O que o “stakeholders capitalism” pode aprender com governança

É imprescindível, na atual jornada de transformações, o reforço da noção de que a essência deve se sobrepor à forma

Colunistas/Bolsas e conjuntura / 6 de março de 2020
Por 


Colunista Ana Siqueira

*Ana Siqueira | Ilustração: Julia Padula

Diante da combinação de tensões sociais e ambientais a cada dia mais intensas com a incapacidade dos governos para lidar com esse cenário, torna-se fundamental o engajamento das empresas na busca por soluções. E  alerta da luz vermelha já foi acionado: são numerosas e expressivas as vozes que conclamam as organizações empresariais a atuar em prol dos stakeholders (partes interessadas) e não mais exclusivamente em favor dos shareholders (acionistas).

O Davos Manifesto 2020 convoca as empresas para se alinharem ao capitalismo das partes interessadas — já conhecido como “stakeholders capitalism” — e trabalharem para melhorar o mundo em que operam, criando valor no longo prazo e compartilhando-o de maneira justa. Nesse modelo, são beneficiados acionistas e também clientes e comunidades, sem a necessidade de se abandonar a busca por retornos financeiros. Segundo esse manifesto, não há mais espaço para o “shareholders capitalism” há décadas dominante, no qual a motivação corporativa vem principalmente do lucro. Essa nova visão preconiza que as empresas devem pagar impostos, ter tolerância zero com a corrupção, defender os direitos humanos em toda a cadeia de suprimentos, dentre outros pontos.

Sinalizações semelhantes chegam da Business Roundtable (organização que reúne CEOs das maiores empresas dos EUA), que em agosto de 2019 divulgou uma nova declaração sobre propósito alinhada à ideia de atendimento das necessidades de todas as partes interessadas, e da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, composta pelos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs) e 169 metas, cujo fundamento é fazer todos os países e stakeholders atuarem por uma parceria global para o desenvolvimento sustentável. Vale ressaltar a importância do engajamento das empresas à Agenda 2030.

Investidores institucionais, como provedores de recursos para as empresas, têm posição privilegiada para demandar que as investidas assumam sua responsabilidade nesse processo de mudança na forma de atuar. Nesse contexto destaca-se a atividade de stewardship, movimento global que promove o senso de propriedade nos investidores institucionais, criando padrões de engajamento responsável. Larry Fink, CEO da BlackRock, maior gestora global de recursos, tem sido voz relevante para a conscientização das empresas ao reforçar a necessidade de refletirem sobre o seu papel na sociedade.

A disseminação e a incorporação de aspectos ASG (ambiental, social e governança) no processo de investimento por parte dos investidores são crescentes e geram benefícios importantes: além de esses fatores serem instrumentos de avaliação de riscos e de oportunidades de investimentos, contribuem para “elevar a barra” do padrão de atuação corporativa.

Tudo parece conspirar favoravelmente à agenda stakeholders em detrimento da agenda shareholders. Mas é preciso que se tome alguns cuidados nesse processo, notadamente o reforço da noção de que a essência deve se sobrepor à forma nessa jornada de transformação. Lições interessantes, nesse particular, vêm da experiência de governança corporativa no Brasil. A Operação Lava Jato, que neste março de 2020 completa seis anos, revelou o modus operandi de empresas que apresentavam uma governança impecável no papel, na comunicação oficial, e lamentável na prática. O termo “governança corporativa”, hoje sabemos, foi utilizado por algumas companhias como um mero instrumento de marketing. Bom que tenha servido de alerta para outras empresas reforçarem a essência das boas práticas.

A agenda shareholder puxou demais a corda — por muito tempo — e gerou um enorme passivo, cujo tratamento adequado é mais que urgente. Algumas empresas naturalmente já se conscientizaram sobre essa necessidade, mas outras ainda dependem de uma mudança de cultura: precisam olhar ao seu redor, ter empatia, arregaçar as mangas e agir. Processo desafiador, mas incontornável, diante da urgência do tema.


*Ana Siqueira, CFA (ana.siqueira@artha.net.br) é sócia fundadora do Artha Educação


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Tags:  gestão de recursos stakeholders ESG conflito de interesses shareholders Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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