O mapa dos fundos em 2024 
Gestores veem dias melhores. Confira a visão de Fernando Cavallete, da Itaú Asset, Florian Bartunek, da Constellation, e Ulisses Nehmi, da Sparta, entre outros especialistas
Mercado de fundos, O mapa dos fundos em 2024 , Capital Aberto

Um cenário construtivo. Uma estrada mais limpa. Um ambiente de descompressão. Inflação em trajetória benigna. A tão desejada previsibilidade. Todas essas expressões positivas foram mencionadas por especialistas no mercado de fundos de investimento ouvidos pela Capital Aberto ao longo desta semana, em entrevistas que avaliaram o ano que está terminando e as perspectivas para 2024.  

Aprovação da Reforma Tributária, queda dos juros e da inflação no Brasil, sinalização do Banco Central americano (o Fed) de que mira nessa mesma direção e a melhora do cenário macroeconômico na Europa são fatores que, somados, apontam para dias melhores, com mais oportunidades de ganho para um investidor ainda desconfiado, após tantas notícias de impacto que exigiram mudanças de estratégias e muitos resgates nas carteiras nesses últimos dois anos.

Agora, percebe-se uma dose de otimismo, mas sem euforia: o mercado de fundos volta a ser atrativo, sinalizando alguma aptidão ao risco. Mas o investidor ainda está com um pé atrás. 

Apesar de alguma recuperação neste semestre, as captações líquidas da indústria de fundos continuavam negativas neste ano em cerca de R$ 116,8 bilhões, até o dia 14 de dezembro, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). 

No caso da renda fixa, que reverteu somente em dezembro as perdas anuais, chegando neste mês a R$ 2,9 bilhões em captações, no acumulado de 12 meses, as saídas líquidas somam R$ 113,9 bilhões.  

Nesse cenário de resgates maiores que depósitos, os multimercados lideram a marcha a ré da indústria, com R$ 109 bilhões de saídas líquidas no ano e R$ 112,8 bilhões negativos nos últimos 12 meses. Fundos de ações vêm na sequência do pior resultado, com R$ 24,3 bilhões de saídas este ano até o dia 14. 

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Gato escaldado

Neste cenário, os números pedem cautela. “O brasileiro é gato escaldado, então fica mais cuidadoso na hora de arriscar”, afirma Florian Bartunek, fundador, sócio e diretor de investimentos da Constellation Asset Management, com R$ 8 bilhões sob gestão, volume que deve ficar estável em relação a 2022.  

Para ele, o grande tema para 2024 é a queda da taxa de juros, tanto no Brasil quanto no exterior. O senso comum diz que esse movimento sempre leva o investidor a buscar ativos mais arriscados, para ter maior retorno.  

Mas Bartunek acredita que essa migração ainda demora. “O juro está caindo, mas ainda é alto. E, no mercado de crédito, você consegue papéis com rentabilidade atraente, sem tributação e com risco baixíssimo. O investidor pensa – vou mesmo para a Bolsa? Se eu consigo ganhar 11% ao ano sem correr risco, apostando em boas empresas?” Nesse sentido, os fundos de crédito tendem a ganhar força.  

Ele lembra da falada “barreira psicológica” do 1% ao mês. “Se o juro cai abaixo de 1% ao mês as pessoas começam a ficar nervosas, e já está abaixo. Mesmo assim, a mudança deve levar algum tempo para acontecer.”  

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Outro tema relevante, segundo o gestor, é a tributação de fundos exclusivos, aqueles criados para quem detém grandes fortunas. Pela nova lei 14.754, sancionada em dezembro, os fundos fechados exclusivos passam a ser tributados a uma alíquota de 15% para os de longo prazo e a 20% nos de curto prazo, com o “come-cotas” (imposto semestral que já incide nos fundos de renda fixa, cambiais e multimercados abertos ao público geral). 

