Trilha para o topo

RI ainda busca espaço na estrutura hierárquica das organizações e profissão é vista como trampolim para vôos mais altos

Reportagem / Edição 22 / 1 de junho de 2005
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ed22_p050-053_pag_3_img_001Animados pela dimensão e responsabilidade que a atividade de Relações com os Investidores (RI) vem assumindo, os profissionais da área já começam a ver a carreira de RI não mais como um fim, mas como um meio para alçar vôos mais altos dentro das organizações. O perfil estratégico que a atividade vem ganhando é um dos fatores que contribui para a passagem pela área de RI ser considerada hoje uma etapa na conquista de posições na alta administração.

Mais do que preparar os press releases e eventos para divulgação de resultados, faz parte do trabalho do RI ser a interface entre a administração e os investidores e estar na linha de frente, agindo em sintonia com os formadores de opinião. O valor da empresa é formado pela percepção externa e cabe ao RI alinhar essas expectativas com as projeções internas de modo a evitar ruído e minimizar descontos no preço das ações. Isso significa que o profissional deve, além de conhecer bem o balanço da empresa, preocupar- se com questões fundamentais para o negócio como governança corporativa, marketing institucional e sustentabilidade, além de dominar conceitos técnicos essenciais, como os de legislação societária. “O RI é um porta-voz especializado que lida com um público sofisticado. Por isso, é essencial ele ter um horizonte de conhecimento amplo, com noções de gestão de imagem e marca e comunicação social, entre outras especializações”, afirma Valter Faria, diretor no Brasil da The Global Consulting Group.

Com a exigência de uma formação extensa, o RI passa a interagir com todos os stakeholders. Por isso precisa ter informações de setores diversos e uma visão empresarial, estratégica, ambiental e da concorrência que, normalmente, apenas os altos executivos possuem. É esse conhecimento que coloca os profissionais de RI em posição vantajosa de ascensão. “O RI atinge um estágio em que conhece tão bem a empresa e transita nas mais variadas áreas que possui atributos suficientes para se tornar um potencial candidato a CEO”, diz Doris Wilhelm, presidente do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri).

Aliado a isso, a relação entre os RIs e a diretoria executiva é estreitada, também, pelo fato de os primeiros atuarem como fonte de informações para um melhor planejamento da empresa. Além de se comunicarem com o público investidor, eles trazem para dentro da companhia dados apurados com clientes, fornecedores e funcionários e acabam ajudando a administração a avaliar o desempenho das suas atividades, a credibilidade da gestão e, até mesmo, a corrigir estratégias. “É uma espécie de consultoria gratuita”, ressalta Faria. Segundo ele, nos Estados Unidos, o profissional de RI é tratado como uma espécie de trainee para formação de futuros executivos. Algo que pode ser visto na prática na General Electric (GE), lembra o consultor. “Lá o RI não é parte de uma carreira, mas uma função de passagem obrigatória para formação de executivos que, no futuro, serão transformados em diretores ou em CEOs.”

O TETO DA PROFISSÃO – A ascensão do RI, contudo, pode ser dificultada por uma questão hierárquica. No Brasil, é comum o acúmulo de cargos. Enquanto o diretor financeiro assume a diretoria de RI, um gerente conduz efetivamente a área. “A carência de diretorias oficiais de RI pode ser um limitador para os que almejam avançar um degrau na escala da empresa. Como o posto formal não existe na maioria das companhias, o profissional que deseja subir terá que se dedicar a outra carreira”, afirma Doris Pompeu, diretora da Global RI. Ou seja, ao mesmo tempo em que tem um perfil estratégico e acesso à alta administração, o profissional e RI raramente dispõe de uma diretoria para chegar a níveis mais elevados. Para que isso ocorra, é provável que tenha que seguir por outras áreas e, desta forma, abandonar a atividade essencial de RI.

Para Doris Wilhelm, a situação ideal é que as empresas se conscientizem do papel estratégico do RI e instituam uma posição exclusiva para a função. Ela acredita que, no médio prazo, o mercado comece a cobrar a existência de um diretor de RI dedicado em tempo integral para a atividade. Na opinião da executiva, o acúmulo de funções acaba reduzindo a legitimidade do cargo de RI. “O mercado vicia em querer falar sempre com alguém além do RI, ou o acionista ou o diretor financeiro, porque talvez não enxergue ainda a representatividade do profissional”, observa. Por enquanto, Doris lembra que a criação deste cargo enfrenta barreiras culturais e de custos. As empresas poderiam considerar onerosa a eventual exigência por parte do regulador para que existisse um posto exclusivo. Nesse contexto, a tendência no mundo inteiro, segundo ela, é que o RI saia das asas do diretor financeiro e fique vinculado à alta administração e ao segmento de comunicação corporativa.

COMUNICADOR OU FINANCEIRO? – A proximidade com a área de comunicação é, inclusive, outro movimento em voga. A habilidade de se comunicar bem é essencial na vida do profissional de Relações com Investidores. “Não adianta o RI saber fazer conta e não conseguir explicar”, diz Doris Wilhelm. A imagem da empresa depende não só do conhecimento financeiro do RI como, também, do seu bom relacionamento e sua capacidade de se comunicar com os diferentes públicos que constroem o valor da empresa. O mercado reage rapidamente à informação e a área de RI precisa transmitir as mensagens da companhia de forma clara e coesa para todos os públicos que atinge – funcionários, clientes, fornecedores, governo, bancos.

