As boas cartas

Analistas de investimento revelam suas apostas para enfrentar a aridez de 2015

Captação de recursos / Reportagem especial / Edição 137 / 1 de Janeiro de 2015
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as-boas-cartasO ano de 2014 foi desanimador para quem investe em ações: de janeiro até 16 de dezembro, o Ibovespa acumulou baixa de 2,55%. A queda foi impulsionada pela perspectiva de crescimento pífio da economia e pela incerteza a respeito da capacidade do Brasil para virar o jogo. O anúncio da nova equipe econômica pela presidente Dilma Rousseff em novembro (veja matéria na página 24) trouxe esperança para o mercado, mas 2015 continua sendo um ponto de interrogação. Nesse ambiente, montar uma carteira de investimento em renda variável se assemelha a jogar xadrez. As peças — ou ações — precisam ser meticulosamente escolhidas antes de qualquer movimento. A questão é: que papéis pinçar, num ano marcado por ajustes, perspectiva de dólar elevado e continuidade de alta da taxa Selic?

As opções, infelizmente, são limitadas, conforme Leonardo Milane, estrategista da Santander Corretora. Segundo ele, as escassas ações que oferecem oportunidade de ganho estão nos segmentos de finanças, educação, papel e celulose, bem como na indústria voltada ao mercado externo. “Sugiro manter distância de papéis dependentes de crescimento do PIB e com dificuldade em repassar aumentos de preços”, acrescenta. A seguir, as ações e os setores indicados por analistas ouvidos pela capital aberto.

Bancos e afins
No segmento financeiro, o foco principal são os bancos privados e as empresas com alguma característica pontual de resiliência, considera Ricardo Kim, analista da XP Investimentos. As ações de Bradesco e Itaú são citadas como boas opções, já que devem ter seus resultados beneficiados pela alta da taxa de juros. Mesmo com a desaceleração da economia, o lucro líquido de Itaú e Bradesco cresceu entre janeiro e setembro, respectivamente, 34,1% e 24,7% em comparação ao mesmo período de 2013.

Outra companhia ligada a serviços financeiros que deve ter um ano bom devido à subida do juros é a Cetip. A escalada da taxa deve aumentar a demanda pelos títulos registrados e negociados em seus sistemas, o que traz perspectiva de aumento de receita. A operadora de meios de pagamento Cielo também é vista como boa oportunidade. O principal motivo é a redução da participação de mercado de sua maior concorrente, a Rede, causada pelo avanço da GetNet e por uma política de preços mais conservadora após o fechamento de capital da companhia, em 2012.

Ainda entre as empresas financeiras, seguradoras bem avaliadas, como a BB Seguridade, cativam os analistas. “O setor de seguros tem uma penetração no mercado pequena em relação ao PIB, muito devido ao desconhecimento da população. O acesso ao produto, porém, já está facilitado em termos financeiros”, comenta Rafael Webber, gerente de pesquisa da Geração Futuro. No caso da BB Seguridade, apenas 15% dos usuários do Banco do Brasil detêm o produto, a despeito da capilaridade das agências.

Educação: mais um ano
Outra área citada pelos analistas como promissora é a educacional. Apesar do desempenho das redes de ensino estar sujeito às oscilações de consumo e renda, o impacto desses dois itens no negócio é menor graças aos incentivos concedidos pela União. As empresas recebem uma injeção significativa de dinheiro federal por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e do Programa Universidade para Todos (Prouni). Dados divulgados pelo Ministério da Educação revelam que, nos três primeiros anos do governo Dilma, o orçamento do Fies passou de R$ 1,8 bilhão para R$ 7,5 bilhões. O repasse torna as empresas menos expostas à diminuição da renda dos alunos e à inadimplência. “Além disso, o segmento passa por um processo de consolidação”, observa Elad Revi, analista da Spinelli Corretora.

O problema é que o desempenho positivo da educação refletiu-se nos preços. Nos 24 meses encerrados em 17 de dezembro, as ações da Kroton e da Estácio subiram, respectivamente, 201% e 86%. O receio é elas estarem supervalorizadas, o que torna o momento péssimo para compra. “Mas isso não significa que não existam oportunidades”, diz Webber. A Kroton, que teve sua fusão com a Anhanguera aprovada em meados do ano passado, desponta como a queridinha. Umas das 20 maiores companhias da BM&FBovespa em valor de mercado, a companhia viu suas ações praticamente dobrarem de preço nos últimos 12 meses. Na visão de Webber, a Kroton é uma empresa diferenciada até mesmo dentro da área de educação, por possuir uma rentabilidade acima da média de seus pares.

Dólar no caixa
A elevação da moeda americana em relação ao real deve impulsionar as companhias com perfil exportador. Cada vez menos dependente do mercado brasileiro, a Embraer é a indicação de Mário Bernardes Jr, analista da BB Investimentos. Apenas 21% da receita da fabricante de aeronaves vem do mercado interno. Outra indicação é a WEG, líder de mercado em motores elétricos para uso industrial na maior parte da América Latina. A empresa passou por ajustes internos, enxugou sua estrutura e fortaleceu a presença no mercado internacional. De 2010 para cá, fez aquisições em países como Alemanha e África do Sul.

O mercado exportador também torna atrativa a indústria de papel e celulose. Fibria, Suzano e Klabin são citadas, por diferentes motivos, como boas alternativas de investimento em 2015. As duas primeiras são interessantes por atenderem a procura por celulose de Europa e Ásia, explica Wesley Bernabé, analista do BB Investimentos. Já a Klabin se destaca por abastecer clientes de setores poucos suscetíveis à queda de demanda, como o de embalagens para alimentos. “A Klabin tem entregado resultados consistentes nos últimos anos. Além disso, possui um projeto para duplicar a capacidade da produção a partir 2016, o que beneficiará o custo e a penetração em novos mercados”, avalia Webber, da Geração Futuro.

Varejo: vale garimpar
Apostas pontuais surgem no varejo, apesar da retração do consumo. Para Clodoir Vieira, analista da Souza Barros, a Raia Drogasil deve se destacar graças ao estímulo de programas governamentais como o Farmácia Popular, criado para ampliar o acesso dos cidadãos aos medicamentos indicados para as doenças mais comuns. Já Ricardo Kim, da XP, recomenda a compra de ações das Lojas Americanas pelo fato de seus resultados dependerem pouco da oferta do crédito de longo prazo a clientes. “O setor varejista como um todo talvez não tenha um desempenho tão bom, mas é possível encontrar alguns casos que valem a pena”, ressalta.

Por atuar em diversos setores, a Ultrapar também tem sua ação recomendada pelos analistas para 2015. A companhia está presente nas indústrias química e de óleo e gás, bem como nos setores de transportes e drogarias. A diversificação favorece o equilíbrio da receita em momentos de crise. Para Revi, da Spinelli, o lucro operacional crescente também dá boas garantias aos investidores. Nos últimos dois exercícios, apesar de todas as dificuldades econômicas, o lucro da Ultrapar cresceu aproximadamente 20% ao ano. Prova de que o cardápio de ações da bolsa brasileira inclui algumas alternativas promissoras para enfrentar o problemático 2015. Os que toparem a aventura podem ter boas recompensas.

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Ilustração: Marco Mancini/Grau180.com



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