Democratizando o investimento ESG

Mercado brasileiro experimenta boom de iniciativas e produtos sustentáveis

Sustentabilidade/Reportagens / 18 de setembro de 2020
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Democratizando o investimento ESG

Imagem: studiogstock | Freepik

“E” para meio ambiente (environmental), “S” para social e “G” para governança. A tríade de critérios sustentáveis — representada pela sigla em inglês ESG — logo dispensará apresentações. A análise sustentável de investimentos e negócios está ganhando novo gás com a pandemia de covid-19, que renovou o compromisso das empresas com colaboradores, clientes e o próprio planeta. Segundo relatório do J.P.Morgan, uma das principais instituições financeiras do mundo, o novo coronavírus representa o ponto da virada na estratégia de análise dos investimentos, que deve somar, cada vez mais, critérios sustentáveis a outras métricas tradicionais de avaliação de investimentos e empresas.

A disseminação do patógeno reforça a tese ESG, que vem crescendo consistentemente desde 2016, de acordo com o J.P.Morgan. A expectativa do banco é de que a indústria de ativos orientados por práticas sustentáveis represente, em breve, 44% do valor global de ativos sob gestão, podendo alcançar a marca de 45 trilhões de dólares até o final de 2020. Essas, porém, são estatísticas abrangentes, já que o tamanho dos produtos dedicados exclusivamente a princípios sustentáveis é relativamente menor. Os fundos ESG, por exemplo, somam globalmente 1 trilhão de dólares sob gestão, apenas 2% do mercado mundial. Outra questão é a concentração dessas iniciativas: Europa e América do Norte representavam cerca de 90% do mercado ESG em 2018.

O Brasil ainda tem muito a caminhar para se igualar aos pares desenvolvidos na busca pela sustentabilidade, mas os passos nessa direção estão ficando mais firmes. Nos últimos meses, o mercado de capitais nacional foi inundado por iniciativas e produtos que buscam endereçar a questão, a começar pela própria bolsa brasileira. Junto ao S&P Dow Jones, maior provedor de índices do mundo, a B3 lançou no início do mês o índice S&P/B3 Brasil ESG, que se junta ao Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) e ao Índice Carbono Eficiente (ICO2) como opção de investimento em negócios sustentáveis.

A Itaú Asset Management, gestora do maior banco privado do País, também está reforçando suas apostas no setor, com a criação de um fundo de ações com capacidade para abrigar 1 bilhão de reais em investimentos ESG. Não existem dados segmentados que dimensionem a indústria de fundos sustentáveis no Brasil, mas informações preliminares já permitem dizer que a meta do Itaú é ambiciosa. Isso porque, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), os fundos de ações classificados como de governança/sustentabilidade totalizam, juntos, 600 milhões de reais. Caso as previsões do banco se confirmem, o primeiro fundo ativo da instituição vai gerir, sozinho, mais capital ESG que todos os demais do mesmo segmento.

Por enquanto o Itaú Momento ESG Ações já captou 20 milhões de reais para investimento em uma carteira de 20 ações, e os gestores estão otimistas. “Não vejo por que o fundo não poderia chegar a marca de 1 bilhão de reais sob gestão. Temos o tamanho e a experiência necessários para dialogar com as companhias e difundir esses critérios no mercado”, afirma Pedro Quaresma, gestor da Itaú Asset Management. Em um primeiro momento, a fala de Quaresma parece criar um paradoxo em relação à estratégia do fundo. Isso porque o produto adota o screening negativo, que exclui da carteira empresas com baixa avaliação ESG ao invés de exercer o engajamento corporativo e pressionar as investidas a mudar de direção.

Quaresma explica, no entanto, que eles mantêm conversas com as empresas excluídas para que, no futuro, possam ser aprovadas na triagem. “Fizemos essa opção por demanda de parte dos investidores. Alguns não querem esperar a mudança e preferem investir em negócios que já estejam alinhados com seus propósitos e valores”, completa Renato Eid, head de estratégia beta e integração ESG da gestora.

ESG e o investidor pessoa física

Além de oferecer uma gama maior de opções sob ESG, outro fator que impacta na democratização desses investimentos é o preço. Em se tratando de fundos, a preocupação é com o tíquete inicial de entrada, ou seja, o valor mínimo para começar investir. Quanto mais baixo for o requisito para o primeiro aporte, maior será a entrada de investidores pessoa física, que hoje já somam 2,9 milhões de CPFs na bolsa. A Itaú Asset Management levou os fatores em consideração com o lançamento de seu fundo, que exige um aporte mínimo de apenas 1 real, mas não foi o único a tomar esse caminho.

A corretora XP decidiu apostar firme no mercado ESG e, entre junho e agosto, lançou três fundos orientados pelos critérios sustentáveis com tíquete inicial de apenas 100 reais — vale lembrar que a empresa é responsável por mais da metade (55%) do mercado de pessoa física na bolsa. “A maioria dos fundos ESG estava restrita ao investidor de varejo e nosso objetivo é mudar isso. Estamos, inclusive, preparando outros produtos de estrutura mais complexa para serem lançados nessa área ainda em 2020”, adianta Marta Pinheiro, nova diretora de ESG da corretora.

