Hora de planejar a cesta

Sob a perspectiva de juros menores e bolsa volátil, gestores começam o ano atentos aos ativos de maior risco. Mais do que nunca, acertar na composição das carteiras será fundamental

Gestão de Recursos/Reportagem/Temas/Edição 53 / 1 de janeiro de 2008
Por 


Nos últimos anos, uma combinação quase perfeita de rentabilidade, segurança e liquidez ajudou o mercado de capitais a crescer de maneira exponencial. Em 2008, porém, o cenário promete ser bem mais desafiador. Nossos gestores de recursos precisarão ir além dos juros de pouco mais de 10% ao ano e, ao mesmo tempo, driblar com competência o aumento de volatilidade do mercado acionário. Para isso já é possível afirmar, de antemão, que não bastará elevar o risco dos ativos em carteira para alavancar os ganhos. Será preciso sofisticar essa receita com estratégias elaboradas, prazos mais longos e perspectivas diferenciadas — o que tende a tornar os resultados das aplicações muito mais dependentes de uma boa condução do gestor.

A indústria dos multimercados é uma das que mais prometem mudanças. As transformações virão a reboque, principalmente, da forte captação de recursos registrada no ano passado. Somente até o início de dezembro, R$ 33,6 bilhões foram aplicados na modalidade –– mais da metade dos ingressos totais registrados por toda a indústria de fundos no mesmo período, que somaram R$ 59,4 bilhões. Os multimercados de perfil mais agressivo, que investem em ações e permitem alavancagem, foram os mais procurados: receberam R$ 26 bilhões. Por trás de todo este capital há investidores dos mais variados perfis, todos diretamente afetados pela queda dos juros e em busca de novas oportunidades para turbinar suas aplicações.

“Deixaremos de ser um mercado de tendências para depender mais do gestor e da diversificação de suas estratégias. Conseqüentemente haverá menor correlação entre os resultados alcançados”, prevê Gustavo Coelho, da Arsenal Investimentos, consultoria que dobrou o patrimônio administrado nos últimos 12 meses. A tendência é de que os multimercados sejam cada vez mais segmentados e, para isso, seus gestores aumentem o grau de especialização. “Hoje, um único profissional opera com juros, câmbio e bolsa. Neste novo cenário haverá mais foco em cada um desses segmentos”, completa.

Investir na especialização dos profissionais também é uma preocupação da SulAmérica Investimentos. O presidente da companhia, Patrick de Larragoiti Lucas, afirma que está empenhado em aprimorar a capacidade de seus gestores para garantir retornos atraentes neste ambiente de juros mais baixos. Marcelo Mello, vice-presidente da área de gestão de ativos, prevê um aumento nas operações envolvendo derivativos e maior alocação de recursos em fundos multimercado. “Vamos migrar para posições mais arriscadas e, para isso, é preciso ter conhecimento técnico”, diz Mello.

Diante desse desafio, alguns gestores fecharam as portas de seus produtos a novos clientes para garantir a qualidade das carteiras. Um deles foi o BNP Paribas, ainda no início do ano passado. A captação só foi reaberta após o reforço da equipe que daria conta do recado. E as contratações continuarão este ano. De olho no bom momento do mercado, o BNP busca profissionais para formar o grupo responsável pelos multimercados que aplicarão em ativos no exterior, conforme previsto pela Instrução 450 (revisão da antiga 409). Outra novidade de 2008 será a chegada de um fundo quantitativo, cujo modelo matemático está em fase de testes.

RISCO DIFERENCIADO — Em meio à cesta de produtos para gestores que buscam alternativas à renda fixa estão também os fundos imobiliários. Neste campo, a principal novidade de 2008 promete vir do regulador. O mercado aguarda a revisão da Instrução 205, de 1994. A consulta pública, até o fechamento desta edição, estava prevista para acontecer ainda neste mês. A expectativa é de que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) dê mais flexibilidade à modalidade, permitindo, entre outras mudanças, a constituição de fundos abertos. Outra reivindicação é facilitar novas emissões, já que atualmente essa decisão depende da anuência da maioria absoluta dos cotistas. Alguma flexibilização já vem sendo empreendida pelo regulador antes mesmo do início das discussões para a alteração da instrução. “Antes era preciso especificar qual imóvel seria financiado pelo fundo. Porém, nos últimos meses, foram registrados fundos que informam apenas a política de investimento”, comenta Alexandre Tadeu Navarro, sócio do escritório Navarro Advogados.

