Dinheiro lá fora

Com a entrada em vigor da Instrução 555, gestores se preparam para lançar fundos de investimento no exterior com aportes iniciais a partir de R$ 10 mil

Legislação e Regulamentação / Reportagem / Edição 145
/ 1 de setembro de 2015
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Ilustração: Grau 180.com

Que tal seria se um investidor brasileiro pudesse aportar recursos em ativos estrangeiros para diversificar sua carteira, de forma simples, sem ter de remeter recursos para fora? Essa possibilidade, ainda restrita a um seleto grupo de aplicadores, estará disponível para um contingente bem maior assim que a Instrução 555 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) entrar em vigor, em 1º de outubro. Ela permite ao investidor qualificado — aquele com R$ 1 milhão em aplicações financeiras, como define a regra — destinar dinheiro a fundos de investimento 100% compostos de ativos estrangeiros. E mais do que isso: dispondo de uma quantia bastante inferior à atual. A norma abriu espaço para as assets fixarem os tíquetes mínimos que julgarem adequados, e grande parte pode optar por valores baixos, a partir de R$ 10 mil — hoje, os fundos desse tipo exigem investimento de, pelo menos, R$ 1 milhão. A novidade tem entusiasmado os gestores.

“A norma foi uma importante indicação de flexibilização e abertura. Pela primeira vez, o brasileiro será tratado como qualquer investidor de país desenvolvido”, comemora Marcus Vinícius Gonçalves, diretor-presidente da Franklin Templeton no Brasil. Animado com a perspectiva para o produto no longo prazo, o gestor afirma que a casa pode prontamente lançar um feeder fund, fundo local com aplicação em veículos de investimento da gestora no exterior. “Estamos prontos para montar o produto, se os distribuidores demonstrarem interesse.” Para Gonçalves, a efervescência desse mercado vai depender da aceitação da ideia no varejo seletivo. “A demanda potencial é gigante, mas o cliente precisa saber que o produto existe”, diz.

A Western Asset decidiu dar o primeiro passo. Quando a Instrução 555 entrar em vigor, abrirá à captação um feeder fund que aplicará no Legg Mason Western Asset Macro Opportunities Bond Fund. O fundo, baseado em Dublin, na Irlanda, tem patrimônio de US$ 4,3 bilhões. Ele pode ficar comprado (long) ou vendido (short) em títulos de renda fixa, juros e moedas. Maurício Lima, gerente de produtos da gestora, afirma observar forte procura por investimento em ativos estrangeiros.

Atualmente, a Western tem dois fundos locais que atendem a essa demanda: um compra Brazilian depositary receipts (BDRs) e o outro investe no índice S&P 500 futuro, ambos ativos negociados na BM&FBovespa. O primeiro chegou ao mercado em maio de 2014 e reúne patrimônio aproximado de R$ 70 milhões. O segundo, de abril de 2013, acumula R$ 230 milhões. Como ambos são de renda variável, a Western prefere agora ofertar fundos de investimento no exterior voltados à renda fixa. A casa ainda não decidiu se revisará para baixo o tíquete mínimo desses dois fundos. Primeiro, quer analisar como o mercado se comportará com a chegada da Instrução 555.

Em busca de parceiros

Enquanto as gestoras internacionais planejam abrir feeder funds, as casas independentes nacionais trilham o caminho de firmar parcerias com assets estrangeiras. Essa foi a solução encontrada, por exemplo, pela brasileira Journey Capital, que se aliou à inglesa Algebris, especializada em títulos de instituições financeiras e com US$ 2,5 bilhões em ativos sob gestão. Antecipando-se à entrada em vigor da Instrução 555, ela lançou há dois meses o Journey Capital Algebris FIM Investimento no Exterior. A carteira investe no Algebris Financial Credit Fund, que compra dívidas sênior e subordinada de bancos globais (como os contingent convertible bonds, títulos híbridos que podem ser convertidos em ações caso a saúde financeira do emissor acione determinado gatilho). “No pós-crise de 2008, o sistema bancário se fortaleceu. Há pouco risco e muitos ativos mal precificados”, diz Rogê Rosolini, sócio da Journey. Também baseado na Irlanda, o Algebris Financial Credit Fund tem patrimônio de US$ 1 bilhão.

O fundo da Journey deve aplicar 75% do patrimônio, em média, no fundo da Algebris. O restante será destinado à compra de títulos da dívida pública do governo federal, para evitar que o investidor perca os rendimentos dos juros brasileiros. De acordo com a Instrução 555, fundos de investimento no exterior precisam ter pelo menos 67% da carteira aplicada nessa classe de ativo. Assim que a norma começar a valer, o produto será aberto à captação. O tíquete mínimo deverá ser reduzido para algo entre R$ 10 mil e R$ 25 mil.

Rede de distribuição

A Guide Investimentos, que distribui 65 fundos de diversas gestoras, se apronta para ofertar veículos que apliquem 100% de seu patrimônio em ativos internacionais. “Serão poucos e bons”, diz Aline Sun, sócia da empresa. O objetivo da Guide é comercializar perto de cinco fundos de renda fixa e variável que invistam nos mercados americano, europeu e asiático, com tíquete mínimo de R$ 50 mil a R$ 100 mil.

