Curtindo o Brasil

Com opções reduzidas nos mercados maduros e atraídos pelo setor de tecnologia, gestores de venture de capital estrangeiros desembarcam no País

Bimestral/Gestão de Recursos/Reportagem/Edição 103 / 1 de março de 2012
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De 2011 para cá, o Brasil tem sido um dos destinos mais carimbados no passaporte do norte–americano Jeff Brody, sócio da Redpoint Ventures, gestora de venture capital com US$ 2,5 bilhões em ativos sob administração e atuação na América, na Europa e na Ásia. Como as empresas do portfólio norte–americano da Redpoint andam próximas do Brasil, o País acabou entrando na rota de Brody. “Uma das nossas investidas, a Home Away, que atua no mercado de locação imobiliária, abriu um negócio no Brasil (o site Alugue Temporada). Isso despertou nossa atenção”, conta o executivo. A Redpoint é apenas um retrato de um grupo crescente de firmas de investimento estrangeiras que decidiram apostar no potencial de empreendedores brasileiros. Desse time fazem parte nomes como as norte–americanas Accel, Benchmark Capital, Burrill e Tiger Global e a britânica Atomico.

O despertar de fundos norte–americanos e europeus de venture capital para a América Latina, principalmente para o Brasil, aconteceu há cerca de dois anos, segundo Cate Ambrose, diretora executiva da Latin American Private Equity & Venture Capital Association (Lavca). Líderes do cenário internacional de private equity, como Carlyle e Blackstone, que normalmente farejam empresas já maduras, foram os primeiros a se estabelecer em território brasileiro. Na cola deles vieram gestoras que bancam negócios em estágio menos avançado, às vezes ainda inoperantes. Um sinal da atratividade do segmento é o tamanho dos investimentos. Dados da Lavca mostram que, até o primeiro semestre de 2010, cerca de dois terços dos aportes realizados em empresas latino–americanas foram de até US$ 25 milhões, volume baixo demais para um fundo de private equity típico. Em 2010, esse percentual era 45%.

Há algumas razões possíveis para isso. “A indústria de venture capital nos Estados Unidos e na Europa está muito madura, e a concorrência, cada vez mais feroz”, nota Cate. Além disso, a lei norte–americana Dodd–Frank, criada em resposta à crise financeira de 2008, endureceu a regulamentação naquele país e estimulou os gestores locais a olharem mais para fora. Lembrando o fim da incidência do imposto sobre operações financeiras (IOF) nessa modalidade de investimento externo, Sidney Chameh, presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCap), concorda: “Novos nomes vão aportar aqui em breve.”

O VALE BRASILEIRO — O interesse pelo Brasil tem a ver, naturalmente, com o cenário de baixo crescimento econômico apresentado pelos países do centro do capitalismo, que limita o número de empresas capazes de crescer acima de dois dígitos por ano nessa parte do mundo — alvos prediletos desse tipo de investidor. Mas um diferencial não menos importante está atraindo novos participantes para o setor: o promissor mercado brasileiro de tecnologia. Após investir em quatro empresas de internet (Xangô, 55 Social, Viajanet e Shoes4you) em 2011, Brody negocia a entrada em mais uma e estuda lançar um fundo destinado a aportar exclusivamente no Brasil. O plano inclui a contratação de pessoal especializado e a abertura de um escritório local. Essas gestoras procuram replicar por aqui uma receita bem–sucedida no Vale do Silício, região da Califórnia recheada de crias famosas do venture capital. “Há 25, 30 anos, havia muitas oportunidades no Vale do Silício. Dez anos atrás, fomos para a China, e, agora, o mercado inteiro está olhando o Brasil”, acredita Brody. Espaço para crescer não é problema. Basta lembrar que o País tem mais de um celular por habitante, e a banda larga, a internet de alta velocidade, atinge menos de um terço da população. Mesmo assim, o brasileiro gasta em média 70 horas por mês na internet, um dos maiores índices do mundo.

O apetite externo também está mexendo com os fundos de venture capital brasileiros. Um exemplo é a paulistana Astella Investimentos, que aplica em empresas de tecnologia voltada às áreas de educação, saúde, comércio eletrônico e serviços corporativos. Em seu primeiro ano de atividade, a gestora comprou participações em dois negócios. Em 2011, foram mais cinco. A expectativa de Edson Rigonatti, sócio da Astella, é de que ocorram seis transações neste ano, das quais três devem ser fechadas por meio de coinvestimentos com firmas estrangeiras — hoje, os aportes são feitos com capital próprio dos sócios da Astella. “São gestoras dos Estados Unidos e da Europa que ainda não vieram para cá”, diz Rigonatti, sem revelar os nomes.

Conforme explica o advogado Camillo Stefano Maria Sicherle, do Sicherle Advogados, boa parte dos gestores internacionais busca parcerias com fundos brasileiros para dividir riscos e ampliar o conhecimento sobre o mercado nacional. Para aproveitar a disposição dos gringos, a Astella estrutura, no momento, um fundo baseado no exterior para acelerar a captação com investidores internacionais. O dinheiro novo tem dado fôlego extra a empreendedores. O SmartKids, portal brasileiro especializado no público infantil, é uma das empresas que receberam recursos da Astella. Os valores não foram divulgados, mas a ideia é que o apoio financeiro e na condução do negócio contribuam para o aumento do ritmo de expansão do site. Com mais de 1 milhão de visitantes por mês, o SmartKids é hoje um dos líderes de audiência no seu nicho. Com o novo sócio, o portal pretende acelerar a produção e a distribuição de conteúdo adaptado para plataformas móveis.

Para Rigonatti, um direcionador importante do mercado pode ser a eventual abertura de capital na BMF&Bovespa da Netshoes, loja online de artigos esportivos constantemente apontada como candidata a estrear no pregão. A empresa tem entre seus investidores a Tiger Global, que possui mais de US$ 6 bilhões em ativos pelo mundo e investiu nas redes sociais Facebook e LinkedIn quando ambas não passavam de projetos. “Um IPO bem–sucedido vai trazer uma avalanche de dinheiro para o Brasil, colocando o País no radar dos que não estão aqui”, destaca Rigonatti.

VIDA FORA DA REDE — As apostas dos gestores de venture capital não se limitam à internet. A Burrill abriu um escritório no Rio em 2010 e, em janeiro de 2011, encerrou a captação de seu primeiro fundo brasileiro, dirigido a empreendimentos que tenham entre zero e R$ 40 milhões de receita, nas áreas de biotecnologia, biocombustíveis e farmácia. Sua meta é atingir a marca de dez empresas no portfólio brasileiro em cinco anos. Os US$ 125 milhões em recursos foram captados ao longo de 24 meses — mais do que os 18 meses previstos inicialmente. “O mercado ainda está pouco familiarizado com o segmento de ciências da vida, e boa parte dos investimentos hoje é direcionada à internet”, explica João Paulo Batista, diretor da Burrill.

Com mais de US$ 1,5 bilhão de patrimônio sob sua administração, a gestora costuma ter fundos para cada país em que atua, conduzidos por equipes locais. O Brasil se tornou um destino perfeito, por ser uma das praças que mais crescem na compra de medicamentos, além do produtor mais competitivo de biocombustíveis. Um alento e tanto para empreendedores fascinados por inovação e carentes de crédito.




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