A Rio Bravo planeja colocar no mercado, no mínimo, dois novos fundos imobiliários, e pode chegar a quatro. “É provável que eles tenham mais de um ativo em carteira, conjugando empreendimentos por nicho de mercado ou área geográfica”, conta Martim Fass, responsável pela área de fundos imobiliários da gestora. O espaço para inovações, contudo, ainda é restrito. “Nos Estados Unidos e na Europa são utilizados instrumentos de derivativos. Aqui ainda não contamos com volume nem liquidez suficientes.”

O mercado também espera novas oportunidades para explorar os produtos de securitização. Marcelo Xandó, do BC Sul Verax, acredita na possibilidade de a CVM flexibilizar o acesso aos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), permitindo que investidores não-qualificados apliquem, ao menos, em fundos de cotas. O regulador, por sua vez, afirma que não trabalha neste projeto –– mas os gestores especializados em FIDCs não vêem motivos para desanimar. Xandó observa que um novo player, com potencial de investimento que pode chegar a R$ 6 bilhões apenas em FIDCs, chegará ao mercado em 2008. “O Conselho Monetário Nacional alterou a Instrução 3.056 e permitiu que as carteiras de regime de previdência, espécie de fundo de pensão da esfera municipal, possam aplicar em ações, multimercados e em fundos de direitos creditórios”, lembra.

“Deixaremos de ser um mercado de tendências para depender mais do gestor e da diversificação de suas estratégias”

Marcelo Michaluá, sócio da Rio Bravo, aposta no aumento progressivo da demanda por parte dos investidores institucionais, ainda concentrados nos títulos públicos. Por causa disso, um novo produto vem sendo oferecido a fundos de pensão, gestores de recursos e aplicadores individuais de grande porte. Formatado há seis meses com recursos próprios, o fundo acumula ganhos líquidos de 130% do CDI e inclui Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), Cédulas de Crédito Imobiliário (CCIs) e créditos agrícolas. “O mercado é incipiente, mas a queda dos juros, a realocação de recursos e as vantagens fiscais farão o segmento crescer”, afirma.

GARIMPEIROS EXIGENTES — Entre os caçadores de retornos atrativos destacam-se também os gestores dos fundos de valor, especializados em garimpar ações subavaliadas pelo mercado e com ótimo potencial de valorização. Em 2008, com a perspectiva de uma bolsa volátil, toda a habilidade será bem-vinda neste segmento. “O risco que se corre para alcançar o retorno desejado ganhará cada vez mais atenção”, sentencia Pedro Damasceno, da Dynamo, uma das mais tradicionais gestoras voltadas a esse tipo de produto.

Na agenda desses profissionais para o ano, algumas questões merecem destaque. A primeira delas é a polêmica por trás das cláusulas de poison pill, criadas para encarecer e, desta forma, inibir tomadas hostis de controle acionário. No Brasil, elas se caracterizam como cláusulas estatutárias que exigem a realização de uma oferta pública para aquisição de ações em mercado, a determinado preço, quando um acionista pretender ultrapassar um certo percentual de participação.

Atualmente, cerca de 50 companhias contam com poison pills no Brasil. O dispositivo começou com a estréia da Natura, em 2004, e foi reproduzido quase que em série pelas novatas que a seguiram. Pedro Rudge, da Investidor Profissional (IP), observa que estes mecanismos, ainda invictos de um teste prático, podem se transformar, em um futuro próximo, num entrave para empresas e investidores. Em geral, as companhias que abriram o capital têm perfil consolidador e aproveitam a liquidez para captar recursos e financiar seus projetos de expansão. No médio prazo, acredita Rudge, essas empre empresas que hoje são compradoras poderão ser alvo de aquisições. E, quando esse momento chegar, os administradores estarão altamente blindados em seus postos –– já que a remoção das cláusulas de poison pill exige anuência da maioria dos acionistas e, em alguns casos, impõe um ônus (a realização de uma oferta pública, nos mesmos termos da poison pill) àqueles que aprovarem a anulação do dispositivo.

