Contabilidade socioambiental

Mercado busca modelos que permitam medir a sustentabilidade e computar seus lucros e perdas nos balanços financeiros

Reportagem / Edição 40 / 1 de dezembro de 2006
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Há alguns anos, para escapar de uma discussão em torno da sustentabilidade e da responsabilidade social empresarial e encerrar a questão, bastava citar o economista americano Milton Friedman (1912-2006). Uma das frases mais famosas do Nobel de Economia de 1976 diz que a função social de uma empresa é gerar lucro — afirmação de uma lucidez cartesiana que se tornou axioma favorito dos executivos defensores do modelo de gestão voltado para os acionistas. Não dá para discutir que a função de uma empresa é gerar lucro. A diferença é que hoje não existe espaço para uma companhia cuja única finalidade seja fazer dinheiro.

Mais do que nunca, a perenidade de qualquer negócio está intimamente ligada a uma série de questões, dentre elas, o relacionamento com stakeholders (e não apenas com os shareholders). E já é praticamente consenso que uma companhia que ainda não tenha se dado conta desta questão vai assumir mais riscos do que o necessário. Da mesma forma, é cada vez mais freqüente a idéia de que uma gestão de responsabilidade social pode não apenas manter a lucratividade para os acionistas como, inclusive, aumentá-la. O próximo passo, portanto, parece ser deixar isso mais claro, de preferência em números, para esses investidores. Por que, então, não fazê-lo no lugar mais propício para se falar de números, os balanços financeiros?

Esta é a discussão que vem crescendo internacionalmente e já começa a chamar a atenção de companhias brasileiras. Vários esforços têm sido feitos no sentido de traduzir em números as vantagens da governança sustentável. O grupo canadense Yachin & Associates, Sustainable Investment Group Ltd. lançou este ano, no Fórum Econômico de Davos, Suíça, em janeiro, o protótipo de um estudo que pretende demonstrar que as práticas de sustentabilidade corporativa podem ser medidas e figurar no balanço financeiro. O projeto batizado The sdEffect™ (Translating Sustainable Development into Financial Valuation Measures) usa valores financeiros padrão, como fluxo de caixa descontado e valor econômico adicionado, junto com informações sobre o consumo de energia e o envolvimento da companhia na sociedade para chegar a números concretos que podem ser incorporados ao preço das ações.

Os idealizadores do estudo argumentam que o mercado, de modo geral, lida de maneira muito eficiente com dados contábeis — como o crescimento de receita, a redução de custos e a diminuição de riscos —, mas que ainda não sabe como se relacionar com questões financeiras de fundo socioambiental. Para atribuir valor aos “intangíveis”, a pesquisa observou dados financeiros, a política de sustentabilidade e o relacionamento com os stakeholders de empresas canadenses do ramo da mineração. Um dos exemplos citados é o da Placer Dome. Análises confirmaram que a implantação de um novo projeto de extração de minério da companhia pode ser apressado em até um ano, em função de seu bom relacionamento com a comunidade local. Esse prognóstico aumentou o valor líquido do projeto e a cotação da ação da empresa em 5,5%.

O estudo canadense é um dos primeiros relatórios a usar a linguagem financeira para tentar mensurar o impacto da sustentabilidade nas contas de uma companhia. Apesar de seu caráter experimental, marca o início de um movimento para integrar o balanço financeiro e o balanço social. Mas que conceitos da contabilidade o mundo corporativo deveria utilizar para reportar questões socioambientais?

Há um consenso em admitir que a contabilidade padrão não é a melhor maneira de fornecer informações referentes a gestão ambiental. Por isso estão sendo estudadas maneiras de adicionar aos fundamentos desta contabilidade elementos capazes de quantificar os ganhos e as perdas de uma administração focada na sustentabilidade. Pensando nisso, o IFAC (The International Federation of Accounts) elaborou uma série de diretrizes presentes no EMA (Environmental Management Accounting), um manual para melhorar a prestação de contas nessa área. O guia, que não representa um documento obrigatório, sugere que todos os gastos precisam ser minuciosamente coletados, além de informações não financeiras como os impactos ao meio ambiente. Quem for usar o EMA precisa computar o uso de energia, água, materiais, emissão de poluentes, entre outras variantes como Custos Pouco Tangíveis, que dá nome a um dos capítulos do manual.

