Dupla missão

Nos papéis de CEO e chairman, fundador da Totvs está convencido de que esse é o melhor modelo para a companhia

Especial / Governança Corporativa / Edições / Temas / Conselhos de Administração - Coletânea de Casos / Reportagem / 1 de novembro de 2009
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Os códigos de boa governança advertem: ter uma mesma pessoa nos postos de CEO e chairman pode fazer mal à saúde corporativa. Mas há quem tenha preferido ignorar o aviso e esteja passando muito bem, obrigado. É esse o caso de Laércio Consentino, engenheiro elétrico de formação, fundador da Totvs, presidente executivo da companhia e também o número 1 do conselho de administração. A dupla função, segundo ele, pode ser muito produtiva se o profissional souber separá-la com precisão. “Enquanto o papel do CEO é escrever a história que ainda não foi escrita e cativar pessoas pelas ideias, o do conselheiro é enxergar a companhia de forma holística”, diz o líder de uma das principais empresas de software do País, presente há 26 anos no mercado e hoje com mais de 23,7 mil clientes ativos.

Criado de maneira informal em 1999, quando a Totvs ainda não era uma companhia aberta, e instituído para valer em 2006, o conselho de administração da empresa carrega o antídoto para defender-se dos superpoderes de Cosentino: seus outros cinco membros são independentes. Eles acreditam que esse equilíbrio de forças funciona bem. Marília Rocca, por exemplo, que entrou no conselho em 2001 como a primeira dessa turma, aprova a dupla função do fundador. Ao seu ver, ele traz credibilidade ao negócio.

Em reuniões mensais realizadas sempre na sede da Totvs, no bairro da Casa Verde, zona norte de São Paulo, os conselheiros reveem as decisões tomadas pelos executivos, dentre eles Cosentino. “Com bons indicadores em mãos, conseguimos perceber erros e problemas muito antes de eles se materializarem”, diz Marília. No período em que ficam afastados, a comunicação entre os conselheiros é contínua, por e-mail ou telefone. Na essência da atuação do colegiado está a preocupação com todos os públicos relacionados à companhia, dentre eles clientes e funcionários. “O conselho não deve servir apenas aos interesses dos investidores”, diz o fundador.

Além de um portal exclusivo na intranet, em que estão disponíveis todos os dados e arquivos necessários para as reuniões e os debates, os conselheiros contam com o auxílio de dois comitês — um de auditoria e outro de gente. Enquanto o primeiro se concentra na verificação de números, procedimentos e processos, o segundo tem como foco o treinamento e a validação das políticas implementadas. Em ambos, há a presença de conselheiros independentes. Um sistema de avaliação do próprio conselho ainda não existe, mas sua criação está em pauta para o ano que vem.

Apesar de receberem uma remuneração mensal pelo trabalho no conselho, nenhum dos conselheiros tem a função como única fonte de renda, o que favorece a independência do órgão. “Nenhum dos integrantes é prestador de serviços ou tem alguma posição na Totvs que possa influenciar as decisões do conselho”, afirma Marília, que também é fundadora do Instituto Empreender Endeavor, organização líder no apoio a empreendedores inovadores no Brasil.

Cosentino não pretende exercer a dupla função para sempre. Segundo ele, essa escolha ainda é necessária porque a Totvs está em processo de transição. Mas a separação das funções está prevista, sim. Quando? Cosentino não tem um prazo certeiro, mas garante que isso ocorrerá quando a companhia, presente em 23 países, atingir a “maturidade”. Ele gosta de exercer as duas funções, mas, se tivesse de escolher uma delas, preferiria continuar hoje como CEO e, no futuro, integrar o conselho. “Com o passar dos anos, a experiência que você acumulou pode fazer com que colabore mais se estiver só no conselho”. Hoje, porém, ele ainda tem uma missão a cumprir: “Quero construir uma empresa que seja como um livro, no qual todas as páginas possam ser lidas.” Se atingido o objetivo, os autores dos códigos de governança não terão do que reclamar.



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