Consultor-robô

Imparciais e de baixo custo, sistemas de aconselhamento financeiro baseados em algoritmos atraem bilhões nos EUA e chegam ao Brasil. A dúvida é se o barato pode sair caro

Bimestral/Gestão de Recursos/Reportagem/Edição 151 / 31 de agosto de 2016
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Robo advisors DESTAQUE

Hoje é raro encontrar alguém que faça transações financeiras sem recorrer à comodidade da internet. Com poucos cliques ou toques, no computador ou no celular, é possível fazer transferências, pagamentos e até empréstimos. A mesma praticidade vale na hora de se investir — salvo em caso de dúvida sobre onde aplicar. Nessa situação, em geral, é preciso pedir ajuda ao gerente do banco ou a um consultor de investimentos. Mas, para os aficionados por novas tecnologias, há uma opção bem mais interessante — e que não envolve qualquer contato humano: o serviço de conselheiros-robôs ou robo-advisors. Usando algoritmos, eles analisam opções de investimentos e sugerem as que melhor se adaptam aos objetivos e ao perfil do cliente. A novidade ainda engatinha no Brasil, mas é um fenômeno nos Estados Unidos. Lá cerca de US$ 100 bilhões já foram direcionados a aplicações financeiras por meio de empresas detentoras dessa tecnologia.

Além do apelo tecnológico, o preço contribui para a disseminação da novidade. Enquanto empresas tradicionais de planejamento financeiro cobram anualmente, em média, 1% do valor investido, as plataformas automatizadas trabalham com módicas taxas de remuneração. Quem usa o serviço da americana Betterment, por exemplo, paga 0,35% ao ano sobre o montante investido, para portfólios de menos de US$ 10 mil. A partir desse valor, os percentuais caem, até atingirem 0,15% para carteiras com mais de US$ 100 mil. “Queremos disponibilizar aos pequenos investidores a tecnologia que grandes instituições financeiras usam para investir”, declarou Jon Stein, presidente e fundador da Betterment, no evento TechCrunch Disrupt, realizado em maio em Nova York.

A Betterment foi uma das primeiras firmas no mundo a explorar o serviço de assessoria financeira automatizada. Fundada em 2010, está entre as principais do segmento nos EUA e acaba de atingir a marca de US$ 5 bilhões sob gestão. Suas recomendações exploram o universo dos fundos de investimento em índices (ETFs) de ações e títulos públicos americanos. Do investidor não se exige montante mínimo para aplicação, nem aportes mensais. A facilidade é um chamariz — hoje, são 175 mil clientes, com volume médio de investimentos de US$ 29 mil. O valor é uma prova de que os robôs estão conquistando o investidor de varejo. “Em um ano, o volume investido pela plataforma subiu cerca de 300%”, comemora Stein.

Outra empresa proeminente no nicho de robo-advisors é a Wealthfront, cujo patrimônio sob gestão supera US$ 3 bilhões. Com sede na Califórnia, a empresa almeja ser “a Amazon ou a Netflix de sua categoria”, afirma o CEO, Adam Nash. Para atingir esse status, ele espera conquistar o público jovem — hoje, 60% dos clientes têm menos de 35 anos. O valor mínimo para se aplicar com a Wealthfront é de US$ 5 mil, e o serviço de consultoria sai de graça para portfólios de até US$ 10 mil. Para somas maiores, a taxa de remuneração é de 0,25% ao ano. As recomendações abrangem títulos de governos municipais americanos e ETFs de ações.

Por cobrarem taxa de administração mais baixa que os fundos de investimento tradicionais, os ETFs estão constantemente nas recomendações das consultorias de investimento automatizadas. Também é comum que as plataformas façam rebalanceamento periódico da carteira do investidor, de forma que sempre esteja adequada a perfil de risco e metas financeiras.

