Maurício Gazire: preocupações mais filosóficas que conjunturais

Recém-saído do Morgan Stanley e prestes a abrir gestora própria, ele quer distância da cultura do imediatismo

Bolsas e conjuntura/Retrato / 13 de março de 2020
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Maurício Gazire: preocupações mais filosóficas que conjunturais

*Maurício Gazire | Fotografia: Régis Filho

Num mundo em que as pessoas “conversam” pelo áudio do WhatsApp, se “informam” pelo YouTube e “discutem” com microfrases do Twitter, ele ainda escreve longos e-mails para os amigos e faz reflexões existenciais pontilhadas de referências a filósofos do naipe de Montaigne, Hobbes e Stuart Mill. Promove debates em carne e osso na sua casa, com figuras como o economista e pensador Eduardo Giannetti da Fonseca, o psiquiatra Christian Dunker e a educadora Estela Renner. E prega aos filhos as virtudes da paciência, da disciplina e da perseverança, em contraponto ao imediatismo e à fugacidade da (ir)realidade virtual.

“Não sou muito assíduo nas redes sociais e estou menos interessado em política e economia do que em temas que estão sendo muito pouco debatidos”, confessa Maurício Gazire, que aos 47 anos está encerrando duas décadas e meia como especialista em operações estruturadas com derivativos de grandes instituições financeiras. Sua incursão nesse universo começou com um estágio no Banco Francês e Brasileiro, associado ao Credit Lyonnais, quando ainda cursava Administração na USP. Prosseguiu no Banco Votorantim, depois no suíço UBS (onde conheceu a esposa, Camila), no alemão Deutsche Bank e no espanhol Santander, culminando no Morgan Stanley. Chefe da equipe que oferecia alternativas de investimento estruturadas, principalmente internacionais, a clientes institucionais, Maurício decidiu antecipar a saída que pressentia ser inexorável. Uma das características da carreira no mercado financeiro é o fato de que os executivos ascendem muito rapidamente no início, logo chegam ao topo e geralmente são substituídos por profissionais mais jovens. “Quando você chega na faixa dos 45 anos, já é o mais velho da equipe, talvez até do banco de investimentos inteiro. No Morgan, além de mim, havia apenas três executivos com mais de 45 anos. Como eu disse para minha esposa: estava num ponto em que ou eu saía, ou era saído”, relata.

Mas ao contrário de muitos executivos que decidem mudar tudo em momentos de transição, em sua nova fase Maurício não se afasta completamente de seu passado: está ocupado com a criação de uma gestora de recursos para trabalhar com derivativos de câmbio, juros e moedas no mercado internacional. Ele acredita que investimentos em empresas que adotam práticas sustentáveis, em créditos de carbono e em criptomoedas configuram um espaço ainda muito pouco explorado. Maurício também percebe que, a despeito de toda a turbulência gerada por crises políticas, guerra comercial Estados Unidos-China, coronavírus e queda vertiginosa dos preços do petróleo, existe, no Brasil, uma grande massa de recursos à deriva, esperando oportunidades inovadoras, criativas.

Em razão da crise das hipotecas podres nos Estados Unidos, em 2007 e 2008, os bancos de investimentos foram submetidos a uma série de limitações e restrições que acabaram com o apelo e o glamour que envolviam essas instituições — fatores que haviam atraído o interesse de Maurício na juventude.  Pois foi nesses mesmos dez últimos anos que ele começou a se inclinar às preocupações com temas existenciais, notadamente com a morte, uma questão recorrente de seus escritos pessoais. “A morte tem um pouco a ver com esta segunda fase da vida, em que a gente questiona o sentido da existência. À medida que me aproximo da finitude, tenho que usar o tempo que me resta para tentar retribuir a sorte de ter nascido e vivido”, justifica. Afinal, ocupar um cargo de chefia e trabalhar num grande banco internacional não são coisas que, necessariamente, atendem a essa aspiração mais transcendental. Até porque são condições efêmeras. Numa grande instituição, as pessoas são peças de uma engrenagem, substituíveis a qualquer momento. Não deixam rastros nem saudades. “Mas eu quero poder dizer a meus filhos que construí alguma coisa, que deixei um legado. Por isso acho que agora estou no momento de empreender, de fazer algo que nunca fiz na vida.”


3×4

Rotina: Hoje ele não tem uma rotina, como quando estava no banco, mas ainda acorda as cinco e meia da manhã para ler, até as seis e meia. Enquanto tem tempo livre, dedica entre três e quatro horas por dia para ensinar violão ao filho do meio. Deita-se às nove e meia. “Antes, até, do que as crianças”.

Cuidados com a saúde: Surfista desde os 11 anos, também pratica corrida de longa distância e joga tênis. É rigoroso com a alimentação saudável. “Em casa não entra refrigerante!”, pontifica. Nada de cigarro, e bebida só socialmente. A comida é feita em casa, sai pouco para comer fora. “Meu primeiro terno, comprado aos 22 anos, serve até hoje!”

