Na velocidade da luz

Um novo predador está à solta no mercado acionário. Ele responde pelo nome de HFT

Captação de recursos/Prateleira/Edição 130 / 1 de junho de 2014
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No campo da ficção, já vimos este filme várias vezes: cientistas trabalham com genética para aperfeiçoar e imunizar o homem e acabam, sem querer, dando origem a uma mutação terrível que ameaça a própria raça humana. No livro Flash boys, a mutação aconteceu no mercado financeiro. A evolução tecnológica e a desregulamentação do mercado americano fomentaram o surgimento de novas bolsas de ações após o ano 2000, com o objetivo de aumentar a liquidez e diminuir os spreads entre os preços de compra e venda. Segundo o livro, existem hoje 45 bolsas virtuais onde se pode negociar ações nos Estados Unidos, e esta segmentação criou o ambiente propício para um novo parasita: as empresas de high frequency trading, ou HFT.

Em Flash boys, Michael Lewis, aclamado autor de vários livros sobre Wall Street, apresenta uma narrativa convincente sobre o mundo secreto dos HFTs e seu efeito sobre o mercado. Em princípio, essas transações operam com o conceito de comprar e vender em alta velocidade. A empresa de HFT fica com o resultado da intermediação e corre baixo risco, porque sempre zera a posição no fim do dia (isto é, não dorme “comprada” ou “vendida”). Nesse sentido, os HFTs prestam um serviço ao mercado, diminuindo a diferença entre as ofertas de compra e venda e elevando a liquidez do sistema. Efeito similar ao que era obtido com as operações feitas antigamente pelos “scalpers” (operadores independentes que negociavam apenas no day trade) da BM&F. O problema é que a desregulamentação que deu origem a mais ambientes para negociar ações nos Estados Unidos segmentou o mercado, permitindo um novo tipo de arbitragem de
baixíssimo risco.

Essa arbitragem consiste em saber primeiro o fluxo das ordens de compra e venda e então sair correndo para atendê-lo. Devido às diferentes distâncias entre as bolsas onde uma ação é negociada, ao tomar conhecimento de uma ordem, é possível, por meio de uma operação de HFT, chegar à frente dela e realizar uma transação anterior, para então liquidar a ordem de compra ou venda original, auferindo um lucro sem risco. Para executar tal estratégia, as firmas de HFT confiam em softwares e hardwares especializados, que identificam as oportunidades e encurtam, para milissegundos, o tempo entre o disparo de uma ordem e sua execução.

A narrativa principal de Flash boys é centrada em um herói improvável, que negocia ações para um banco relativamente secundário, o Royal Bank of Canada. Ao perceber evidências de que suas ordens de compra e venda não eram executadas como deveriam, ele embarca em uma cruzada para entender o que está acontecendo e acaba descobrindo o mundo dos HFTs e seus efeitos nefastos. Ao ficar com uma fina fatia do spread entre compra e venda, os HFTs impõem uma taxa sobre o mercado, semelhante à antiga CPMF, onerando toda a economia. De acordo com algumas estimativas, o valor agregado desse “imposto” alcança bilhões de dólares, e as empresas de HFT chegam a operar anos sem registrar perdas em nenhum dia. Curioso que um movimento para melhorar a eficiência do mercado acabou por criar uma ineficiência ainda mais perniciosa.

Prezado leitor, se você quer entender melhor sobre o ecossistema das bolsas e corretoras americanas e seus potenciais riscos para o futuro, Flash boys é leitura obrigatória. Desnecessário dizer que, devido ao viés anti-HFT do livro, suas argumentações e evidências não são acompanhadas de qualquer contraponto. São apresentadas como fatos, a despeito do risco de serem apenas versões do autor. A despeito disso, entendo que o importante é a jornada da leitura, bastante interessante. O destino vai depender de suas próprias conclusões sobre o assunto.

Flash boys, Michael Lewis – Editora: Penguin books – 277 páginas, 1ª edição, 2014


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