Explicações para a fratura social dos Estados Unidos

Três ideias sustentam uma narrativa sobre a evolução econômica e social do país nos últimos 100 anos

Bolsas e conjuntura/Prateleira / 16 de outubro de 2020
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Capa do livro: "Transaction Man: The Rise of the Deal and the Decline of the American Dream", de Nicholas Lemann

“Transaction Man: The Rise of the Deal and the Decline of the American Dream”, de Nicholas Lemann. Editora: Farrar, Straus and Giroux. Ficha técnica: 322 páginas | 1a edição ― 2019

Às portas de uma eleição presidencial polarizada, reveladora de uma imensa fratura social, muitos cidadãos do país se perguntam como os Estados Unidos chegaram a tal situação. Logo, não surpreende que várias narrativas estejam tentado responder a essa questão de natureza “existencial”. Nicholas Lemann, jornalista e ex-reitor da faculdade de jornalismo da Columbia University, busca em Transaction Man: The Rise of the Deal and the Decline of the American Dream raízes históricas para oferecer sua versão desse état d’affaires.

O autor retrocede até os idos de 1920, logo após a Primeira Guerra Mundial, para entender a gênese da sociedade americana contemporânea. Naquele momento, o setor privado já exibia exemplos de grandes organizações, como os monopólios de aço, ferrovias, petróleo e financeiros. Simultaneamente, vários outros negócios surgiam para atender à demanda da classe média que emergia. De repente, as pessoas em idade produtiva deixaram suas ocupações para se tornarem “gente das organizações”¹, em um processo observado e registrado por Adolf Berle, o primeiro personagem central desta obra.

A quebra da bolsa em 1929 e os anos subsequentes de depressão, caracterizados pelo “New Deal” e pela forte intervenção do Estado, provocaram ajustes importantes na relação entre as organizações e seus colaboradores, em um pacto formal e informal que perdurou até a década de 1970. Essa época é muitas vezes descrita como uma era de ouro em termos de oportunidades, e gerou grandes avanços no bem-estar econômico da sociedade em geral. Mas o que levou essa “era de ouro” ao fim?


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A era dourada para as empresas e a classe média provocou acumulação de poupança, e as organizações lentamente evoluíram de controles acionários concentrados para pulverizados, com ênfase crescente nos conselhos de administração para representação da massa de minoritários. Esse modelo de governança permitiu excessos nas décadas de 1960 e 1970 (conglomerização), o que, combinado com a crise do petróleo e a inflação galopante, abriu espaço para uma “revolta” dos acionistas sem voz.

A partir do famoso texto de Milton Friedman sobre o papel social das empresas, em 1972, a faísca se materializou sob a forma de um paper acadêmico escrito pelo economista Michael Jensen, da Universidade de Rochester, argumentando que as empresas deveriam atender aos objetivos de lucratividade de seus acionistas. Estava criado o pano de fundo para o aparecimento do “homem transacional”², caracterizado pela dominância do setor financeiro. Essa nova era se notabilizou pela quebra do contrato social anterior entre colaboradores e organizações, pois a competição acirrada por mercados globais e a busca por produtividade como forma de sobrevivência provocaram “destruição criativa” em vários setores e países. A inovação tecnológica estava no centro dessa transformação radical, e viria a assumir o papel da terceira onda dessa narrativa.

Na década de 1990, a popularização dos computadores pessoais e o advento da internet criaram o espaço perfeito para a emergência de uma nova força dominante: o setor de tecnologia. Dentre os vários atores fundamentais dessa transformação, o autor escolheu Reid Hoffman, empreendedor serial e fundador do LinkedIn, como referência. Entre tantos candidatos, deve ter contribuído para a escolha o fato de Hoffman ter cunhado termo “network man”, o herdeiro natural ao ser dominante anterior. Sai o capital como fonte de poder e agente de mudança, entra o empreendedor tecnológico com suas redes de contatos e enorme poder de influência sobre o público em geral.

Trata-se de um livro interessante para aqueles que querem entender as relações entre ideias e instituições, e seu impacto no bem-estar e na evolução de uma sociedade. Parte história, parte licença poética, parte posicionamento político, o livro cumpre seu propósito de provocar reflexão sobre a trajetória e o momento atual.


O colunista Peter Jancso é sócio da Jardim Botânico Investimentos e conselheiro independente


Notas

¹O original “organization man” soa melhor do que a tradução livre

²“Transaction man”


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