão.

6) Siemens: em dezembro de 2008, a companhia foi multada em US$ 1,6 bilhão por autoridades norte-americanas e europeias após ser acusada de utilizar fundos fantasmas da ordem de US$ 500 milhões para pagar propinas e obter contratos em países emergentes. O escândalo levou ainda a onerosas reestruturações internas.

7) Madoff: Bernard Madoff, em dezembro de 2008, assumiu ter criado um esquema de pirâmides de investimentos (esquema Ponzi) durante décadas na sua companhia de gestão de recursos, resultando em perdas de US$ 65 bilhões para seus cerca de 4.800 investidores. Além dos óbvios problemas de controles internos e auditoria, a falta de due dilligence dos investidores e dos órgãos reguladores (que haviam sido alertados sobre potenciais problemas no fundo) também contribuiu para o episódio.

8 ) Satyam: no início de janeiro de 2009, Ramalingam Raju, presidente do conselho e fundador da Satyam (quarta maior empresa de TI da Índia) enviou uma carta aos demais conselheiros e ao órgão regulador do país reconhecendo sua culpa por fraudes de US$ 1,6 bilhão. A companhia havia inflacionado 76% das receitas e 97% dos lucros do ano anterior.

9) Stanford Bank: Em fevereiro de 2009, a SEC descobriu uma fraude bilionária de US$ 9,2 bilhões, envolvendo novamente o esquema de pirâmides de investimento. Dessa vez, o problema aconteceu com o Stanford Bank, instituição com sede em Houston e com sociedades offshore na ilha de Antígua.

Em 2006, após avaliarem diversos escândalos do início desta década, os autores do livro Greed and Corporate Failure, Stewart Hamilton e Alicia Micklethwait, chegaram a seis causas: conselhos de administração ineficazes; decisões estratégicas erradas; CEOs excessivamente poderosos; atmosfera de arrogância corporativa e ganância; falha dos controles internos; e expansão excessiva das atividades por meio de más aquisições. Outros três fatores contribuíram para os recentes escândalos de governança: sistemas de remuneração inadequados; falhas na regulação; e falta de questionamento dos investidores. A tabela abaixo apresenta os principais problemas que contribuíram para cada um deles.


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