A revolução dos balanços

Reunidos em Paris, auditores apresentam suas propostas para o futuro da divulgação de resultados corporativos

Reportagem / Edição 40 / 1 de dezembro de 2006
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Como os sistemas de divulgação de resultados e de auditoria das companhias abertas devem se adaptar para atender às necessidades de um mercado cada vez mais globalizado? Ainda faz sentido, com toda a tecnologia disponível, os balanços refletirem um período encerrado 45 (ou até 90) dias antes da sua divulgação? Para os presidentes de seis grandes auditorias internacionais (BDO, Deloitte, Ernst & Young, Grant Thornton, KPMG e PricewaterhouseCoopers), estas não são perguntas de resposta única. Mas certamente são provocações que já estão mais do que na hora de serem debatidas entre os vários agentes do mercado.

Com essa idéia em mente, eles divulgaram na segunda semana de novembro, num simpósio em Paris, o ensaio intitulado “Mercado de capitais global e economia global — uma visão dos CEOs das firmas de auditoria internacionais”. Além de tratar de aspectos da profissão de auditor e de assuntos que vêm sendo discutidos há tempos, como a convergência de padrões contábeis e de normas de auditoria, o documento propõe uma questão intrigante: quanto tempo vai levar para que a revolução provocada pela internet no mundo do consumo afete o modelo de divulgação de resultados?

Não muito, se considerarmos que a maioria dos dados e relatórios publicados pelas companhias abertas já está digitalizada, que o fortalecimento dos controles internos trazido pela Lei Sarbanes-Oxley levou a investimentos significativos em sistemas de informação e que a internet é uma ferramenta importante de contato com acionistas — especialmente através dos sites de Relações com Investidores (RI) e dos webcasts. Mas, então, de que revolução os auditores estão falando? De uma outra muito mais drástica, podem acreditar.

No lugar dos balanços trimestrais ou anuais que conhecemos hoje, entrarão relatórios atualizados continuamente pelas empresas e acessíveis a qualquer um pelos websites corporativos. A periodicidade será aquela que o mercado julgar adequada, inclusive diária, e o uso das informações, muito mais dinâmico. Com a ajuda da tecnologia XBRL (eXtensible Business Reporting Language) — uma linguagem financeira universal de programação que facilita o compartilhamento de informações pela internet —, os balanços poderão ser customizados conforme o gosto do investidor, que estarão aptos a construir cenários, gráficos e planilhas de comparação com muito mais facilidade.

O conteúdo das informações divulgadas também será diferente. A visão retrospectiva dos fatos, forne cida pelos dados financeiros já apurados, auditados e esmiuçados por notas explicativas, será complementada por informações sobre as operações em curso e também por análises sobre as estratégias adotadas e perspectivas. Apresentarão medidas essenciais para a formulação de cenários futuros como, por exemplo, o grau de inovação (que pode ser indicado pelo número de patentes reconhecidas recentemente), o nível de satisfação dos consumidores, prêmios recebidos, taxa de produtos defeituosos, nível de satisfação e de giro dos funcionários e outros sinalizadores dos chamados ativos intangíveis. “Os acionistas e a comunidade financeira querem saber o que acontece com uma companhia hoje e que irá impactar seus resultados lá na frente”, afirma Bill Parrett, presidente mundial da Deloitte, que concedeu entrevista à Capital Aberto durante sua passagem por São Paulo, no final de outubro.

NOVAS EXIGÊNCIAS — Na visão das grandes firmas, são algumas as mudanças do mundo moderno que exigem um novo modelo de prestação de contas sobre resultados. Cada vez mais, o valor das companhias reside em ativos intangíveis, que não são reportados de forma consistente nos atuais relatórios financeiros. Além disso, bilhões de pessoas já têm acesso à internet, o que não justifica a divulgação pontual de novas informações financeiras apenas uma, duas ou quatro vezes por ano. Outra boa razão, afirmam, é a necessidade cada vez maior dos investidores de obter informações customizadas, o que não é plenamente possível sem a utilização de sistemas como o XBRL.

Os benefícios também serão relevantes, segundo as auditorias. Com uma informação mais ampla e contínua, os investidores estarão aptos a avaliar melhor as empresas e, desta forma, a construir um mercado mais eficiente. Ao mesmo tempo, estarão voltados a um horizonte de longo prazo, em virtude da eliminação das metas trimestrais que induzem a visões mais curtas.