Em evolução

O polpudo patrimônio administrado por Betterment e Wealthfront dá uma dimensão do potencial desse mercado. A Deloitte estima que, até 2025, um terço dos investimentos de pessoas físicas nos EUA deve ser feito com base nos conselhos de robôs. Os ativos geridos por essas plataformas devem saltar dos atuais US$ 100 bilhões para US$ 7 trilhões no país daqui a dez anos. Diante dessa exuberância, não é difícil entender por que os robo-advisors ganharam fama em Wall Street — a ponto de grandes firmas de investimento correrem atrás de sistemas automatizados de aconselhamento individual para disputar mercado com as fintechs.

Uma delas é o grupo de consultoria financeira Charles Schwab, que tem US$ 2,6 trilhões sob gestão. A empresa lançou, em março de 2015, seu próprio serviço de robo-advisor. A plataforma Schwab Carteiras inteligentes gere cerca de US$ 8 bilhões e não cobra pelo serviço de consultoria, voltado à elaboração de portfólio de investimentos em ETFs. A gratuidade faz parte do modelo de negócio da Charles Schwab, que não espera gerar receita com o aconselhamento, e sim com a taxa paga pelo investidor para que compre os ETFs do portfólio e pela gestão do dinheiro, pelo banco Schwab.

Outros gigantes, como Goldman Sachs e BlackRock, buscaram, por meio de aquisição de sistemas automatizados já existentes, explorar o serviço de consultoria financeira online e atrair pequenos e médios investidores. Em 2015, a BlackRock comprou a startup FutureAdvisor para impulsionar sua área de varejo, que representa 12% dos US$ 4,7 trilhões geridos pela firma e 35% da receita obtida com taxas. Até o mês de junho, 5 mil clientes haviam usado a plataforma. Já o Goldman Sachs concluiu, em maio, a compra da Honest Dollar, plataforma que usa a tecnologia dos robo-advisors para investimentos vinculados a aposentadoria. Com a aquisição, o banco pretende atender a demanda dos 45 milhões de pequenos e médios empresários e trabalhadores autônomos americanos sem acesso a planos de aposentadoria patrocinados por empregadores.

Já o grupo Vanguard optou por fincar bandeira no mercado de conselheiros-robôs com um modelo híbrido: ele combina o sistema robotizado com o suporte humano via telefone ou chamada em vídeo. O Personal Advisor Services foi lançado em maio de 2015 e, até agosto deste ano, acumulava US$ 41 bilhões sob gestão.

Robôs nacionais

A febre dos robo-advisors não passou despercebida pelos empreendedores brasileiros. Por aqui, duas startups — Vérios e Magnetis — exploram esse mercado. A Magnetis foi concebida pelo gestor de investimentos e ex vice-presidente do Merrill Lynch no Brasil Luciano Tavares e oferece, desde março de 2015, o serviço de consultoria automatizada. “Minha intenção é usar a tecnologia para levar mais eficiência para o varejo no País, especialmente para o pequeno investidor”, diz Tavares. Segundo ele, o perfil do usuário brasileiro dos robo-advisors é muito semelhante ao americano. São jovens por volta dos 30 anos, adeptos de inovações tecnológicas e muitas vezes sem amplo conhecimento sobre o mercado financeiro. Mas há também investidores mais experientes, que querem otimizar a rentabilidade do dinheiro disponível no banco.

As recomendações da Magnetis englobam investimentos em títulos privados de renda fixa (LCAs, LCIs e CDBs), fundos e ETFs. Como a taxa de juros brasileira atual (de 14,25% ao ano) estimula o conservadorismo, Tavares conta que precisou fazer adaptações na ferramenta. “O portfólio do investidor brasileiro é muito mais voltado para a renda fixa. Para você ter uma ideia, na carteira 3, para pessoas que aceitam correr um risco intermediário, apenas 10% do valor é alocado em bolsa”, diz Tavares. Nos EUA, um portfólio similar, observa, tem pelo menos 60% em renda variável.

E esse não foi o único ajuste que a Magnetis precisou fazer. No início, a plataforma oferecia a consultoria robotizada com um mínimo de intervenção humana; com o tempo, porém, o serviço precisou ser complementado com consultores que podem ser contatados por site, e-mail ou telefone. “Percebemos que o sistema totalmente automatizado não estava funcionando, assustava as pessoas com dúvidas”, afirma Tavares.

