Memórias do mercado

Ney Carvalho

Bimestral/Relações com Investidores/Retrato/Temas/Edição 84 / 1 de agosto de 2010
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Ney Carvalho chega com um livro de encadernação antiga, em couro, debaixo do braço. Acabou de pegá-lo na biblioteca do Jockey Club Brasileiro, no centro do Rio, onde ocorre esta entrevista, em busca de informações para uma nova pesquisa. “Mas vou ter que olhar o resto”, conclui, num suposto lamento diante da tarefa de folhear os outros 12 volumes de A história do café, de Affonso de Taunay. “Gosto de pesquisar”, reconhece. “É a minha vida.”

Sem dar-se conta, Carvalho quase repete a sentença em seguida, só que no passado: “O mercado de capitais foi a minha vida”, afirma ele, referindo-se agora à primeira carreira, como corretor de valores, quando o interesse por pesquisas já se manifestava. Nas viagens de trabalho a Nova York, sempre reservava algum tempo para garimpar livros sobre o mercado. “Nos anos 1970, praticamente não havia essa literatura no Brasil”, justifica.

Basta olhar a árvore genealógica de Ney Oscar Ribeiro de Carvalho, mais conhecido como Neyzinho, para compreender o duplo fascínio por história e mercado de capitais. Seu trisavô foi nomeado corretor no Rio em 1859. Seu bisavô obteria a nomeação em 1890, sendo seguido no próximo século por seu tio-avô. Em 1965, quando a Lei do Mercado de Capitais obrigou os corretores nomeados a transformarem seus negócios em empresas — criando as corretoras de valores —, o representante da família na função já era seu pai, Ney Carvalho, que colocou o próprio nome na companhia e chamou o filho mais velho para aprender a função.

Com apenas 15 anos, Neyzinho começava a trabalhar na corretora Ney Carvalho, na qual teve, concomitantemente, lições sobre o passado, nas conversas saudosas em torno dos pregões à moda antiga, e o futuro, representado pelas transformações em curso. Em 1966, integrou um grupo de 20 brasileiros, patrocinado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE, ainda sem o “s” de Social), para fazer um curso sobre mercado de capitais nos Estados Unidos. Nos anos seguintes, Carvalho voltaria algumas vezes ao país, que se tornou grande alvo de admiração, não só pelo mercado robusto como pelas ideias liberais — das quais é ferrenho defensor.

Graduado em direito (“na geração anterior, só me recordo de dois corretores formados, ambos médicos”, observa), o precoce corretor nem cogitou seguir a carreira de advogado, pois acreditava que sua missão era ajudar a profissionalizar o negócio da família, trabalhando e estudando. Afinal, a Ney Carvalho tornara-se uma das maiores corretoras do País, atrás apenas da Marcelo Leite Barbosa. Com 27 anos, seus conhecimentos já eram tão vastos que foi chamado pelo economista Roberto Teixeira da Costa, que então formava a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), para participar da primeira diretoria da autarquia. A experiência durou somente seis meses.

“Descobri que não tinha vocação para o serviço público e pedi o boné”, lembra, ressaltando que as amizades da época permanecem até hoje. No mercado, Neyzinho sempre foi conhecido como o típico boa-praça carioca, que não costuma se indispor com os colegas, e a função de fiscalização lhe parecia desconfortável. “Aprendi que a melhor coisa é ser gentil e educado. Não tenho inimigos.” De volta ao mercado, decidiu ter sua própria corretora, para desgosto do pai, deixando a Ney Carvalho sob a supervisão do irmão Fernando, dois anos mais novo. A sua, Carvalho & Carvalho, porém, acabou quebrando em 1983, seis anos antes que a corretora administrada pelo irmão também sucumbisse, envolvida nas operações do especulador Naji Nahas.

“Aquela foi uma história de gângsteres”, diz Carvalho, evitando detalhes sobre o melancólico fim da corretora que levava o nome de seu pai, também o seu. Encerravam-se assim 130 anos de história da família no mercado. “Eu já tinha perdido tudo em 1983. Fui uma das primeiras vítimas das máfias de manipuladores que infestaram aquela década. Perdi a corretora e o patrimônio, mas o que eu tinha na cabeça ficou, e é disso que vivo hoje. Sempre digo aos meus filhos que o estudo é a única coisa que ninguém nos tira”, ressalta, enumerando o sucesso profissional dos quatro filhos, com idades entre 37 e 46 anos. “Nenhum corretor”, acrescenta, sem se importar.

Graças à memória recheada de histórias e ao interesse por pesquisas, Carvalho acabaria participando de sucessivos projetos de livros, começando pelo que contou a história da Bolsa de Valores do Rio, nos 150 anos da instituição, em 1995. A biblioteca pessoal, com cerca de 5 mil volumes guardados em sua casa de Petrópolis, na serra fluminense, também ajudou na especialização. Sob encomenda, escreveu sobre a história do Botafogo (“mas sou fluminense!”) e do Jockey Club, e produziu livros iconográficos sobre o Rio de Janeiro. Mas seus maiores orgulhos são as obras relacionadas ao mercado de capitais, especialmente O encilhamento: anatomia de uma bolha brasileira, publicado em 2004.

“Levantei nos arquivos do Jornal do Commercio fatos sobre o encilhamento (movimento especulativo do começo da República) nunca antes citados”, orgulha-se. Ao todo, Carvalho já escreveu 12 livros, além de ter participado de pesquisas como a que o tem levado a esmiuçar a história do café no estado do Rio. “Quando estou em um trabalho desses, não consigo desligar.” Com 70 anos recém-completados, Neyzinho é só entusiasmo quanto aos novos projetos. “A história do Brasil é sempre a do Estado; nunca tem o ponto de vista da comunidade de negócios. Há muito que contar e recontar.” Como membro de uma família que fez história, Carvalho abraça essa missão.




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