“Em caso de um fato relevante, por exemplo, a imprensa não pode receber algo diferente do que o RI irá falar para o investidor”, ressalta Doris Pompeu, da Global RI. É necessário que os dados sejam disseminados de forma homogênea e previsível para o RI assegurar credibilidade perante os “consumidores” dos seus serviços. Por isso, o grande desafio é harmonizar todos os esforços de comunicação.

Nos EUA, já existem empresas que juntaram sob o mesmo guarda-chuva a diretoria de comunicação e de RI. Aqui este parece um processo a ser colocado em pauta. Por vezes as funções de assessoria de imprensa, marketing e outras relacionadas à comunicação se confrontam com as do RI. Mas o ideal é que isto não ocorra, para impedir oscilações na bolsa. “As funções são nebulosas, portanto, para evitar confusões, é provável que a comunicação seja consolidada nas companhias”, diz Rodolfo Zabisky, da Mz Consult.

A facilidade de se comunicar é imprescindível. Não só por conta da preparação de relatórios, que exige clareza de idéias, habilidade de redação e gramática, como também pela necessidade do RI de se relacionar bem. “Faz parte o RI buscar novos investidores em um grupo de prospecção, por exemplo, o que exige capacidade de interação e comunicação”, afirma Doris Pompeu. Uma prova a mais de que as duas atividades andam juntas, não apenas devido à necessidade de revisão de textos, mas também em razão dos contatos essenciais para a vida do negócio. A comunicação tem sido tão relevante para o RI que um terço das matérias do único curso voltado para formação de profissionais da área – o MBA de Relações com os Investidores da Fipecafi, realizado em São Paulo – é ligado a comunicação. “Boa parte dos RIs são oriundos do segmento financeiro. São bons técnicos, mas com dificuldade de transmitir as mensagens”, diz a professora da FEA-USP Marina Yamamoto.

Apesar de a maioria dos profissionais defender que as duas atividades são complementares e não concorrentes, os especialistas da área não descartam a possibilidade de profissionais de comunicação, entre eles jornalistas especializados, atuarem na área de RI. “Há comunicadores que estão aprimorando habilidades no trato econômico-financeiro e podem entrar neste mercado”, afirma Faria. Esta é a quinta turma do MBA da Fipecafi. Todas tiveram pelo menos um profissional de comunicação fazendo o curso. Indício de que as portas estão abertas para novas oportunidades na área.

Múltiplos ajudam a quantificar a eficácia do trabalho do RI

Falar que o profissional de RI agrega valor é fácil. O difícil é provar, por A mais B, que isso realmente acontece. Segundo Rodolfo Zabisky, sócio da MZ Consult, a utilização de múltiplos do tipo Firm Value/Ebitda ou EVA é uma boa opção para quantificar este trabalho. Os indicadores podem servir como meta para superação dos múltiplos de empresas concorrentes. “Mais importante do que olhar para a recomendação buy, hold ou sell dos analistas é verificar se o RI está contribuindo para atingir o múltiplo estabelecido como meta”, afirma Zabisky. Além de alinhar os objetivos do RI com os dos acionistas, a evolução no valor de mercado agrada os investidores. Para o consultor, a empresa que se compromete com múltiplos tende a demandar ações mais consistentes da área de RI e da diretoria.

A Braskem aderiu à fórmula. O RI trabalha em conjunto com a presidência e a diretoria financeira para melhorar o múltiplo FV/Ebitda da companhia. “Nós pactuamos investigar e descobrir as variáveis para serem trabalhadas no curto, médio e longo prazo com o objetivo de reduzir a distância entre nosso múltiplo e o da concorrência”, diz José Marcos Treiger, diretor de relações com investidores da companhia.

Ele lembra que os múltiplos das empresas brasileiras são prejudicados por fatores como o risco país. Nesses casos, o RI tem o papel importante de comunicar adequadamente o investidor, principalmente o estrangeiro, sobre as perspectivas do negócio, o que, sem dúvida, pode melhorar sua percepção e, por conseqüência, o múltiplo. Além disso, cabe ao RI agir em conjunto com a administração identificando oportunidades de crescimento e consolidação da companhia, o que também resulta em múltiplos melhores.

Outra maneira de averiguar se a função foi exercida com competência é apurar se há alinhamento das expectativas internas e externas. “Se o RI divulga o resultado e a ação sobe 30%, isso pode significar que ele não gerenciou corretamente as expectativas. É preciso lembrar que, na outra ponta, alguém perdeu 30%”, afirma Valter Faria, diretor no Brasil da The Global Consulting Group. As projeções acertadas são também um sinal de credibilidade das informações transmitidas pelo RI e do seu bom relacionamento com o mercado, observa Zabisky. Um trabalho bem elaborado e sistemático de quantificação da contribuição do profissional de RI é, segundo o consultor, um passo fundamental para o desenvolvimento da carreira no Brasil.


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