Se o cliente gostar dos conselhos da Magnetis e decidir seguir as recomendações, pode investir diretamente pelo site da empresa, que cuida da criação de uma conta para ele em uma corretora parceira (a Easynvest). A startup não divulga o volume de recursos que tem sob gestão, tampouco sua quantidade de clientes, mas informa que 10 mil pessoas já responderam ao questionário do site para receber recomendação de investimento gratuita. Esse número talvez só não seja maior porque a Magnetis exige um valor mínimo inicial de investimento, de R$ 25 mil. A taxa de consultoria é de 0,4% ao ano sobre o valor investido e o custo total das carteiras recomendadas — incluindo corretagem, administração, emolumentos e custódia — varia entre 0,58% e 0,99% ao ano sobre o montante aplicado.

Lançada em março de 2016, a Vérios exige um tíquete mínimo de entrada até mais alto que o da Magnetis — de R$ 50 mil —, mas cogita baixar esse valor para estimular o uso do serviço. “As pessoas estão vendo na Vérios a possibilidade de investir bem o próprio dinheiro, com a mesma facilidade de quem está simplesmente aplicando na poupança”, diz Felipe Sotto-Maior, CEO da empresa. A grande vantagem dos robos-advisors, ressalta, é o custo. A Vérios cobra pela consultoria uma taxa que varia entre 0,2% e 0,55% ao ano sobre o valor de investido. Já o custo total anual das carteiras recomendadas é de 0,95%. “Um real a menos que você paga de taxa é um real a mais de rentabilidade”, destaca Sotto-Maior.

A Vérios trabalha com um modelo híbrido de consultoria: a montagem da estratégia de investimento e a escolha dos ativos são feitas por pessoas — o robô fica responsável por calcular a melhor divisão de ativos para cada nível de risco, além de executar a compra e venda dos produtos escolhidos. “O robô não faz nada hoje sem ter alguém olhando. Estamos lidando com o dinheiro das pessoas e temos que ser cuidadosos”, esclarece Sotto-Maior.

As recomendações da Vérios vão de títulos públicos a ETFs de ações. Um desafio para a oferta do serviço no País em comparação com outros mercados desenvolvidos é o número de ativos existentes — nos EUA existem 1,5 mil ETFs, contra 15 no Brasil (todos de renda variável). “Mesmo assim, o cliente que investe conosco tem uma carteira mais diversificada do que 90% dos investidores brasileiros”, afirma o CEO da Vérios. A empresa não divulga o número de clientes, mas projeta que terá R$ 150 milhões sob gestão no início de 2017.

Melhor sem os humanos?

Além do preço atrativo, os entusiastas dos robo-advisors gostam de destacar outra qualidade do serviço: a isenção das recomendações, uma vez que os conselheiros-robôs fazem as escolhas com base em algoritmos e não recebem qualquer tipo de retorno sobre os produtos sugeridos. Uma boa alternativa, portanto, para quem desconfia da imparcialidade humana. Em 2012, um estudo dos economistas Sendhil Mullainathan, Markus Noeth e Antoinette Schoar, divulgado pelo National Bureau of Economic Research, revelou que os consultores americanos são mais propensos a indicar aos clientes os investimentos que oferecem maior “rebate”, designação da remuneração que recebem (geralmente um percentual da taxa de administração) a cada vez que indicam um fundo, por exemplo. Não à toa, esse tipo de pagamento é visto com ressalva pelos reguladores do mercado de capitais. Uma pesquisa da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) com consultores de investimentos (a autarquia se prepara para regular a atividade) mostrou que, em 2015, os rebates representaram 4% da composição das receitas dos serviços de consultoria de valores mobiliários.

Entretanto, se por um lado há o atrativo da isenção, de outro a consultoria feita por um robô não envolve nem a experiência nem a sensibilidade humana — atributos ainda valorizados por muitos investidores. Por isso, em relatório divulgado em março, o Citigroup afirmou aos clientes que o advento dos conselheiros-robôs não ameaça o trabalho dos consultores financeiros, já que “investidores mais ricos ou sofisticados vão sempre procurar receber conselhos pessoalmente.”