A expectativa da equipe econômica é que a medida renda de R$ 3,5 bilhões a R$ 4 bilhões aos cofres públicos ainda neste ano.  Em 2024, a lei tem previsão de chegar a R$ 13,28 bilhões em receitas; outros R$ 3,51 bilhões em 2025 e R$ 3,86 bilhões em 2026.

Segundo levantamento da Anbima, o patrimônio dos fundos exclusivos cresceu 15% em 18 meses, indo de R$ 843 bilhões em janeiro de 2022 para R$ 969,5 bilhões em agosto de 2023. 

“Essa mudança tributária impacta a atratividade desses papéis, principalmente nos multimercados. Esses investidores devem migrar principalmente para fundos de bolsa e de crédito”, afirma Bartunek. 

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Fundos de crédito 

Ao fazer um balanço do mercado de fundos de 2023, Fernando Cavallete, especialista de portfólio da Itaú Asset Management, afirma que os fundos de crédito e, em especial, de crédito incentivado, são mesmo o grande destaque. Até novembro, o patrimônio desses fundos na asset totalizava R$ 6 bilhões, um salto de quase 60% em relação a 2022.

Ao longo do ano, sua captação líquida superou a marca dos R$ 2 bilhões. Nesse valor entram fundos de debêntures incentivadas remuneradas em CDI, em IPCA, fundos listados em bolsa, abertos, enfim, “é um segmento que tem atraído bastante atenção porque a gente ainda está num ambiente de juros altos”, afirma.

A Itaú Asset Management é a maior gestora privada do país, com R$ 886 bilhões em ativos sob gestão, mais de 2,6 milhões de clientes e 13,3% de participação no mercado de fundos.  

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Em 2023, a gestora abriu 27 novas estratégias de investimento e mais de 130 fundos. “Teve um pouco de tudo, muita renda fixa, variável, multimercado, a nova família “Janeiro”, criada por Bruno Serra”, afirma Cavallete.

 Ex-diretor de política monetária do Banco Central, onde atuou por quatro anos, Serra “voltou para casa” em setembro. Ele trabalhou por quase uma década na tesouraria do Itaú, liderando a área de renda fixa. A família “Janeiro” inclui dois fundos: um de renda fixa e um multimercado macro, com suas versões de previdência.   
 
Apesar da expectativa da flexibilização monetária pelo BC – o banco prevê Selic de 9,5% ou até 9% no fim do ano –, os patamares de remuneração atuais juntamente com spread de crédito e a isenção de imposto compõem um pacote atraente na avaliação de Cavalette. 

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Segundo Cavallete, no Itaú, esses fundos são formados por ativos que representam mais de 50 grupos econômicos. Entre os setores investidos, o de saneamento vem se destacando nos últimos 12 meses, com crescimento expressivo de emissões de debêntures.  

“Exemplos são os produtos Itaú Pirineus (fundo aberto) e IFRA11 (fundo listado), que há um ano não tinham exposição a esse segmento, mas nos quais hoje, os ativos do setor já representam 20% das alocações”, afirma.  

Boa parte da força no mercado de debêntures incentivadas vem dos anúncios relativos ao Novo Pac, o programa de investimento em infraestrutura do Governo Federal que prevê aportes de R$ 1,7 trilhão — recursos que serão repartidos entre o Orçamento Geral da União, setor privado, estatais e financiamentos.  

“O grande desafio é seguir comprando papéis de qualidade, encontrando boas teses de investimento para compor as carteiras desses fundos, dado o crescimento grande dos aportes dos investidores”, diz. Para fazer isso é preciso uma equipe robusta e especializada. “Somos o maior player no mercado de crédito, com 23 profissionais exclusivamente dedicados a esses papéis.” 

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Infraestrutura

 “Os ativos isentos de IR devem ter um apelo especial para os investidores, e hoje as opções são fartas, passando pelo imobiliário, agro e infraestrutura. Nessa classe, vemos um apelo grande para o setor de infraestrutura, que geralmente tem ativos atrelados à inflação, que estão com taxas bastante atrativas, e tem emissores com alta previsibilidade”, afirma Ulisses Nehmi, CEO da Sparta, focada em crédito privado e com R$ 10 bilhões sob gestão.  

