Novas fronteiras

Gestores de recursos levam os requisitos ambientais, sociais e de governança para além dos fundos éticos

Gestão de Recursos / Reportagem / Edição 132 / 1 de agosto de 2014
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A importância das questões ambientais, sociais e de governança (chamadas de ESG, na sigla em inglês) é crescente. Uma boa medida disso pode ser dada pelo episódio do fundo que aplica os recursos doados por alunos (endowment) em benefício da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Na primeira semana de maio, a instituição resolveu desinvestir US$ 17,8 bilhões alocados em ações de empresas que exploram carvão mineral. A decisão deve-se à pressão dos alunos, mas também obedece diretrizes do fundo que requerem dos gestores avaliar se as políticas e práticas corporativas de uma investida podem causar danos sociais significativos. Cem companhias no mundo todo serão excluídas da carteira de investimento da Stanford. Embora elas representem uma pequena fração de portfólio da gestora, a medida tem grande peso simbólico.

No Brasil, a importância de se levar em conta critérios sociais, ambientais e de governança na análise de investimento também vem ganhando força. Prova disso é sua expansão para além dos chamados fundos éticos, criados principalmente no início da década passada. Esses veículos tinham suas aplicações orientadas por diretrizes que vetavam a compra de ações em determinados setores e privilegiavam papéis de companhias reconhecidas por suas práticas em ESG. O primeiro deles foi o Ethical, do então ABN Amro (hoje sob gestão do Santander). Aberto em novembro de 2001, o fundo tem equipe de avaliação própria. Seu conselho consultivo, composto de dois profissionais do banco e cinco especialistas externos, reúne-se trimestralmente para analisar as empresas da carteira. Outro dos pioneiros foi o Itaú Excelência Social, aberto em 2004. Inovou ao doar 50% da taxa de administração a projetos sociais.

Ao longo da década, outras instituições lançaram fundos voltados para boas práticas de governança e sustentabilidade. No mercado brasileiro, o mais recente é o XP Ayrton Senna. Criado em julho de 2013, destina 50% da receita da gestora com ele a projetos do Instituto Ayrton Senna. “Achamos importante tornar o benefício tangível: é a melhor forma de estimular a demanda por esse tipo de fundo”, diz Patrícia Stille, gestora da XP Investimentos.

O modo de proceder desses produtos obedece à lógica do que podemos classificar como a fase preliminar do investimento responsável. Inicialmente, ele se baseava em listas restritivas, que proibiam a inclusão de ações de determinadas empresas ou setores, num processo chamado de “negative screening” (filtro negativo). Na década de 1980, as práticas progrediram para o filtro positivo, que usa a abordagem contrária: elabora-se uma lista de setores e tipos de negócios que podem receber investimentos. Entre os anos 1990 e a década passada, passou-se a adotar um sistema de ranking, designado “best-in-class”, em que apenas as companhias mais bem colocadas em cada setor ou conjunto de critérios entravam nas carteiras. “O processo foi evoluindo para que fosse possível identificar e precificar as empresas de desempenho mais sustentável”, explica Rodrigo Noel, gestor de fundos da Itaú Asset Management. “Hoje, buscamos quantificar o efeito das iniciativas de sustentabilidade no negócio, mesmo em empresas de impacto ambiental grande. As listas são apenas uma referência, acessórias à tomada de decisão.”

Além do horizonte
Essas formas de avaliar os ativos éticos geraram resultados tão bons (confira quadro abaixo) que a ideia, agora, é incorporar o aprendizado às carteiras de investimento de todos os tipos. “Os fundos dedicados, apesar de muito bons para promover a importância dessa abordagem, acabam limitando a evolução das práticas de investimento responsável”, considera Joaquim Levy, diretor-superintendente da Bradesco Asset Management (Bram). “Precisamos de instrumentos para capturar valor e justificar nossas escolhas, mesmo em mandatos gerais”, argumenta.

Com isso em mente, a Bram trabalha na construção de uma nova metodologia de análise, que visa integrar os aspectos ESG à avaliação de riscos e às decisões de investimento em todas as classes de ativo cobertas por seus fundos. Além de uma base de dados com as práticas sociais, ambientais e de governança informadas pelas companhias investidas, a iniciativa prevê o desenvolvimento de um sistema de classificação, a partir de indicadores específicos para os diferentes setores. Realizado em conjunto com uma consultoria, o trabalho inclui pesquisa com corretoras e fornecedores para entender como as questões de sustentabilidade são abordadas por esses parceiros.

Hoje, as métricas desenvolvidas internamente já vêm sendo aplicadas na ponderação de empresas de 18 setores, como aviação, construção civil, finanças, mineração e petróleo. A meta é integrar todos os segmentos da economia. Como esse trabalho de análise também depende da transparência na divulgação dos princípios ESG, a gestora tem auxiliado as empresas a melhorar a comunicação desses indicadores.

O Itaú Asset Management trilha o mesmo caminho. Desde 2011, a metodologia de fatores ambientais, sociais e de governança do Fundo Itaú Excelência Social (FIES) é aplicada a todos os veículos de renda variável geridos pela asset. Há, contudo, uma diferença: o FIES ainda utiliza o negative screening na hora de escolher os ativos; para os outros fundos, esse critério foi eliminado.

Ciclo de baixa
As mudanças internas contribuem para justificar o baixo índice de lançamento de fundos éticos nos últimos tempos. Depois do boom do começo da década passada, poucas carteiras surgiram. Mas outras razões explicam o declínio: “Ainda falta dinamismo ao setor de renda variável no Brasil”, observa Hugo Penteado, economista-chefe do Santander. “Existe um trabalho a ser feito para que o investimento responsável seja percebido como valor agregado”, acrescenta.

Como os fundos sustentáveis se dirigem quase exclusivamente aos investidores pessoas físicas, a demanda por esses veículos sofreu bastante com o ciclo de baixa da bolsa brasileira. “Nos últimos dois anos, a pessoa física ficou mais avessa aos instrumentos de renda variável, o que atingiu os fundos éticos, apesar de sua boa rentabilidade”, afirma Levy, da Bram.

Além disso, a criação de fundos de nicho no País sofre com a oferta restrita de ativos considerados alternativos ao foco da carteira. “Trata-se de uma questão estrutural: quanto mais restritiva for a política de investimento do fundo, menor será o pool de ações e mais limitada a capacidade de decisão do gestor”, argumenta José Alberto Baltieri, responsável pelos fundos de sustentabilidade empresarial e governança da Bram.

Penteado, do Santander, vê o investimento responsável como uma possível mola propulsora da aplicação em renda variável no Brasil. Para ele, a chave está na participação dos fundos de pensão. Lá fora, são eles — e outros veículos com visão de longo prazo, como os endowments — que estimulam a adoção desse tipo de prática. “O investidor consciente não olha só para o curto prazo, mas também para a qualidade do trabalho da empresa no seu entorno”, comenta Penteado.

Segundo dados do Global Sustainable Investment Review, no fim de 2012 49% dos recursos sob gestão na Europa já se enquadravam nos critérios de investimento responsável. Essa proporção era de 35,2% na África, 20,2% no Canadá e de 11,2% nos Estados Unidos. O estudo, da Global Sustainable Investment Alliance, não cobre a América Latina. Quem sabe isso mude, com o principal país da região avançando nessa seara.

Ilustração: Beto Nejme/Grau180.com


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