O dominó da Petrobras

Guilherme Affonso Ferreira, Ilma Garcia e Jean Paul-Prates debatem sobre política de preços e riscos da estatal

Antessala / Companhias abertas / 29 de junho de 2018
Por  e


Ilustração: Julia Padula

O mais recente abalo na Petrobras veio sob a forma de um efeito-dominó. O cumprimento da meta de Pedro Parente de reerguer a companhia dependia da equalização de preços internos e externos de combustíveis, política que significou aumentos diários do diesel, que desencadearam a fúria dos caminhoneiros, que quase paralisaram o País, que derrubaram Parente. O pedido de demissão do executivo — prontamente aceito pelo controlador da petroleira, a União, cujos mandatários viram-se de mãos amarradas diante do inesperado poder de mobilização de uma categoria — levou ao cargo o diretor financeiro, Ivan Monteiro. É para ele que se voltam agora as atenções do mercado, interessado em saber se — e como — conseguirá dar sequência ao trabalho de Parente. Para discutir o que esperar dessa nova e turbulenta fase da Petrobras, a CAPITAL ABERTO reuniu Ilma Garcia, sócia-diretora da consultoria empresarial ITAG, e Guilherme Affonso Ferreira, ex-conselheiro da Petrobras e gestor de recursos da Teorema Gestão de Ativos (veja fotos) — e, por telefone, entrevistou Jean-Paul Prates, dirigente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne).

A seguir, os principais trechos das entrevistas.

Capital Aberto: O que esperar da gestão de Ivan Monteiro? Ele deve manter a linha de Pedro Parente?

Ilma Garcia: Não vejo no curto prazo nenhuma expectativa de mudança. O próprio Monteiro já sinalizou que não pretende alterar a política de preços dos combustíveis. Ele já era o gestor à frente da área financeira e desde que assumiu vem participando ativamente da recuperação das finanças da companhia. Acredito que ele não vai abandonar totalmente as ideias de Parente e continuará zelando pelos interesses dos investidores.

Guilherme Affonso Ferreira: Há um grande alinhamento entre eles e tem coisas até mais importantes que Monteiro fez, como a renegociação de todas as dívidas da empresa, que gerou uma economia de quase 4 bilhões de dólares. O barateamento dos juros e o alongamento dos prazos aconteceram basicamente pela recuperação da credibilidade da empresa com a gestão de que Monteiro fez parte.

 

Guilherme Affonso Ferreira/ Foto: Régis Filho

Capital Aberto: Quais são os riscos à manutenção dessas estratégias?

Guilherme Affonso Ferreira: O problema está no papel do controlador. Em 2015, quando tudo de ruim acontecia ao mesmo tempo — o preço do petróleo despencava e a Lava Jato descobria uma série de indícios de corrupção na empresa —, o controlador optou por manter distância, não queria interferir na companhia. Isso até certo ponto foi bom, pois permitiu que a empresa passasse por mudanças. Mas a greve dos caminhoneiros trouxe de volta o aspecto de que o dono da empresa, que é o Estado, tem outros objetivos, diferentes dos das empresas do sistema capitalista. Essa é a grande mudança que assusta.

Ilma Garcia: A Petrobras tem um controlador que atua conforme seus interesses, e o perigo seria Monteiro sucumbir às suas exigências. A questão é que se o governo ofereceu a cabeça de Parente para dar uma resposta rápida à população, o efeito será como o de colocar um esparadrapo no ferimento. Alguém vai pagar pelas consequências da redução de impostos [para subsidiar a redução do preço do diesel]. E disso ninguém fala.

Capital Aberto: Como vocês avaliam a política de reajustes diários de preços?