Nehmi também avalia que a queda da Selic será o grande fator por trás das decisões de investimento no mercado de fundos em 2024. 

 “Nesse processo, o investidor tende a sair de aplicações de liquidez elevada, típicas de busca por refúgio em momentos de alta incerteza. Com isso, vão enchendo cada uma das caixinhas em cascata: crédito privado, fundos imobiliários, multimercados e ações.”  

A Sparta prevê um crescimento de 20% em 2023 sobre 2022, seguindo nesse ritmo em 2024. 

“Praticamente todas as classes deveriam se beneficiar, em menor ou maior magnitude, à medida que o cliente busque alternativas de rentabilizar melhor o capital”, comenta Bruno Stuani, diretor da Genial Investimentos, com R$ 60 bilhões sob gestão. 

Ele também vê os fundos de crédito privado bem posicionados para capturar parte deste recurso. “Mas vale ficar atento aos fundos de renda variável, que atualmente estão nos menores níveis históricos de alocação”, afirma. “Pretendemos seguir o mesmo ritmo de crescimento de 30% para 2024.” 


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Bola da vez

O aparente consenso em torno dos fundos de crédito também deve ser visto com cautela, na opinião de Marcelo Mattos, CIO da Inter Asset, que administra ativos da ordem de R$ 7,8 bilhões. “O investidor está sempre tentando achar a bola da vez. E apostar tudo nela, e isso é perigoso”, diz.  

“No final de 2022 havia uma corrida para o crédito privado, e de cara, no começo de 2023, alguns eventos já estragaram o cenário: Americanas, controlada pelo grupo de empresários mais ricos do Brasil. Ninguém poderia prever o que aconteceu”, observa Mattos. 

 “Light, Via Varejo, empresas menores, como Credz, todos esses são exemplos de fatos inesperados e que afetaram o mercado.”  

Os investidores levaram um susto. Os fundos foram muito impactados. O outro lado dessa história, segundo o gestor, é que as perdas poderiam ter sido muito maiores se o investidor pessoa física tivesse apostado diretamente na ação dessas empresas. 

“Esses eventos de 2023 reforçam, para mim, a importância da indústria de fundos, por sua diversificação, pulverização, e pelo olhar dos gestores. É muito importante terceirizar e profissionalizar o investimento, porque essa expertise nos momentos de crise, conta muito.” 

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Renda variável

 Na renda variável, o investidor brasileiro demonstrou seu otimismo neste final de ano, indo com apetite à Bolsa. Na quinta-feira (21), o Ibovespa fechou acima dos 132 mil pontos, nova máxima histórica, levando também a uma queda de 0,49% no valor do dólar, que ficou em R$ 4,88 para mercado à vista.  

Para Pedro Gomes, diretor da Fitch Ratings, os fundos de ações podem ganhar competitividade em 2024 diante de um cenário de declínio dos juros globais e ambiente econômico mais favorável.

Em entrevista ao Valor, ele afirmou, contudo, que os gestores precisarão avaliar melhor as taxas cobradas do investidor. “Uma taxa de administração de 2% ao ano, como os fundos multimercados praticam, custa caro para o cotista. Nos últimos anos, os fundos de renda fixa, incluindo crédito privado, tiveram redução de taxa de administração, mas não vimos isso na mesma magnitude nos fundos de renda variável”, disse ele ao jornal. 

Pedro Perez, analista comercial na AZ Quest, com patrimônio sob gestão 100% alocado em fundos, também comemora o desempenho alcançado nos fundos de crédito privado. “Nos fundos de crédito estruturado, ao longo dos últimos 12 meses, consolidamos a nossa franquia de investimentos alternativos, superando a marca de R$ 2 bilhões nas estratégias Agro, Infraestrutura e Imobiliários”, afirma. A gestora tem mais de R$ 24 bilhões de ativos sob gestão.  


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