Contracultura do mercado

Sergio Weguelin

Retrato/Edição 122 / 1 de outubro de 2013
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Quando desembarcou no aeroporto do Galeão, depois de cinco anos morando com a família em Washington e Roma, o jovem Sergio Weguelin foi recebido com um abraço pelo primo mais velho que tanto o influenciava. Mesmo distantes, eles haviam se correspondido intensamente, além de terem passado um mês juntos numa viagem de costa a costa nos Estados Unidos, durante as férias. Eram 10h e Sergio, no vigor de seus 18 anos, aceitou de pronto o convite para passear no Rio. Às 14h, já estava na casa do cantor Raul Seixas, amigo que o primo Paulo Coelho queria lhe apresentar.

Aquela rica fase de formação, em contato direto com a cultura alternativa que vibrava nos anos 1970, iria marcar para sempre a vida do economista Weguelin — hoje em fase de balanço, depois de 30 anos de trabalho no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). “O Paulo me despertou para as artes e para o mundo místico”, conta. No entanto, uma ruptura com o futuro escritor brasileiro mais lido no mundo foi inevitável quando Sergio decidiu abandonar o curso de engenharia, não para fazer cinema, como queria Coelho, mas para se dedicar a outra faculdade. “Ele me acusou de trair meus ideais e não seguir o caminho do coração. Mas não era verdade: ouvi meu coração e senti que era em economia que daria a minha contribuição para a sociedade.”

Weguelin, na verdade, nunca deixara que os interesses culturais e as buscas espirituais comprometessem suas responsabilidades de jovem filho de diplomata. “Mesmo na fase porra-louca, estudei para o vestibular, fazia faculdade.” O curso de engenharia civil na Universidade de Brasília (UnB), por exemplo, foi conciliado com reportagens culturais que escrevia para o Jornal de Brasília, lições de cinema com Nelson Pereira dos Santos e de flauta transversal com a concertista Odette Ernest Dias, além de aulas de antropologia. Quando se mudou para o Rio, para morar com o primo numa casa na Gávea, Sergio percebeu o equívoco da escolha por engenharia. Casado e no quarto ano da graduação, já transferida para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele tomou a decisão de prestar o novo vestibular. Proibido de cursar simultaneamente duas faculdades públicas, acabou na particular Cândido Mendes, que considerou fraca.

Para complementar os estudos, iniciou um mestrado nos Estados Unidos e, mais uma vez, não seguiu um caminho convencional: escolheu fazer economia política na “única universidade marxista dos Estados Unidos”, The New School for Social Research, de Nova York. Por quê? “Além do interesse na parte cultural, eu tinha envolvimento social e atuação com os sindicatos; cheguei a organizar uma greve enquanto escrevia uma reportagem sobre a vida dos motoristas de ônibus.” Com tantos interesses diferentes, como foi possível construir depois uma longa carreira de economista, no BNDES? “Nunca fui bitolado. Na engenharia, tive amigos que eram superfocados e nem por isso foram mais felizes. Foi bom ter vivido a minha época. Trago essa bagagem comigo em tudo o que faço.”

É com a disposição de quem ainda tem múltiplas inclinações — e planos — que Weguelin se sente hoje, recém-aposentado pelo BNDES. Sua trajetória nobanco não foi menos diversificada: da estruturação dos primeiros instrumentos financeiros de estímulo ao mercado de capitais, na BNDESPar, até o desenvolvimento de uma política de meio ambiente, ele esteve na linha de frente em momentos decisivos para o mercado. Aí incluem-se ainda a criação dos primeiros fundos de private equity no País e o início da cultura de governança nas empresas. “Tive a felicidade de estar cercado por um grupo excepcional. Aprendi tudo na prática”, afirma.

Da mesma forma, as portas da regulação do mercado se abriram para o seu aprendizado entre 2004 e 2008, período em que foi diretor da CVM. Na mão inversa, ele levava a experiência financeira para os debates na entidade. “Nunca vou esquecer de um Carnaval em que passei os quatro dias redigindo um voto sobre uma operação com derivativos. Eu tinha lido tudo e estava muito inspirado. Só dei uma paradinha para desfilar pela Portela. No dia do julgamento, os outros diretores acabaram mudando o voto e me seguiram.”

A passagem pela CVM, porém, acabou marcada por um episódio que ele relembra com olhos úmidos. Tentando disfarçar a emoção, prefere não entrar em detalhes: “Resolvi colocar uma pedra em cima. Mas eu poderia ter colocado a boca no mundo”. Weguelin ficou afastado do cargo durante nove meses devido a uma investigação pedida por ele próprio. Suspeitaram que teria vazado informações por e-mail para um investidor. Totalmente inocentado, hoje prefere recorrer a uma parábola que ouviu certa vez de seu tio para ilustrar o ocorrido: “Um guarda está na rua e vê um mendigo abaixado, procurando uma moeda que perdeu. Ele se abaixa para ajudar e pergunta se tem certeza de que a moeda foi perdida ali. O mendigo responde que não, mas que está procurando naquele local por causa do poste, afinal ali tinha luz. A moeda, no entanto, estava do outro lado da rua”.

Se depender da luz que parece acompanhá-lo — e dos muitos amigos que surgiram para lhe oferecer suporte durante o afastamento da CVM —, sua nova jornada já inicia promissora. Aos 58 anos, Weguelin se empolga com a bandeira do mercado de capitais verde, que empunhou nos últimos anos no BNDES, e já está envolvido “numa modelagem financeira inovadora que junta mercado de capitais com sustentabilidade”. “Considero o meu forte a estruturação de produtos. Neste caso, estou reunindo toda a minha experiência com mercado, regulação e terceiro setor.” Aposentadoria? “Eu tinha planejado comprar uma bicicleta no dia seguinte ao que me aposentei, em julho, mas até agora não tive tempo.”


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