Fim de semana: O destino habitual é a praia, para surfar. Mas também há muita música, cinema, teatro e museus, com os três filhos (uma moça e dois meninos).

Livro de cabeceira: Nenhum em particular, mas um autor se destaca: o amigo Eduardo Giannetti da Fonseca

Uma inspiração: Eduardo Giannetti da Fonseca, cujas aulas assistia na USP, mesmo sem ser seu aluno.

Conselho para quem está começando: A melhor dica é fugir do imediatismo, ter paciência, ser perseverante.

Momento mais difícil: Na carreira foram os períodos de transição, quando estava decidindo trocar de um banco para outro, ou como agora, partindo para o empreendedorismo.

Melhor momento: O nascimento dos filhos, “disparado, sem nenhuma dúvida”. “Nunca tive educação religiosa, mas o nascimento dos meus filhos foi o mais próximo que estive com o que é sagrado”.


Trabalhando 12 horas por dia no meio do fogo cruzado das mesas de operações do mercado financeiro — em que não há trégua para reflexões ou debates —, ele começou a diminuir a ingestão de pesquisas e livros voltados para o trabalho. Aproveitou o antigo hábito de acordar cedo, às cinco da manhã, para dedicar uma hora e meia à leitura, para buscar nos livros o “preenchimento do eu” que as operações estruturadas com derivativos não supriam. A escolha de temas, obras e autores foi e continua aleatória, sem sistematização. É norteada por comentários de amigos, referências que encontra na internet ou em outros livros. A leitura é toda grifada, nos próprios livros. Depois ele tem o costume de passar as observações para o computador. Aqui, um problema: Maurício registrou comentários em um equipamento do banco, e agora está tentando reaver o estoque de conhecimento dos últimos sete anos. “Eu acho que, muito mais do que ler bons livros, o importante é a capacidade de se aprofundar no que foi lido”, recomenda, enquanto mostra as anotações que registrou nas últimas páginas de A Civilização do Espetáculo, do escritor peruano Mario Vargas Llosa. “Já li três vezes.”

Paralelamente à dedicação a leituras em nada relacionadas ao mercado, ele passou a organizar encontros na própria casa sobre temas que julgava relevantes. Reunia de 30 a 40 amigos com o propósito, justamente, de aprofundar o conhecimento de um dado tema ou tópico. Uma forma de, como ele diz, “abrir a cabeça” ouvindo opiniões diferentes, até contrárias às suas próprias convicções. “Se eu estiver todo mês, por exemplo, com o Gianetti [mensalmente eles jantam juntos], vou conversar sobre assuntos que fazem parte da minha bagagem intelectual, não necessariamente da bagagem da minha esposa ou de cada uma das 30 ou 40 pessoas que vêm aqui em casa debater”, explica.

O fundamental, ressalta, é exatamente o contraponto, que faz as pessoas refletirem sobre a propriedade e a exatidão de uma determinada tese ou opinião. “O contraponto é um modo de refletir sobre suas opiniões pessoais, de dizer ‘ certo, fulano tem razão.’ Ou não. ‘Ele falou, me fez pensar, mas não me convenceu. Minha forma de pensar está robusta, coerente’”, detalha.

A “ágora” de Maurício já recebeu políticos, diretores de cinema, economistas, filósofos. As atividades cessaram nos últimos meses, por causa do “doloroso e lento” processo de desligamento do Morgan Stanley. Pretende retomar em breve as tertúlias, convidando a deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP) para uma conversa sobre educação. Entretanto, os debates não são, por assim dizer, “free for all”. Quando Gianetti foi discutir seu livro Trópicos Utópicos, para evitar que a discussão derivasse para o papel do economista e pensador na campanha de Marina Silva para a presidência da República, em 2014, Maurício impôs a regra: o debate seria centrado na Filosofia, e não na conjuntura político-econômica. “Se quer conversar sobre política ou economia marca um chope, vai numa dessas dezenas de eventos que acontecem por aí com palestrantes que tratam de conjuntura. Nada contra, mas as discussões, aqui em casa, precisam fugir do mainstream, do lugar comum. A ideia é sair um pouco da caixinha.” Ele entende os debates como um antídoto para a superficialidade e o imediatismo que caracterizam a interação via redes socais, canais em que muito pouca gente está disposta a ouvir, a discutir tête-à-tête, se expor, conversar, escutar o outro. “A ter tolerância”, resume.

No fundo, trata-se de uma volta às origens. Seus pais, um engenheiro que trabalhou no projeto da hidrelétrica de Itaipu e militante do finado Partido Comunista Brasileiro e uma socióloga, tinham o costume de reunir amigos para rodas de conversa. “Quando tinha 10, 11 anos, escutava as conversas no alto da escada. Aos 13, 14 anos, meu pai me deixou ficar na sala e começou a me indicar livros sobre o que eu achava interessante nessas conversas”, recorda. Para Maurício, ter pais engajados na formação dos filhos de uma maneira abrangente, completa — considerando teatro, música, cinema e literatura — é o que significa, de fato, “nascer em berço esplêndido”. Pelo jeito, ele foi abençoado.


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