Política na vida

Matias Spektor, professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas: “As pessoas não percebem a complexidade de uma transição no Brasil. É necessário trocar a roda com o carro em movimento”.

Retrato / Edição 134 / 1 de outubro de 2014
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retratoDomingo, 27 de outubro de 2002. Sem acesso à televisão, proibida no prédio da Universidade de Oxford, Matias Spektor toma conhecimento da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais pelo rádio. Há dois meses cursando o doutorado em política e relações internacionais, ele está tão adaptado aos rituais centenários da instituição — como jantares de toga à luz de velas — que acaba de pedir demissão do sólido emprego no escritório das Nações Unidas (ONU) no Brasil, para arrepio dos pais. Ficará mais cinco anos estudando na Inglaterra.

“Eu não queria ser um burocrata”, conta hoje o professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro e colunista de política externa da Folha de S. Paulo. “Já estava com 24 anos, e vendo o bonde passar.” O bonde, no caso, era seu fascínio pelo sistema educacional britânico, “um mundo de Harry Potter” onde estudantes tinham seus trabalhos acadêmicos destruídos por tutores, depois de passarem a semana lendo na biblioteca. “Ali, a educação é um processo de aprender a se defender”, explica, com entusiasmo. Foi nesse ambiente de forte estímulo intelectual que um dos colegas de doutorado o questionou, durante o almoço de 28 de outubro: por que não estava ouvindo pelo rádio os anúncios do novo governo? Ora, a posse no Brasil só acontece em 1º de janeiro, ele respondeu, para depois refletir e tomar notas sobre a complexidade daquela situação.

Passados 12 anos daquele momento, o assunto de Spektor voltou a ser eleições e transição. Isso porque o novo livro deste “intelectual público” — o que ele preferiu ser, em vez de burocrata da ONU — partiu justamente da reflexão feita naqueles primeiros dias de rádio e luz de velas. E está sendo lançado em meio a uma eleição tão disputada quanto a de 2002. Em 18 dias: quando Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio de Bush, o professor relata como os dois ex-presidentes brasileiros trabalharam juntos para debelar uma grave crise de imagem do País, que levava o mercado financeiro internacional a apostar contra o real.

Os bastidores do poder, levantados em dezenas de entrevistas e documentos secretos, mostram hoje como a polarização típica das campanhas eleitorais não impede entendimentos políticos posteriores. A leitura suscita especulações sobre o período de passagem que começará neste mês. “As pessoas não percebem a complexidade de uma transição no Brasil”, observa Spektor. “Mesmo em caso de reeleição da presidente Dilma Rousseff, a coalizão governista precisará ser costurada novamente e a composição do poder, redesenhada, com mudanças nos comandos da Câmara dos Deputados, do Senado e de cada ministério. Quem ganhar terá que se mover muito rápido para mandar sinais claros ao mercado de uma retomada da economia em 2015. A tensão sempre existe, porque é necessário trocar a roda com o carro em movimento.”

A linguagem clara e precisa de Spektor, mais jornalística que acadêmica, segue o atual objetivo de “alcançar um público leigo de forma sofisticada” com os livros e pesquisas. Da mesma forma, sua mistura de sotaques revela uma vivência internacional preciosa nas análises. Carregando o sobrenome ucraniano do pai urbanista e a cultura ítalo-espanhola da mãe psicanalista lacaniana, Matias Spektor nasceu em Rosário, no interior da Argentina, passou a infância em Buenos Aires e mudou-se com a família para Salvador aos 10 anos. “Sou baiano”, ele brinca, ao justificar a preferência por praia de água morna. Diferente do mar gelado do Rio, onde voltou a morar depois de nova temporada no Reino Unido — desta vez, ocupou a Cátedra Rio Branco no King’s College de Londres, para escrever o livro que está lançando.

retrato2Entusiasmado tanto por praia quanto por rituais britânicos centenários, ele só não parece ter saudades de Brasília, onde morou sete anos para fazer a faculdade e o mestrado em relações internacionais na UnB, depois de descartar o curso de filosofia por duvidar da viabilidade de uma carreira de filósofo. “Sempre precisei trabalhar. No colégio, dava aulas de espanhol. Na faculdade, traduzia documentos jurídicos para empresas estrangeiras interessadas na privatização do sistema Telebras, para poder passar as férias na Inglaterra.”

Após o doutorado em Oxford, cuja tese resultou no livro Kissinger e o Brasil, ele não hesitou em relação ao país onde buscaria o novo emprego. “Vi pelo lado de fora a transformação brutal que se iniciava aqui. E percebi que a opinião pública brasileira, mesmo aquela educada e de classe média, não tinha ideia de como a política externa e as relações internacionais afetam sua vida cotidiana. Quis voltar para assumir esse papel”, diz Spektor. Na FGV, ele não só se dedicou a levar esse conhecimento aos alunos como também agiu na mão inversa. Em viagens ao exterior para divulgar a criação do Centro de Relações Internacionais da fundação, que coordenou, e levantar fundos, era chamado para dar palestras e participar de debates sobre o Brasil, visto à época como país em franca ascensão. “Isso foi entre 2009 e 2010. Eu não dava conta da demanda”, lembra.

Ainda hoje, por causa da repercussão da coluna na Folha, recebe muitos e-mails de estrangeiros — de acadêmicos a operadores de mercado — interessados em suas análises. É nessa troca permanente de pontos de vista que Spektor se abastece diariamente: “O fascínio das relações internacionais é que os mesmos acontecimentos são interpretados de maneiras radicalmente distintas, dependendo de onde você está no mundo. Não é verdade que a internet derrubou as fronteiras. Elas existem e são muito reais”. Com tantas experiências e referências internacionais aos 37 anos, Spektor sabe, como poucos, a importância da geopolítica na vida das pessoas.

Foto: Aline Massuca


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