Aquecimento verde

Interesse das companhias por Copenhague mostra a importância do tema para a indústria de finanças

Bimestral/Legislação e Regulamentação/Temas/Reportagem/Edição 78 / 1 de fevereiro de 2010
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A sensação de fracasso foi geral. Nenhum dos oficiais de governos de 190 países que se acomodaram nas poltronas aquecidas do auditório Bella Center, em meio ao congelante dezembro da capital dinamarquesa, voltou para casa com uma lista de tarefas sob o braço. O progresso mais visível da conferência foi a carta de intenções que limita em dois graus Celsius o quanto a temperatura média do planeta pode subir sem que a dinâmica dos oceanos e os fenômenos atmosféricos imponham um risco letal à espécie humana. Sem regras para coagir campeões de poluição como as termoelétricas chinesas, mineradoras australianas ou a poderosa indústria automobilística dos Estados Unidos, fica a mensagem de que poluir pode não ser lá algo simpático, mas, por enquanto, não dá em nada. Afinal, não há norma internacional capaz de punir um fabricante indonésio de calçados que desperdice energia ou um exportador brasileiro de carne que compre gado criado em áreas devastadas da Amazônia, certo? Nada mais errado, diz o consenso oficioso de companhias e grupos de investimento que estiveram na 15ª Conferência das Partes da ONU (COP15), em Copenhague. Para eles, será cada vez mais rarefeito o ar das empresas que não se anteciparem aos acordos climáticos.

Antonio Lombardi, diretor de sustentabilidade do Santander no Brasil e um dos três profissionais que a divisão brasileira do banco enviou a Copenhague, vê um cenário tenebroso para os grandes emissores de dióxido de carbono. “Durante a COP15, participei de um encontro com os CEOs das 400 maiores companhias de capital aberto do mundo. No diálogo entre as partes e na troca de experiências, ficou clara a aversão desses grupos a associar-se a parceiros e fornecedores compreendidos como agentes de poluição”, diz Lombardi, para quem o fiasco notado entre os chefes de Estado não se repetiu no encontro de líderes da iniciativa privada. Ele arrisca até um paralelo entre a atual preocupação com o aquecimento global e os movimentos pacifistas dos anos 70. Há quatro décadas, surgiram nos Estados Unidos os chamados “ethical funds”, carteiras de investimento que não aplicavam nenhum centavo em companhias de armamentos, aviação ou que tivessem qualquer tipo de envolvimento em conflitos como a Guerra do Vietnã. “Foi um movimento que começou a partir da iniciativa de alguns pacifistas e, pouco tempo depois, contagiou os grandes fundos norte-americanos”, lembra o executivo.

EFEITO COLATERAL — É crescente o temor dos investidores em torno do impacto ambiental dos negócios das companhias. Essa percepção é referendada por análises como a feita pela consultoria McKinsey. Em relatório do fim de 2009, apontou que “os esforços para redução da emissão de carbono vão influenciar decisivamente o fluxo de caixa das companhias abertas”. Um caso exemplar de falha com cuidados socioambientais golpeou a maior companhia sucroalcooleira do Brasil, nos primeiros dias do ano novo. Citada em uma “lista suja” do Ministério do Trabalho de empresas que exploram trabalho escravo, a Cosan teve suas linhas de crédito temporariamente cortadas pelo BNDES e viu a rede varejista Walmart suspender suas encomendas de açúcar.

A Cosan reagiu rápido e explicou que a exploração de trabalhadores, na verdade, foi cometida por uma empresa terceirizada contratada por um de seus fornecedores de cana-de-açúcar. A companhia conseguiu retirar seu nome da relação divulgada pelo ministério, mas o aparente cochilo na escolha de parceiros custou-lhe um enorme constrangimento e a desconfiança de clientes e investidores. A julgar pelo tamanho da delegação brasileira na Dinamarca, governo e empresas locais sabem bem o peso que a sustentabilidade terá no jogo dos mercados nas próximas décadas e têm noção de que imbróglios como o da Cosan podem custar muito caro aos negócios.

Ao todo, o Brasil enviou a Copenhague 700 pessoas, um terço delas do setor privado. Circularam por lá representantes do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Itaú Unibanco e Santander. Grandes exportadores como JBS, Marfrig, Vale, Petrobras e Suzano Papel e Celulose também compareceram. Foi a maior delegação dentre todas as presentes, com praticamente o dobro de enviados que o segundo colocado, os Estados Unidos, com 355 negociadores. Como aconteceu na maioria dos casos, é possível que dentre os brasileiros houvesse profissionais mais interessados em fazer marketing ou, pior, lobby para embolar as negociações que viabilizam acordos. Explica-se: é real o receio de que regras ambientais rigorosas tornem os produtos brasileiros menos competitivos ou até bloqueados para o comércio internacional em casos de não conformidade.

DERROTA RELATIVA — Mas o empenho das companhias em participar do debate revela, ao menos, a importância do tema para a indústria das finanças atualmente. Diretor de relações institucionais e responsável pelos projetos de sustentabilidade da Suzano Papel e Celulose, Luiz Cornacchioni destaca como ponto positivo a intensa cobertura midiática que o evento recebeu.

A Suzano defende a criação de regras internacionais para companhias de celulose, que tratem de compensações por recuperação de áreas degradadas. “Não saímos de lá com um acordo nesse setor assinado pelo Lula e por Obama. Nem tínhamos essa pretensão. Mas conseguimos colocar o manejo de florestas na pauta da COP”, diz Cornacchioni. O executivo espera que na COP16, agendada para o fim deste ano no México, seja possível avançar nessa campanha.

Índice vai estimular certificação de emissões

Uma medida capaz de discernir o marketing da preocupação ambiental efetiva foi apresentada por Sônia Favaretto, diretora de sustentabilidade da BM&FBovespa. Sônia viajou à Dinamarca para explicar o que será o Índice de Carbono Eficiente (ICE), que deve entrar em vigor até novembro deste ano. De acordo com a proposta da Bolsa, o indicador será composto das ações que integram o IBrX-50 (formado pelos 50 papéis mais negociados na praça paulista). Um modelo matemático vai relacionar os resultados das companhias às suas emissões médias de gases que provocam o efeito estufa. Quanto menor a relação entre as emissões de carbono e a receita da empresa, maior será sua eficiência.Para entrarem no novo índice, portanto, as empresas terão de fornecer relatórios auditados da emissão de carbono de toda a sua cadeia produtiva. A criação do ICE deve, portanto, estimular a adoção de mecanismos de certificação de emissões no País e mostrar ao investidor uma faceta desconhecida das empresas de capital aberto que possuem ações com elevada liquidez. Além de ser uma boa referência de investimento para pessoas sensíveis às questões ambientais, o novo índice poderá ajudar a difundir nas políticas de governança uma cultura ambientalmente sustentável. Para Silvia, ingressar no ICE vai preparar as empresas brasileiras para um futuro em que só serão competitivas as companhias de baixa poluição. (F.F.)




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Tags:  Sustentabilidade e Responsabilidade Social Práticas de sustentabilidade Créditos de carbono Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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