“Essas empresas ainda não causam aversão aos gestores, mas nós já damos um desconto”, diz Rudge, referindo-se à estratégia da IP. O gestor afirma, no entanto, que o mercado dá sinais positivos nesta seara. Recentemente, algumas operações amenizaram as poison pills. Foi o caso da Bovespa Holding, que, apesar de contar com a cláusula, não prevê ônus financeiro aos acionistas que eventualmente votarem a favor da exclusão do mecanismo.

MAIS VOLUMES, MAIS QUALIDADE — Por fim, em meio às opções para quem procura um pouco mais de risco em 2008, estão os fundos de participação em empresas fechadas, conhecidos pelos termos venture capital e private equity. Neste campo, os ingredientes novos são o aquecimento esperado para a indústria — desde o setor de alimentos até o de bens de capital — e um volume maior para as operações. “Teremos uma combinação interessante entre seletividade e volumes mais expressivos”, acredita Álvaro Gonçalves, da Stratus. Marcus Regueira, presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), confirma o otimismo: “Terminamos 2007 com cerca de R$ 1 bilhão em recursos comprometidos e podemos dobrar essa cifra este ano”, projeta.

Encontrar boas empresas que passem na peneira desses gestores, porém, não é uma tarefa simples. “O desafio de 2008 é como canalizar recursos para as melhores oportunidades. Temos setores muito atraentes, mas também com muita informalidade, o que acaba limitando o potencial de atração de sócios”, diz Peter Jancso, sócio da Jardim Botânico Partners. A gestora acaba de lançar um fundo de R$ 100 milhões, focado em empresas emergentes (que faturam até R$ 100 milhões). Seus principais cotistas são fundos de pensão, como Petros e Funcef, BB Investimentos e Finep, além da própria Jardim Botânico. “O estágio de desenvolvimento das empresas é bastante diverso e, em muitos casos, o padrão de governança corporativa é baixo”, diz Jancso. Para o gestor, está mais do que na hora de o Brasil, já no terceiro ciclo de private equity, investir mais tempo para educar os seus empreendedores.


Quer continuar lendo?

Faça um cadastro rápido e tenha acesso gratuito a três reportagens mensalmente.
Tenha o melhor conteúdo do mercado de capitais sem limites ou interrupção.
Assine a partir de R$ 36/mês!
Você está lendo {{count_online}} de {{limit_online}} matérias gratuitas por mês

Você atingiu o seu limite de {{limit_online}} matérias por mês. X

Ja é assinante? Entre aqui >

ou

Aproveite e tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo sobre mercado de capitais!

Básica

R$ 4, 90*

Nos três primeiros meses

01 Acesso Digital
-
10% de Desconto em grupos de discussão e workshops
10% de Desconto em cursos
Acervo Digital
sem áudos**
A partir do 4° mês, o valor cobrado séra de R$36,00

Completa

R$ 9, 90

Nos três primeiros meses

01 Acesso Digital
01 Edição Impressa
10% de Desconto em grupos de discussão e workshops
10% de Desconto em cursos
Acervo Digital
sem áudos**
A partir do 4° mês, o valor cobrado séra de R$42,00

Corporativa

R$ 14, 90

Nos três primeiros meses

05 Acessos Digitais
01 Edição Impressa
15% de Desconto em grupos de discussão e workshops
15% de Desconto em cursos
Acervo Digital
sem áudos**
A partir do 4° mês, o valor cobrado séra de R$69,00

Clube de conhecimento

R$ 19, 90

Nos três primeiros meses

05 Acessos Digitais
01 Edição Impressa
20% de Desconto em grupos de discussão e workshops
20% de Desconto em cursos
Acervo Digital
com áudos**
A partir do 4° mês, o valor cobrado séra de R$89,00

**Áudios de todos os grupos de discussão e workshops.




Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie


Tags:  gestão de recursos Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Para a agenda do regulador
Próxima matéria
Bom, mas não tanto



Comentários

Escreva o seu comentário sobre este texto!

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Recomendado para você





Leia também
Para a agenda do regulador
Depois de vivermos um ciclo virtuoso no ano passado, é hora de cuidar dos próximos passos. Os investidores estão mais...