Erros à brasileira

Pressa e desatenção, inimigas da clareza

Crônica/Bolsas e conjuntura / 17 de maio de 2019
Por 


Ilustração: Rodrigo Auada

Com longa trajetória no mercado de capitais, José Estevam de Almeida Prado concluiu estudo pioneiro, publicado em 2018 — “Responsabilidade civil por divulgação de informação falsa ou enganosa ou omissão de informação relevante no mercado de valores mobiliários”. Estevam foi diretor da CVM, onde deixou uma história de competência e dedicação. Sua tese é leitura obrigatória para profissionais do ramo e investidores.

A consistência característica do autor é apresentada em linguagem primorosa, contrastando com problema que se agrava em velocidade digital. Por exemplo, em O Homem mais Perigoso do País, de R. S. Rose, vemos: “O ano seguinte, 1965, produziu comentários de reverência para o marechal do Exército Cândido Mariano da Silva Rondon, que se tornou uma lenda no Brasil moderno por seu trabalho de desbravar o vasto interior do país. Entre seus administradores estava o ex-presidente norte-americano — que depois se tornou explorador — Theodore Roosevelt. […] Lá, os capitães dos navios que os transportavam venderam alguns dos quatrocentos prisioneiros desgrenhados para que fossem escravos […]”.

O leitor poderá deduzir que o ex-presidente americano tornou-se capataz do nosso marechal nos sertões do Brasil e que os presos estavam despenteados. Não é isso. As palavras são, evidentemente, admiradores (em vez de administradores) e degredados (em vez de desgrenhados).

Apesar de contar com revisores, cada vez mais os livros apresentam erros assim, devido ao mau uso do corretor, viciante num país que, segundo a Unesco, ocupa o 8º lugar em analfabetismo, contando ainda com 30 milhões de analfabetos funcionais. Como escrever é difícil, usam o corretor para completar as palavras e vão em frente, de olho no cronograma.

Além das confusões históricas decorrentes, a educação perde auxílio poderoso, expresso no conselho que ouvíamos — leia, para aprender a escrever. O Ministério da Educação, dedicando-se a guerrilhas ideológicas e cantorias, desafina, enquanto os empresários do setor se preocupam com o financiamento estudantil. Estatal, claro.

No início do ano, a editora Record, uma das maiores do País, informou a meta para 2019: publicação de 250 títulos. Afora os fins de semana, dá quase um livro por dia, o que, em princípio, é auspicioso. Mas as coisas estão mal, paradas. Empresas tradicionais encontram-se em recuperação judicial, como Saraiva, Livraria Cultura e Abril. As duas primeiras passaram por expansões aceleradas e entraram em crise, seguindo o caminho de outras que experimentaram expansões galopantes.

Logo após o AI-5, o advogado Sobral Pinto, patrono de causas históricas, foi preso e levado para o Batalhão da Guarda Presidencial, em Brasília. O general comandante convidou alguns presos ilustres (o jornalista Carlos Castelo Branco também era “hóspede”) para o jantar e iniciou uma exposição sobre a situação do Brasil, submerso na ditadura. Quando afirmou que o País vivia uma “democracia à brasileira”, o doutor Sobral interrompeu: “À brasileira eu só conheço peru!”.

Claro que ele conhecia outras coisas, entre elas os livros, como autor e personagem de tantos. Mas o doutor Sobral não chegou a conhecer o cumprimento açodado de metas e os bônus, a redução irresponsável de custos e as expansões insustentáveis, o Twitter e as notícias enganosas. Tudo à brasileira.

Desconfio que urge instalar o corretor na cabeça de muita gente. Preferencialmente, do lado de dentro.


Carlos Augusto Junqueira de Siqueira é advogado e assina a coluna Crônica


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