O argumento tem o suporte do Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF). “O planejador financeiro trabalha normalmente com o segmento de alta renda e, nesse nicho, o impacto dos robo-advisors deve ser menor. Os investidores com patrimônio elevado gostam de se dar ao luxo de contar com alguém provendo esse serviço financeiro”, diz Jan Gunnar Karsten, diretor do IBCPF.

Regulador vigilante

A rápida proliferação dos conselheiros-robôs no mercado americano despertou a atenção dos órgãos reguladores. Em maio de 2015, a Securities and Exchange Commission (SEC) divulgou um alerta aos investidores. “As ferramentas automatizadas de investimento podem oferecer benefícios claros, que incluem baixo custo e facilidade de uso, mas é importante que se compreenda seus riscos e limitações”, escreveu o xerife do mercado americano.

No alerta, a SEC ressaltou ainda a importância de os investidores estarem cientes de que a consultoria oferecida por ferramentas automatizadas está longe de ser infalível. Por mais que o indivíduo forneça ao robô todos os dados solicitados para a elaboração da carteira de investimento mais adequada a seu perfil e objetivos, há o risco de a ferramenta fazer suposições incorretas e inadequadas sobre a situação do investidor, observa o regulador. Outro risco, acrescenta, é a plataforma não fazer uma pesquisa abrangente para sugerir as opções de investimento, concentrando suas recomendações em produtos financeiros oferecidos por uma empresa parceira, por exemplo.

Os perigos elencados pela SEC coincidem com os observados pela ex-advogada do Federal Reserve Melanie Fein. Ela avaliou de perto as atividades dos conselheiros-robôs e concluiu que os questionários usados pelos sistemas automatizados não são completos. “Eles podem ignorar fatos importantes, como o cronograma de contribuição e retiradas de um investidor, despesas mensais e até mesmo a situação fiscal do indivíduo”, ela escreveu no estudo “Robo-advisors: a closer look”, lançado em junho de 2015.

Essa percepção de que os investimentos sugeridos pelos conselheiros-robôs baseiam-se numa análise superficial foi abordada recentemente num texto da consultoria de investimento Empiricus, intitulado “Você deixaria um robô cuidar do seu dinheiro?”. Nele, o consultor financeiro José Castro diz que essas ferramentas são comodistas e um tanto limitadas. “Aí pensamos no velho dilema: ‘o barato pode sair caro’”, alerta. Em seu LinkedIn, Tavares, da Magnetis, respondeu à “pergunta” de Castro. Ele defendeu o uso de robôs por considerar que eles são uma maneira prática de ajudar investidores que não têm tempo para colocar em prática as dezenas de estratégias de investimento sugeridas por consultorias como a Empiricus diariamente.

Era digital

Apesar dessas ressalvas, é consensual no mercado a avaliação de que a tecnologia vai ocupar um espaço cada vez mais relevante na consultoria de investimentos. “Acho bastante difícil o processo de planejamento financeiro se tornar 100% automatizado. Mas, para não perder espaço os profissionais da área vão ter que evoluir”, admite Karsten, do IBCPF. Segundo ele, os planejadores terão que aprender a usar a tecnologia para melhorar a produtividade. Hoje no Brasil, 78% dos consultores de valores mobiliários dependem muito ou pelo menos razoavelmente de tecnologia da informação (TI) para fazer seus aconselhamentos, de acordo com pesquisa da CVM.

Com base nessa percepção, empresas de tecnologia já oferecem plataformas customizadas para os consultores prestarem seus serviços. Elas são adaptadas para gerar recomendações calcadas na filosofia de investimento do profissional. “A ideia é que os consultores lancem os seus canais digitais, da mesma forma como as corretoras lançaram seus home brokers”, explica Alexey Sokolin, diretor de operações da Vanare, empresa americana de tecnologia para consultorias financeiras fundada em 2014. O fato é que, mais ou menos robotizado, o serviço de consultoria está migrando para o mundo digital. Quem der as costas a essa tendência corre o risco de ter de enfrentá-la quando for tarde demais.




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