Nessa categoria estão custos difíceis de serem organizados e que não são encontrados nos balanços financeiros, mas que podem ter um impacto significativo em uma companhia. Aqui entra desde a possibilidade de leis ambientais mais restritivas, até a queda na produtividade dos trabalhadores em razão de doença relacionada à poluição.

Um dos exemplos citados pelo IFAC no relatório é o da cervejaria austríaca Murauer Bier. Desde que implantou o EMA, a cervejaria passou a usar o balanço financeiro para demonstrar um sistema de indicadores de performance ambiental. Passou a calcular a quantidade de água e de óleo gastos durante a produção, além do desperdício de água e emissão de dióxido de carbono. Estes indicadores são comparados todos os anos para tentar minimizar o desperdício e reduzir a emissão de poluentes. Logo no início da implantação, a Murauer reduziu o consumo de água em 19% e de óleo em 30%.

No Brasil, a tendência também é orientar a formulação dos relatórios, sem, no entanto, fazer disso algo compulsório. “Não existe uma legislação específica que obrigue as empresas a prestar contas dos investimentos em sustentabilidade nos balanços financeiros. O que existe é uma resolução do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) que visa orientar a prestação de contas nos Relatórios Sociais”, diz Luiz Carlos Vaini, vice-presidente da área técnica do CFC. Essa regulamentação orienta as empresas que publicam informações de natureza social ou ambiental. Caso elas se disponham a fornecer tais informações, aí sim precisam seguir as regras estabelecidas pela NBC T 15 do CFC.

GESTÃO DE RISCOS — O movimento internacional em direção à contabilidade dos ativos e passivos socioambientais vem na seqüência de uma outra conclusão: a de que é fundamental a identificação dessas questões para o desenvolvimento de uma política de gestão de riscos apropriada. No final de 2005, o banco UBS publicou um relatório chamado “Why Try to Quantify the Unquantifiable” (Por que Tentar Quantificar o Não-Quantificável), em que analisa nove tópicos de práticas sustentáveis, desde a emissão de carbono até a violação dos direitos humanos. O relatório defende que essas questões são de extrema importância para a vida de uma companhia e, assim sendo, é necessário adotar uma gestão de risco social, além da gestão de risco nos negócios. Mas como quantificar esses nãoquantificáveis? A combinação dos balanços socioambientais e financeiros vem no sentido de responder ao menos uma parte dessa questão.

“No mercado financeiro existe muita intangibilidade. Há muitas questões subjetivas. Se partirmos do pressuposto de que o mercado financeiro atua sob essas circunstâncias, os indicadores de sustentabilidade também deveriam seguir esse padrão”, diz Roberto Sousa Gonzalez, diretor de estratégia de sustentabilidade da The Media Group. Pensando nisso, lembra Gonzalez, empresas brasileiras já começaram a preparar contas de reserva de contingência ambiental, nos moldes das contas de reversa de contingência trabalhista. A Aracruz Celulose e a Petrobras, ambas listadas no Índice Dow Jones de Sustentabilidade (DJIS), tem programas de reserva de contingência ambiental. Esta informação, porém, não está textualmente descrita no balanço financeiro.

Se for levado em conta que a política de sustentabilidade de uma companhia tem impacto direto na valorização do negócio, a tendência é mesmo a unificação dos balanços. “Faria sentido integrar essas informações nos demonstrativos financeiros, a fim de que os investidores pudessem reconhecer de forma mais imediata se a empresa atua no mercado de forma responsável”, diz Rene Coppe Pimentel, professor do Ibmec, da Fipecafi e consultor especialista em contabilidade da Coppe e Borinelli.

