Companhias globais atrelam bônus de executivos a metas ESG 

Apple, Volkswagen e Gerdau são algumas das empresas abertas que estão aderindo ao modelo 



Grandes companhias globais atrelam bônus de executivos a metas ESG 

Impacto da covid-19 promoveu mais discussões entre investidores sobre como o ESG deve impactar salários, bônus e incentivos para executivos, independentemente do setor | Imagem: vectorpouch – Freepik

Para reforçar credenciais de sustentabilidade, algumas das maiores multinacionais estão entrando para o grupo de companhias que consideram a inclusão das iniciativas ambientais, sociais e de governança (ESG) no plano de remuneração de executivos. Na última quarta-feira, 17 de fevereiro, foi a vez do McDonald’s, a rede de fast food mais valiosa do mundo, de acordo com o ranking Brandz. Sob as novas regras, o CEO, Chris Kempczinski, poderá perder até 15% de seu bônus anual de aproximadamente 2,25 milhões de dólares se não cumprir metas de inclusão e diversidade em cargos de liderança sênior. 

Para Laura Vélez, analista ESG da Fama Investimentos, essa é uma transformação que, inevitavelmente, deve acompanhar todo o movimento ESG. “A alta liderança é chave para que a agenda de sustentabilidade das companhias ganhe a importância devida e caminhe junto das estratégias core da empresa”, avalia.  A analista defende que as metas socioambientais demonstram o nível de ambição da empresa e, quando são atreladas à remuneração dos executivos, envia uma mensagem ao mercado de que a companhia está falando é serio.

Nos últimos meses, outras gigantes deram o primeiro passo na mesma direção, entre elas a Apple. Segundo o ranking “Marcas Globais Mais Valiosas 2020”, da consultoria Interbrand, a bigtech está no topo da lista, valendo 322,9 bilhões de dólares — se for levado em conta o valor das ações da companhia, o número salta para exorbitantes 2 trilhões de dólares. Anunciada em janeiro deste ano, a decisão da companhia de colocar ESG como uma das métricas para calcular a remuneração de seus executivos não é novidade, mas chama a atenção e indica o quanto o cenário socioeconômico está mudando. “Quem não se mexer agora pode ficar fora do mercado muito rápido. A nova geração esta com sede de mudanças e não temos muito tempo para que isso aconteça”, afirma Vélez.

Tendência na Europa e nos Estados Unidos 

A Europa tem a maior porcentagem de empresas que implementaram métricas ESG em modelos de remuneração de executivos. Segundo dados da CGLytics, empresa de pesquisa em governança corporativa, a França está na liderança, com 51% das companhias abertas usando essas métricas. O país é seguido pela Holanda e pela Suíça, com 30% e 15% respectivamente. 

Os Estados Unidos não ficam atrás. Uma análise da JUST Capital, que classifica as corporações de acordo com fatores ESG, verificou que, entre as empresas do índice Russell 1000, de 10% a 20% vinculam os salários dos executivos a metas socioambientas. Outra pesquisa feita pela Pearl Meyer indica quanto da remuneração de executivos dessas empresas depende do avanço de metas socioambientais — em dois terços delas, fica entre 5% e 10%. 

Aumento da pressão corporativa 

2020 não foi um ano qualquer. Com uma pandemia que evidenciou a fragilidade da economia global e os riscos enfrentados pelas sociedades, cresceu a pressão sobre as empresas para se concentrarem em temas ESG. O impacto da covid-19 promoveu mais discussões entre investidores sobre como o ESG deve afetar salários, bônus e incentivos para executivos, independentemente do setor.

Para Peter Reilly, diretor da consultoria FTI, a quantidade significativa de empresas em busca de aprovação de políticas de remuneração pode abrir uma janela para os conselhos começarem a vincular uma proporção maior de remuneração ao desempenho ESG de longo prazo. “Embora as abordagens variem de acordo com a empresa, garantir um diálogo saudável com as partes interessadas antes da implementação de quaisquer mudanças é de suma importância”, defende. 

Na Europa, é provável que essa tendência continue, impulsionada pela implementação de medidas mais rigorosas pela União Europeia exigindo que investidores institucionais relatem o impacto de seus investimentos para os detentores finais dos ativos. Enquanto algumas das maiores gestoras do mundo ainda se posicionam de forma tímida sobre o tópico, a BlackRock, com 8,68 trilhões de dólares sob gestão, já aborda em suas diretrizes a ideia de incorporar medidas ESG em planos de incentivos a executivos. 

Novos adeptos ao modelo de remuneração 

Em dezembro de 2020, a fabricante de veículos Volkswagen anunciou que entraria na onda. Embora a medida siga passos semelhantes da BMW e da fabricante de autopeças Continental, as implicações dos esforços ambientais da montadora líder em vendas mundiais são enormes. Com 125 fábricas espalhadas por países como Brasil e China, a empresa estima que seus carros respondam por 1% das emissões globais de CO2. 

O grupo se comprometeu a se tornar neutro em carbono até 2050, em uma grande revisão de estratégia focada na fabricação da maior frota de carros elétricos do setor. “A integração de critérios ESG nos cálculos de bônus para nosso conselho de administração oferece incentivos concretos para buscar as metas de sustentabilidade que delineamos”, disse o presidente do conselho da montadora, Hans Dieter Poetsch, em entrevista à BloombergA iniciativa é vista como uma forma da companhia se redimir após o escândalo que protagonizou em 2015, quando foi descoberta fraude na medição de emissões de poluentes de seus veículos. 

Logo depois da Volkswagen, a produtora de aço Gerdau também divulgou a revisão de seu Plano de Incentivo de Longo Prazo (ILP), a fim de incorporar a remuneração da alta liderança aos avanços dos temas ESG. A partir de agora, 20% do ILP, que remunera os executivos por meio de ações da companhia brasileira, será composto por metas de sustentabilidade. A mensuração desse percentual de metas ESG será calculada a partir de dois novos indicadores: porcentagem de mulheres em cargos de liderança e emissões de CO2. 

O McDonald’s estabeleceu metas mais concretas — e ambiciosas — para aumentar a diversidade em cargos executivos. A rede de fast food visa aumentar a porcentagem de mulheres em cargos de liderança de 37% para 45% até o final de 2025. No mesmo período, comprometeu-se a ampliar a parcela de grupos historicamente sub-representados em funções de liderança nos Estados Unidos, como negros e hispânicos, de 29% para 35%. 

Em janeiro, o anúncio da implementação de uma métrica ESG ao plano de remuneração dos executivos da Apple foi bem recebido pelos acionistas. Caso cumpram as metas, o bônus salarial pode chegar a 10% — mas, se não cumprirem, haverá redução do montante na mesma proporção. A nova medida veio após anos de pressão de acionistas ativistas da bightec. Em 2020, a Apple se opôs a uma medida semelhante proposta pela gestora Zevin Asset Management, que recebeu apoio de 12% dos outros acionistas. Na época, a Apple argumentou que não havia necessidade de vincular o salário de executivos a metas socioambientais, uma vez que sua missão corporativa já incluía metas ESG. 

Richard Butters, analista da Aviva Investors, afirma que esse movimento é reflexo de que o mercado começa a ver o desempenho ESG como positivamente correlacionado com o desempenho financeiro. “O mercado está pensando em ESG como um potencializador dos retornos de investimento, em vez de algo que exige uma troca”, disse em relatório divulgado em janeiro. 

 

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