Pandemia foi teste para criptoativos — e eles passaram

Ativos ligados à criptoeconomia no Brasil devem movimentar 100 bilhões de reais em 2020

Negócios e Inovação/Reportagens / 9 de outubro de 2020
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Pandemia foi teste para criptoativos — e eles passaram

Criptoeconomia deve movimentar 100 bilhões de reais neste ano no Brasil, segundo cálculos da ABCripto | Imagem: teravector/ Freepik

O pioneiro bitcoin surgiu em um contexto de grave crise global. O white paper do criptoativo, documento-guia para sua criação, foi publicado em 31 de outubro de 2008, apenas algumas semanas após a derrocada do Lehman Brothers — evento que foi o estopim de uma gigantesca turbulência financeira que derreteu bolsas, destruiu negócios e desestabilizou economias. O projeto do bitcoin foi concretizado no ano seguinte, momento ideal para a conquista de adeptos que haviam deixado de confiar em bancos e moedas tradicionais.

Em 2020 o mundo testemunha outra onda de desconfiança em relação às moedas fiduciárias, só que por um motivo diferente. A pandemia de covid-19 exigiu dos bancos centrais uma política monetária expansionista, que inundou os mercados para salvar as economias. “Os efeitos do novo coronavírus exigiram uma injeção de liquidez sem precedentes. Isso ampliou a busca por ativos capazes de funcionar como reserva de valor — principalmente o ouro, marginalmente as criptomoedas, que acabaram beneficiadas nesse contexto”, afirma Safiri Felix, diretor-executivo da Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto).


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Mas isso não significa que o mercado cripto não tenha sofrido com a pandemia. A criptoeconomia enfrentou perdas principalmente em março, no auge da crise, em linha com o que aconteceu com ativos muito mais estabelecidos, como o próprio ouro. A recuperação, no entanto, foi mais rápida. “O cenário de juros mínimos históricos e de perda de credibilidade da moeda tradicional gera um certo apetite por risco e por investimentos alternativos”, argumenta Isac Costa, analista de mercado de capitais da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). E, enquanto muitos ativos de risco estavam dependentes da capacidade de coordenação de governos e banqueiros centrais, o setor cripto aproveitou sua natureza descentralizada para crescer.

Validação do modelo cripto

“Se existiu um momento para que o bitcoin fosse reprovado, esse momento foi a crise do novo coronavírus. E as criptomoedas passaram muitos bem por esse teste”, diz Stefano Sergole, sócio e diretor de distribuição da Hashdex, gestora especializada em cripto. Junto a Costa, da CVM, e Felix, da ABCripto, ele participou do encontro online “O avanço dos criptoativos”, promovido pela CAPITAL ABERTO.

O destaque dado ao bitcoin não é despropositado. A criptomoeda foi responsável pela primeira ideia de construção de uma rede de pagamentos global descentralizada e capaz de validar transações sem intermediários ou censura externa.

Desde sua criação muita coisa mudou. Outros criptoativos foram lançados seguindo o caminho do pioneiro, a ramificação do mercado deu origem a um verdadeiro ecossistema de negócios e cada vez mais investidores estão dispostos a apostar em cripto. Apenas no Brasil, o setor deve movimentar 100 bilhões de reais neste ano, segundo cálculos da ABCripto. No entanto, a desconfiança em relação à validade desse modelo ainda é grande — ou ao menos era antes da covid-19. “A curiosidade está tomando o lugar do ceticismo. Para a Hashdex, a pandemia jogou muito a favor: estamos com quase 10 mil cotistas e esse número com certeza não seria atingido tão rapidamente no ambiente anterior”, destaca Sergole.

Na avaliação de Safiri, a pandemia permitiu uma aprovação do modelo que o bitcoin e os demais produtos cripto representam. “Foi um teste de estresse do qual setor saiu aprovado com êxito.” Por outro lado, Costa observa que é difícil afirmar com rigor científico que o novo coronavírus foi o motor que impulsionou a criptoeconomia. “Para além de defender se o setor cripto passou no teste da covid-19 ou não, eu diria que tivemos uma excelente oportunidade para comparar o comportamento das criptomoedas com o dos ativos tradicionais”, ressalta. E, nesse ponto, há consenso: as condições foram favoráveis aos criptoativos.

Lacuna regulatória

Existe ainda um importante entrave para a aceitação massiva da criptoeconomia, que é a regulação. A princípio, o tema parece paradoxal, porque os criptoativos são criados com base em um sistema de validação que não precisa de fiscalização externa. Ainda assim, profissionais da área defendem que uma regulação específica para o mercado de cripto no Brasil seria essencial para oferecer mais segurança para o investidor. “Toda vez que ocorre um ataque cibernético ressurgem as especulações de que a criptoeconomia não é séria, e isso alimenta uma sensação de insegurança. A informação é a solução para esse problema, e também é a semente da necessidade de regulação do setor”, afirma Costa.

O problema é também econômico. “Em razão dessa lacuna regulatória, muitos participantes do mercado acessam prestadores de serviços no exterior. Com isso, os empregos e os impostos ficam em outras jurisdições, mesmo o Brasil já tendo reunido as condições necessárias para prestar esses serviços com nível de qualidade semelhante ao dos prestadores internacionais”, defende Felix. A expectativa da ABCripto é de que a discussão sobre uma legislação específica seja retomada no segundo semestre de 2021. Até lá, a associação conta com um Código de Autorregulação, que deve ser seguido por todos os associados.

Vale lembrar que a criptoeconomia é regulamentada no Brasil, o que significa que seus participantes já precisam seguir determinadas regras, como as impostas pela Receita Federal (Instrução Normativa 1.888). Porém, ainda não existe uma lei própria para o setor, apresentando definições claras para o mercado e determinando qual órgão oficial deve ficar responsável por supervisionar a criptoeconomia e emitir as licenças para os operadores.

Sergole, da Hashdex, destaca que a falta de regulação específica é uma questão também fora do País, e que o problema pode ganhar a atenção do mercado financeiro com a entrada de grandes players no mundo cripto. “Estamos estruturando um índice de cripto junto com a Nasdaq, que deve ser lançado ainda neste ano. Será o primeiro índice desse tipo da bolsa americana, e deve dar ainda mais visibilidade para a criptoeconomia”, completa.


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Tags:  regulação inovação Bitcoin criptoativos criptoeconomia Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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