RELATÓRIOS, UM PRIMEIRO PASSO — Divulgar informações sobre responsabilidade social de forma mais completa e aprofundada para investidores e demais partes relacionadas tem sido uma preocupação demonstrada por algumas companhias abertas. A iniciativa começou há alguns anos com a apresentação do chamado balanço social nas últimas páginas dos relatórios anuais e, mais recentemente, transformou-se em relatórios dedicados exclusivamente ao tema sustentabilidade. Foi o que fez, pela primeira vez, em 2006, a Suzano Holding. No lugar do relatório anual sobre as atividades do grupo, confeccionou um relatório dirigido às questões de responsabilidade socioambiental, baseando-se na versão G3 do GRI (Global Reporting Initiative) — método que preconiza a análise econômico- financeira da governança ambiental e social. “Esse modelo analisa a companhia como um organismo único, com todos esses aspectos integrados em seu dia-a-dia”, diz Simone de Carvalho Soares, gerente de comunicação corporativa e coordenadora do Grupo Técnico de Sustentabilidade da Suzano Holding.

Recentemente, a Management & Excellence (M&E, Madrid) e a GrowAssociates (São Paulo) realizaram um estudo para analisar os relatórios de sustentabilidade de 45 companhias que pertencem ao Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa). Foram observados 88 critérios nas cinco áreas mais relevantes, segundo os pesquisadores, para um relatório dessa natureza. São eles: transparência, ética, responsabilidade social, governança corporativa e sustentabilidade.

Petrobras, Banco Itaú, Bradesco e Votorantim foram as empresas cujos relatórios se mostraram mais satisfatórios em todos os itens analisados. O quesito Ética foi um destaque negativo — a maioria das empresas não publica muita informação sobre os códigos de ética adotados — e a Responsabilidade Social Corporativa teve a maior média geral em todas as áreas avaliadas. O tema chave — sustentabilidade — teve o segundo melhor desempenho, e a governança corporativa foi o ponto mais fraco entre todos os analisados.

Esses relatórios, porém, ainda não são capazes de demonstrar em números os lucros e as perdas que resultam da gestão sustentável. Mas, na opinião de Simone, da Suzano, isso é questão de tempo: “Em breve, tanto a academia como as grandes corporações do mundo vão encontrar maneiras de mensurar e gerir os investimentos e retornos obtidos em sua gestão socioambiental.”

Sustentabilidade é vital, dizem CFOs

Pesquisa feita recentemente pela PricewaterhouseCoopers constatou que aproximadamente 70% dos CFOs (Chief Financial Officers) de grandes companhias acreditam que a sustentabilidade é um tema de importância vital para o lucro de uma empresa.

Por aqui, um estudo realizado no primeiro trimestre deste ano pela PwC e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), revelou que 60% dos executivos das maiores empresas do País consideram a responsabilidade social e a sustentabilidade temas estratégicos. Longe de ser um modismo, ou uma estratégia de marketing, a sustentabilidade corporativa já representa um diferencial e agrega valor às companhias empenhadas em desenvolver um modelo de gestão baseado no “Triple Bottom Line” — método usado para mesurar resultados sociais, ambientais e financeiros.

Ainda há muita discussão em torno do embate sustentabilidade versus filantropia. Investimentos nessa área tomam contornos de caridade quando não há retorno algum para a companhia. Mas os fatos já comprovam que um projeto bem conduzido e eficiente pode, ao contrário, ajudar as companhias a faturar mais. A gigante Wal-Mart estima ter economizado em torno de 25 milhões de dólares por ano usando um novo motor em seus caminhões, que, em contrapartida, deixaram de lançar na atmosfera mais de 100 mil toneladas de dióxido de carbono.

“A implantação de um projeto sustentável se reflete diretamente no balanço da companhia e no mercado de capitais”, diz Rogério Gollo, sócio-responsável pela aérea de Sustentabilidade da PricewaterhouseCoopers. Quando se leva em conta as últimas pesquisas a respeito das condições climáticas, faz sentido entender os investidores que privilegiam companhias sustentáveis. Segundo um estudo da seguradora Swiss RE, se forem mantidas as atuais condições, dentro de uma década a economia mundial pode sofrer um impacto negativo em torno dos US$ 100 bilhões por ano em razão do aquecimento global. (CCS)


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