Ilma Garcia: A política de preços foi colocada como a grande vilã durante a crise dos caminhoneiros, mas vinha dando certo. Tanto que estava transformando uma empresa comprometida financeiramente em outra promissora. Como melhoria, acredito que a Petrobras deveria agir de forma preventiva e integrada para determinar a política de preços. Contar com um sistema de controle mais eficaz, que agiria em toda a cadeia do petróleo, incluindo os distribuidores, e em que o governo tivesse uma participação, mas sem ser o grande mandante. A crise aflorou ainda um outro problema: a falta de um plano B, como o uso da malha ferroviária.

Guilherme Affonso Ferreira: Eu até me sinto um pouco culpado com tudo o que aconteceu, pois defendi essa alteração da política de preços no conselho [Ferreira foi conselheiro da estatal de abril de 2015 a abril de 2018]. Quando a Petrobras entendeu, entre outras coisas, que tinha liberdade para traçar uma política de preços sem atender necessariamente aos interesses do seu controlador, começou a aplicar reajustes mensais. Só que a empresa tinha um alto endividamento e precisava fazer caixa, então passou a adotar preços acima do mercado internacional, em até 20%. Mas os distribuidores, que monitoravam diariamente o dólar e o preço do petróleo, viram que havia momentos em que era mais vantajoso importar [do que comprar da Petrobras] e fechavam as compras. Quando o reajuste passou a ser diário na Petrobras, o objetivo era otimizar a capacidade de produção e venda das refinarias e reduzir as importações — que só não cresciam mais por questões logísticas. A ideia era: com o preço estabelecido diariamente, ficaria mais fácil para o distribuidor identificar o momento oportuno para compra.

Capital Aberto: Qual seria, então, a política mais adequada?

Ilma Garcia: No curto prazo, infelizmente, não vejo nenhuma alternativa.
Na minha avaliação, a política de reajustes diários é bem-sucedida, tanto que tirou a empresa de um patamar de alto endividamento para outro com resultados positivos. Não adianta olhar o problema de forma pontual.

Guilherme Affonso Ferreira: Mesmo com a coincidência de fatores negativos, essa é a política mais adequada. Você conhece uma política de preços que seja boa? Quem compra busca o menor preço e quem vende busca o maior. E assim as coisas se equilibram. Não temos como chegar a um preço que agrade a todos, mas em um que seja viável. Preço é uma questão de discussão com o cliente. Se eu transporto e preciso de diesel, a negociação será com o meu cliente. Como há muito caminhão sobrando no mercado, depois de terem sido oferecidos subsídios à compra [nos governos de Lula e Dilma], os caminhoneiros acham que o governo tem que resolver o problema.

Ilma Garcia/ Foto: Régis Filho

Capital Aberto: Em linhas gerais, quais são os desafios do novo CEO?

Ilma Garcia: Inicialmente, transformar a Petrobras num corpo só, com a união entre a diretoria e os conselheiros, para fazer frente às pressões do controlador, tentando blindar a empresa das possíveis intervenções do governo.

Guilherme Affonso Ferreira: A coisa mais importante é a independência, que a empresa seja gerida sempre no sentido dos interesses empresariais.

Capital Aberto: É notória a perda de credibilidade da Petrobras desde o início das investigações da Lava Jato, situação em parte revertida com os esforços da empresa para melhorar sua governança corporativa. Acham que ainda faltam ações nesse sentido? Quais seriam?

Guilherme Affonso Ferreira: Se há algo a ser feito é a agilização dos processos. Há um histórico muito ruim, com processos que precisam de até 60 assinaturas! É preciso simplificar e ao mesmo tempo não enfraquecer. A partir da Lava Jato começou um empurra-empurra de assinaturas. Quem assina precisa ter a responsabilidade sobre o que faz. Mas se tudo precisar ir às últimas instâncias a coisa não anda. A Petrobras precisa se portar com uma empresa privada, sem tantas câmaras de discussão.

Ilma Garcia: A Petrobras tem feito um grande exercício de melhoria no sistema de governança, com a reestruturação de setores, especialmente o de projetos. Por exemplo, nas novas contratações é preciso investir em projetos consistentes para evitar que os valores previstos para essas obras acabem triplicando ou quadruplicando. Nas licitações, os problemas mais graves estão nas informações sobre os projetos, o que abre espaço para dúvidas e ajustes nos valores.

