Acionistas iniciam batalha para limitar bônus de executivos

Plano de remuneração de companhias britânicas é alvo de críticas de gestoras de ativos e consultorias de voto



Imagem: freepik

Diante de uma crise econômica sem precedentes, foram poucas as empresas que terminaram 2020 com as contas ilesas. Esse cenário, entretanto, não impediu que algumas delas oferecessem bônus milionários aos executivos. A questão tem gerado revolta entre acionistas de companhias do Reino Unido e ganhou novos desdobramentos com o início da temporada de assembleias anuais de acionistas. Nos encontros, a mensagem dos investidores foi clara:  a crise de covid-19 não combina com o pagamento de somas milionárias à alta administração.

Incoerência

Um dos casos mais emblemáticos envolve a corretora de imóveis Foxtons, com sede em Londres. Em abril, o conselho de administração da companhia aprovou o pagamento de cerca de 1 milhão de libras ao seu presidente-executivo, Nicholas Budden. A Foxtons afirmou que, desse montante, 389 mil libras são uma recompensa pelo “trabalho árduo” de Budden, que liderou a companhia em 2020 e trouxe bons resultados “apesar das circunstâncias difíceis”. Um pagamento de 569 mil libras em ações também foi oferecido a ele como incentivo de longo prazo.

O bônus oferecido à Budden logo foi criticado por acionistas. Em 2020, a companhia precisou recorrer ao programa de licença remunerada lançado pelo governo britânico para pagar os salários de seus funcionários durante a pandemia de covid-19. Estima-se que o governo tenha destinado 4,4 milhões de libras para cobrir a folha de pagamento da Foxtons, que também recebeu alívio fiscal no valor de 2,5 milhões de libras. 

Em paralelo à ajuda do governo, a Foxtons também utilizou o mercado de capitais para obter recursos. Captou 21 milhões de libras com investidores para “assegurar suas operações” ao longo de 2021,

Retaliação

A retaliação de investidores contra o bônus oferecido à Budden veio em 22 abril, durante a assembleia anual da Foxtons. No encontro, 44% dos acionistas decidiram votar contra a proposta de remuneração apresentada pelo board.

O fato chamou a atenção do mercado, já que os acionistas britânicos não costumam discordar da administração das empresas nesse aspecto. Em 2020, por exemplo, apenas 5,2% votaram contra planos de remuneração de executivos durante as assembleias anuais no Reino Unido, de acordo com a consultoria Proxy Insight. A mudança no posicionamento dos acionistas tem sido apoiada pelas maiores e mais influentes consultorias de voto. Tanto a Glass Lewis quanto a ISS criticaram a remuneração de Budden. 

“Alguns investidores podem questionar se é apropriado uma empresa pagar bônus aos executivos antes que devolva o valor recebido pelo Estado em programas de auxílio”, afirmou a ISS em nota aos investidores, observando ainda que, no caso da Foxtons, há um descompasso entre o bônus ofertado à Budden e o desempenho da empresa. As ações da companhia caíram um terço ao longo de 2020 e houve cortes nos dividendos. Por isso, na visão da Glass Lewis a empresa deveria reduzir o bônus pago aos seus executivos a zero. “Esta é uma prática comum entre os pares da empresa listados no índice FTSE”, disse em nota.

Outras companhias que estão sob escrutínio de gestores de recursos e consultorias de voto são a Pearson, Hollywood Bowl, CineWorld, Glencore, JD Sports, WH Smith e Telecom Plus. Com a chegada da temporada de assembleias anuais, a Legal and General Investment Management (LGIM), maior asset britânica, avisou que não irá ser condescendente. “Não apoiaremos o pagamento de bônus se a empresa usou o programa de licença remunerada, cortou dividendos ou captou investimentos conosco”, disse Sacha Sadan, diretora de Stewardship na LGIM. 

 

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