Na onda dos consumidores digitais, robo-advisors avançam no Brasil

Pode-se dizer que o universo digital é habitado por dois tipos de usuários: os nativos e os convertidos. Enquanto os primeiros nasceram e cresceram com as plataformas tecnológicas operando a todo vapor, os segundos se renderam a elas após anos enfrentando os desafios de um mundo sem internet. …

Gestão de Recursos/Seletas/Reportagem/Edição 59 / 3 de dezembro de 2016
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Ilustração: Rodrigo Auada

Ilustração: Rodrigo Auada

Pode-se dizer que o universo digital é habitado por dois tipos de usuários: os nativos e os convertidos. Enquanto os primeiros nasceram e cresceram com as plataformas tecnológicas operando a todo vapor, os segundos se renderam a elas após anos enfrentando os desafios de um mundo sem internet. Somados, esses dois grupos já superam os “analógicos” — as pessoas que, até hoje, vão ao banco pagar uma conta em papel, por exemplo. O avanço dos consumidores digitais cria demandas por serviços automatizados, e a máquina, cuja função inicial era elevar a escala de produção industrial, passa a assumir também a tarefa de tomar decisões. “A revolução industrial substituiu os músculos pela automação. Agora é o pensamento que está sendo substituído”, observa Fernando Exel, presidente da Economatica.

Na área de investimentos, os chamados robo-advisors tomam decisões no lugar dos consultores de carne e osso. Por meio de algoritmos, esses conselheiros-robôs analisam diversas opções de aplicação e sugerem aquelas que melhor se adaptam aos objetivos e ao perfil do cliente. “Apesar da referência a robôs, não se trata de inteligência artificial. Envolve menos ficção científica do que parece. O nosso robô está mais para uma grande calculadora”, compara Felipe Sotto-Maior, cofundador da Vérios, gestora que inaugurou o serviço de robo-advisor para seus clientes neste ano.

Quem contrata o serviço preenche um formulário e deixa o robô se encarregar do resto. O público-alvo da Vérios é formado pelos millennials (geração nascida entre 1980 e 1990) e por clientes na casa dos 40 anos. Mas a ferramenta igualmente conquista “convertidos” de gerações anteriores. “Recentemente, uma senhora de 77 anos nos contatou”, conta Sotto-Maior. Na Magnetis, que oferece a mesma ferramenta, o perfil dos aconselhados, vez ou outra, também foge dos padrões. “A pessoa mais nova a contratar nossa plataforma tem dois anos. A mais velha é a avó dela, de 73”, diz Luciano Tavares, CEO da Magnetis. Para ele, a automatização veio acabar com uma lacuna tipicamente brasileira e que os consultores de investimento não estavam sendo capazes de atender. “No Brasil, não tínhamos a referência do advisor independente”, observa.

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Não significa, contudo, que os robôs vão substituir a mão de obra humana no aconselhamento de investimento. “O robo-advisor não quer tirar espaços, mas sim ampliar possibilidades”, esclarece Sotto-Maior, ressaltando que por trás da ferramenta existe uma equipe de gestão dedicada ao serviço. A CFA Society, que confere um dos mais altos níveis de certificação para consultores de investimento, avalia positivamente a interação entre homem e máquina na gestão de recursos. Para Luis Affonso, diretor da entidade, essa é uma forma de democratizar o aconselhamento e de reduzir as taxas cobradas pelas gestoras de recursos.

A taxa de consultoria da Magnetis, por exemplo, é de 0,4% ao ano sobre o valor investido e o custo total das carteiras recomendadas — incluindo corretagem, administração, emolumentos e custódia — varia entre 0,58% e 0,99% ao ano sobre o montante aplicado. “A tecnologia tende a popularizar um serviço que hoje é restrito ao investidor com mais recursos”, diz Affonso. Quem também vê com bons olhos o movimento é Roberto Lee, diretor de produtos da Clear Corretora, pertencente ao Grupo XP. “O que antes aconteceu com o roteamento de ordens agora acontece com a consultoria. As tecnologias disruptivas atingem vários setores. É ingênuo achar que a nossa indústria não será modificada”, afirma.

No exterior, os robo-advisors já estão em pleno funcionamento e, segundo o superintendente-geral da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), José Carlos Doherty, são observados de perto — e de forma amigável — pelos xerifes do mercado. “A postura dos reguladores internacionais sobre o tema tem sido a de entender primeiro e regular depois”, diz Doherty. “Na Anbima, também vemos oportunidade de autorregulação dessas plataformas de investimento”, acrescenta.

Como todo serviço on-line que mexe com dados pessoais, a segurança da informação é considerada um ponto de atenção. Mas o CEO da Magnetis se considera preparado para lidar com essa questão. “Os riscos não são diferentes daqueles enfrentados pelos humanos. Tanto os de informação como os de suitability”, conclui Tavares.

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Tags:  tecnologia investimento inovação tecnologias disruptivas robo-advisors plataformas digitais consultores digitais Vérios Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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