ESTRANHAMENTO — A intenção, no geral, parece boa. Mas o mercado não deu sinais de que será facilmente convencido disso. A prestigiada “The Economist” chamou o documento de “fantasia utópica” e lançou uma série de dúvidas sobre as idéias apresentadas. Questionou, por exemplo, a viabilidade das informações serem padronizadas a ponto de estarem disponíveis para leitura em tempo real nos websites corporativos. Sugeriu que a oscilação dos dados ao longo do tempo poderia ampliar a volatilidade das ações e confundir a percepção dos investidores, e ainda classificou a iniciativa de “tentativa esperta de lidar com um assunto que assombra as firmas, especialmente as grandes: a responsabilização por fraudes e inconsistências que elas falhem em detectar”. No Brasil, a Capital Aberto também procurou analistas para entender como eles receberiam a idéia e a reação foi igualmente adversa.

Para viabilizar as mudanças que se propõem a discutir, os auditores também sugerem algumas iniciativas de mais curto prazo que, combinadas, podem significar um primeiro passo. Aí incluem a convergência de padrões contábeis — com a conciliação dos moldes norte-americanos (US-Gaap) e internacionais (IFRS) — e a unificação das normas de auditoria. Em prol deste último ponto, eles criaram um órgão internacional, o International Forum of Independent Audit Regulators (Ifiar), que fará sua primeira reunião em março de 2007, no Japão, e já conta com 18 órgãos reguladores associados. “A multiplicidade de práticas contábeis e de normas de auditoria dificulta todo o processo, desde a formação de profissionais, e ainda contribui bastante para a concentração do setor”, afirma Francisco Papellás Filho, presidente do Instituto Brasileiro de Auditores Independentes (Ibracon). Ele participou do evento promovido pelas firmas em Paris. “Falar de uniformização é falar também de redução de custos, ganho de eficiência e incentivo à competição.”

Guy Almeida Andrade, auditor e sócio da Magalhães Andrade Auditores Independentes, também elogia o projeto. “Essa é uma iniciativa importante, que vem num bom momento e coloca em pauta assuntos que são delicados para todos.” É acompanhado por Ana Maria Elorrieta, da PricewaterhouseCoopers, para quem “o engajamento na discussão resultará em uma melhora substancial do mercado de capitais”. Já Papellás Filho, do Ibracon, pondera: “Só um movimento internacional conjugado pode dar força ao processo.” O tempo — e o resultado dos debates — vai dizer se essa força terá mesmo chances de surgir.

Para analistas, periodicidade trimestral é suficiente

As propostas das firmas de auditoria não entusiasmaram os analistas ouvidos pela Capital Aberto. No geral, eles consideram que a apresentação trimestral dos resultados é suficiente. “A divulgação trimestral é adequada e não entendo que essa periodicidade seja determinada pela tecnologia”, afirma Rodrigo Barros, da Unibanco Corretora. Fabio Zagatti, do HSBC, também não acredita que a periodicidade deveria ser menor (ressaltando que esta é sua opinião pessoal, e não da instituição). Ele pondera que o tempo para a divulgação das informações financeiras, na verdade, depende, em boa parte, do tipo da companhia. “Há diferentes níveis de complexidade. Numa companhia de produto único, dá para ser muito mais ágil.”

Uma empresa que estaria apta a aderir à revolução proposta pelas auditorias é a Aracruz. Seu sistema integrado de controle a apuração dos resultados permite a contabilização em tempo real e a publicação de números auditados em até cinco dias úteis após o fim do trimestre. Embora o prazo legal para fazê-lo no Brasil seja de 45 dias corridos, a companhia procura sempre ser uma das primeiras a divulgar seus resultados. Para Isac Zagury, diretor financeiro e de RI da fabricante de celulose, quanto menor for o intervalo, menor é a defasagem da informação e, portanto, maior a qualidade. Em sua opinião, a agilidade também contribui para reduzir a incidência de especulações e do vazamento de informação.

William Bethlem, diretor de distribuição global de renda variável da Unibanco Corretora, aponta os encontros com investidores como uma iniciativa também eficiente. E elogia os chamados “company day”. Com duração de um ou dois dias, esses encontros levam investidores às plantas industriais e promovem a aproximação com diretores, conselheiros e até fornecedores. “Companhias que primam por governança e por dar visibilidade ao negócio permitem que um cenário mais amplo, mais estratégico, seja apresentado.”

Outra medida para acalmar os ânimos do mercado é a divulgação de projeções de resultados (guidance), ainda incipiente no Brasil, mas bem difundida nos Estados Unidos. A informação mais apresentada é a estimativa de lucro por ação, mas outras, como volume de vendas e média de preços, também são usuais. Por aqui, Gol Linhas Aéreas, Votorantim Celulose e Papel, Braskem e OHL divulgam o guidance. (C.G.H)


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