Capital Aberto: Quais devem ser as prioridades da Petrobras, em termos de investimentos, para garantir a construção de valor no longo prazo?

Ilma Garcia: A companhia precisa continuar se capitalizando e priorizar a retomada de iniciativas interrompidas pela Lava Jato. Só que os projetos megalomaníacos e milionários precisam ser otimizados para se tornarem viáveis, inclusive com cotas de sacrifício por parte das empresas [vencedoras das licitações] na execução de propostas mais simples e eficientes.

Guilherme Affonso Ferreira: É preciso ter foco. Até pouco tempo atrás, achava -se que a empresa poderia fazer de tudo. A descoberta do pré-sal e a alta do petróleo, no começo de 2010, nortearam um plano de investimentos de 220 bilhões de dólares em cinco anos. O maior programa já anunciado na história empresarial do mundo. Parecia que o Brasil iria virar uma Arábia Saudita. Agora, é preciso analisar as mudanças na matriz energética brasileira, com a redução da capacidade das hidroelétricas e a incapacidade das fontes renováveis [solar e eólica] de complementar o buraco que vai surgir nos próximos anos — e que pode ser preenchido pelo gás. O Comperj [Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro] está sendo terminado para acolher o gás da Bacia de Santos. Essa será uma mudança importante para o País, e a Petrobras vai ter papel relevante no aumento da geração de energia.

“Foi criado um dogma sobre ajuste diário”

A necessidade de reajuste diário em preços de combustíveis, seguindo as oscilações da cotação do preço do barril de petróleo no mercado internacional, foi “um dogma criado pela atual diretoria da Petrobras”, com o aval do Estado sob governo do presidente Michel Temer, controlador da companhia. A opinião é de Jean-Paul Prates, dirigente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne).
Prates pondera que nunca houve preço dolarizado na bomba de combustível e tampouco reajustes em tempo real, e isso nunca impediu a Petrobras de ser ‘blue chip’ na bolsa. “Há seis décadas o País persegue a autossuficiência do petróleo, com o objetivo de redução da dependência de fatores externos. De repente, surge o mito criado por um governo em crise de que o reajuste diário de preços é a melhor alternativa”, afirma Prates, que participou da constituição do atual marco regulatório da indústria do petróleo no Brasil.

Segundo ele, a política de preços da Petrobras sofreu um forte revés com a valorização do petróleo — fator que parecia estar fora do radar da companhia e do governo. “O azar foi fazerem o teste no pior momento possível. Desde janeiro, os preços do petróleo estão em alta. Quando inventaram esse negócio não imaginavam que o petróleo subiria tanto, em pouco tempo”, avalia.

Na visão de Prates, o melhor caminho seria aplicar os reajustes com base em uma cesta de indicadores, o que poderia garantir mais estabilidade e previsibilidade. “Essa havia sido uma sugestão da Graça Foster [presidente da Petrobras no governo Dilma], mas que foi descartada porque não se queria aumentar os preços às vésperas de uma eleição”, diz, relembrando que a proposta seria calcular o valor do combustível conforme a variação de diversos tipos de óleos, como o Brent, WTI, Arab Light, acrescida de índices como inflação e juros internos e externos. Depois do caos causado pela greve dos caminhoneiros, Prates projeta uma administração mais “condescendente”, que não “despreze” os pleitos da sociedade. (Rodrigo Petry)




Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie


Tags:  Petrobras Pedro Parente política de preços caminhoneiros Ilma Garcia Jean-Paul Prates Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Por conselhos mais femininos
Próxima matéria
SEC sofre revés na Suprema Corte dos EUA



Comentários

Escreva o seu comentário sobre este texto!

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Recomendado para você





Leia também
Por conselhos mais femininos
“O desafio da diversidade está evoluindo. O problema é que agora encontramos líderes com discursos receptivos ao tema,...