Entre os produtos disponíveis no mercado, dois investem em ETFs (exchange-traded funds), também conhecidos como fundos de índice, que compram ações de empresas globais como Apple, Amazon, Microsoft e P&G. O terceiro é um fundo de fundos (FoF) desenvolvido com gestoras locais já experientes no campo sustentável, como Fama, JGP e Constellation.

A XP se comprometeu a empenhar 100 milhões de reais para fomentar o mercado ESG no Brasil, e já acumulou outros 102 milhões em patrimônio líquido somados os três fundos. Pinheiro admite, no entanto, que a sustentabilidade ainda está restrita a um nicho. “Fizemos uma pesquisa interna com 30 mil investidores da nossa base e percebemos que ainda temos um longo caminho para esclarecer exatamente o que são esses investimentos. O ponto positivo é que 80% dos respondentes estão interessados em conhecer mais o universo ESG. Nosso objetivo é que a sigla seja cada dia mais mainstream e democrática”, diz.

Importância do propósito

Outra gestora que acredita no potencial do investimento sustentável é a Vitreo. No mercado há apenas dois anos, a gestora conquistou 4 bilhões de reais em investimentos com um discurso de customização de produtos, que nos últimos dois meses foi aplicado também à lógica ESG. Entre agosto e setembro, a Vitreo lançou dois fundos na área, um FoF ESG carbono neutro — que usa parte da taxa de administração para comprar créditos de carbono — e um fundo W-ESG, criado em parceria com a gestora Franklin Templeton. O “W” vem de “woman”, e é usado para marcar um reforço que o produto pretende dar à diversidade de gênero, uma vez que o principal critério para a escolha das empresas é que a companhia tenha pelo menos três mulheres em cargos de conselho.

O foco nas lideranças femininas é baseado em um levantamento da S&P Global Market Intelligence mostrando que empresas com mulheres como diretoras financeiras conseguiram um aumento de 6% no lucro após a nomeação das líderes para o cargo. Segundo a pesquisa, que ouviu empresas que fazem parte do índice Russell 3000, a presença de mulheres em altos cargos já impulsionou a geração de 1,8 trilhão de dólares de lucro extra para essas companhias. “As empresas que compram essa pauta conseguem dar retorno acima da média de mercado e têm mais chances de conseguir uma performance acima de seus índices de referência no mercado de ações. Esse movimento deve ganhar cada vez mais força nos próximos anos”, argumenta Berkeley Revenaugh, gerente de carteira de clientes sênior da Franklin Templeton.

Apesar de carregarem senso de propósito, os dois fundos da Vitreo ainda não conquistaram o reconhecimento que a gestora imaginava. “Estamos com 4 milhões de reais sob gestão no FoF e 2 milhões de reais no fundo W-ESG. Os fundos ainda são recentes, mas esperávamos uma captação mais rápida, em direção a um objetivo de 50 a 100 milhões de reais investidos nesses produtos”, afirma George Wachsmann, CIO e sócio-fundador da Vitreo. Segundo Wachsmann, a explicação é parte mercadológica e parte comportamental. “O mercado experimentou alguns períodos de baixa recentemente, mas temos aqui também um conflito geracional. Muitos investidores da minha idade precisam ser ensinados a se preocupar com diversidade, com meio ambiente. Para as próximas gerações, esse será um caminho natural”, avalia.

Sustentabilidade na prática

Existem ainda outras barreiras para a democratização do investimento ESG no Brasil, como a inconsistência entre o discurso sustentável e a prática desses princípios no País. Embora esteja crescendo entre investidores de varejo, o investimento ESG ainda é majoritariamente sustentado por grandes players institucionais, principalmente europeus, que demonstram grande preocupação com os crescentes índices de desmatamento na Amazônia e em outros biomas. A região do Pantanal, por exemplo, atravessa a temporada de queimadas mais intensa das últimas décadas. Dados consolidados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que os estragos dos últimos dois meses representam o maior incêndio já registrado na região desde que o monitoramento começou a ser feito, em 1998.

Na última quinta-feira, 16 de setembro, o vice-presidente Hamilton Mourão recebeu carta aberta de oito países europeus, membros da Parceria das Declarações de Amsterdã, criticando a política ambiental brasileira. O documento, de duas páginas, deixa um alerta para o mercado brasileiro: “A atual tendência crescente de desflorestamento no Brasil está tornando cada vez mais difícil para empresas e investidores atenderem a seus critérios ambientais, sociais e de governança”. Seguindo essa linha de raciocínio, a boa vontade de gestores e investidores com os critérios ESG pode ser mais uma a ficar sufocada pela fumaça das queimadas brasileiras.


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