As gestoras dos bancos também estão de olho nesse filão. A Santander Asset Management (SAM), por exemplo, irá reduzir o tíquete mínimo do fundo Global Equities, que hoje exige aporte inicial de R$ 1 milhão. Segundo João Morais, superintendente de produtos da SAM, o novo valor deverá ser anunciado no fim de setembro, mas a ideia é que seja “bem mais acessível”. Hoje, a casa de gestão comanda três estratégias de investimento em ativos estrangeiros que, somadas, acumulam patrimônio de R$ 470 milhões. Além do Global Equities, com fundos de ações de vários gestores, a asset gere o Global Multimercados e o Global Diversificação. Com tíquete mínimo de R$ 10 mil, os dois poderão aplicar percentuais de 20% e 15% do patrimônio, respectivamente, nos mesmos fundos escolhidos pelo Global Equities.

Falta instrução

A elevada taxa de juros brasileira é, contudo, um obstáculo à proliferação de fundos de investimento no exterior. “Os investidores querem bater o CDI”, observa Gonçalves, da Franklin Templeton. Por isso, para a diversificação geográfica dos investimentos se popularizar, será necessário educar o investidor para comparar o retorno dos fundos com outros benchmarks, como os índices MSCI e S&P 500, ou com alguma taxa de juros, como a Libor.

Outro ponto importante, considera Gonçalves, é mostrar ao investidor que há vários motivos para se aplicar no exterior, e não só os óbvios — diversificação de moedas e possíveis ganhos com a desvalorização do real. Também deve ser levada em conta a exposição a diferentes classes de ativos, a ciclos de crescimento econômicos distintos e a setores inexistentes por aqui.

Esses propósitos, entretanto, ainda são pouco compreendidos pelo investidor, que se apega principalmente ao desencanto com a economia brasileira para aportar recursos em ativos internacionais: “O investimento no exterior é positivo para os portfólios, independentemente do otimismo ou pessimismo com o Brasil”, defende Artur Wichmann, gestor de fundos globais da Verde Asset Management. Para ele, o investidor deveria olhar para a geração de valor em termos globais. Companhias bem geridas, com boas marcas e presença global, a exemplo da Nestlé, apresentam alta geração de riqueza para os acionistas, o que as torna elegíveis para qualquer portfólio de renda variável, afirma.

A Verde possui uma equipe local para estudar as companhias de fora do País. São cinco analistas de ações, três de moedas e dois economistas de mercados internacionais, além dos gestores e operadores. A casa aguarda a entrada em vigor da Instrução 555 para decidir se reduz o tíquete mínimo de seus fundos: “Somos simpáticos à ideia, mas ainda não discutimos a questão a fundo”, confessa Wichmann. Hoje, os quatro produtos da Verde que aplicam no exterior exigem aporte inicial de R$ 1 milhão. O Global Equities e o Alpha investem só no exterior; o Prisma e o Horizonte combinam a estratégia local com a global.

Enquanto as gestoras internacionais planejam abrir feeder funds, as casas nacionais trilham o caminho de firmar parcerias com assets estrangeiras

Outro fator adverso para as aplicações em ativos estrangeiros é a demanda dos fundos de pensão, ainda considerada baixa. “Os números são frustrantes”, afirma Marcelo Giufrida, sócio da Garde Asset Management. Estimativa de março da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp) revelava que as fundações aplicavam 0,05% do seu patrimônio sob gestão, de R$ 688 bilhões, em ativos no exterior.

O pior é que o ambiente atual não favorece uma mudança nesse cenário. Para bater suas metas atuariais, as fundações precisam garantir rendimento correspondente à inflação somada a uma taxa de 5% ao ano — ganho que, no exterior, só é possível na renda variável, explica Giufrida. As fundações, porém, vêm paulatinamente reduzindo suas carteiras de ações. Também joga contra a maior burocracia a que elas estão sujeitas: a previsão para investir em ativos fora do País precisa constar do estatuto, que carece da aprovação do conselho de administração.

Esses fatores somam-se, por fim, à concorrência que os fundos mútuos enfrentam com os produtos isentos de impostos (como LCAs e LCIs). O conjunto explica o desânimo da Garde em lançar, no curto prazo, fundos que invistam 100% do patrimônio no exterior. “Vemos nossa vantagem competitiva no mercado local, onde sabemos extrair valor dos ativos”, diz Giufrida. O gestor entende, porém, que a Instrução 555 vai na direção certa. A questão é que, para o investimento no exterior ser estimulante, os juros também precisam ir. Os internos, para baixo, e os externos, para cima.

Top 10

As casas brasileiras que mais aplicam no exterior (em US$ milhões)

1. Verde Asset Management: 2.643

2. BW Gestão de Investimento: 1.601

3. Credit Suisse Hedging Griffo: 1.302

4. BTG Pactual: 750

5. J Safra Asset Management: 571

6. Pragma: 565

7. BB DTVM: 537

8. Lizar: 524

9. BTG Pactual WM: 518

10. Goldman Sachs: 390


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