Legião de fiéis

Motivados pelas experiências de gestores profissionais, investidores pessoa física aderem ao ativismo e engrossam o coro dos defensores das melhores práticas

Reportagem / Edição 39 / 1 de novembro de 2006
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Há quem diga que o investidor pessoa física no Brasil raramente participa de uma assembléia, sabe pouco sobre os seus direitos e não estuda os fundamentos da empresa antes de comprar uma ação. É verdade, a maior parte deles está mesmo longe de ser vista como fiscal da governança corporativa. Mas há exceções. Existem aqueles que acompanham atentamente as decisões da companhia, recorrem à Comissão de Valores Mobiliários quando se sentem prejudicados e batem o pé ao perceberem que a gestão do negócio não está alinhada com as melhores práticas. A Capital Aberto saiu em busca de pessoas com esse perfil e colheu pelo menos duas evidências animadoras: uma, de que o ativismo dos minoritários no Brasil está acompanhado de investidores individuais tão conscientes quanto os institucionais reconhecidos por essa bandeira; outra, de que esses pequenos acionistas, assim como seus pares que administram recursos de terceiros, têm ótimas histórias para contar.

Comecemos pelos relatos do médico Turíbio Gutierrez Cerqueira, que, desde muito jovem, conseguiu enxergar no mercado de capitais a cura para dois males da nossa economia: a falta de linhas de financiamento competitivas para o desenvolvimento do setor privado e a ausência de uma poupança para garantir o futuro da população. Hoje, aos 62 anos, lembra-se de como eram tomadas as decisões de investimento na década de 70 — época em que comprou seus primeiros papéis na Bolsa de Valores de São Paulo. “O gerente do banco passava a mão no telefone, ligava para alguém da corretora e perguntava qual era a melhor oferta daquele dia”, conta. Cerqueira, que sempre foi um profissional metódico, ficava incomodado com a falta de informações. “Até na hora de distribuir os dividendos, havia empresas que, simplesmente, ignoravam o cálculo correto para os preferencialistas.”

Talvez seja por esses traumas do passado que ele hoje valoriza tanto o Novo Mercado. Das cerca de 20 ações que tem em carteira, quase todas pertencem a pelo menos um dos níveis diferenciados da Bovespa. Ação sem tag along, por exemplo, normalmente passa longe do seu radar, e exceções só são abertas quando a empresa tem um histórico de solidez e um balanço atrativos o suficiente para fazê-lo relevar esse direito. Atualmente, passa poucas horas no consultório. Seu tempo se divide entre o trabalho na administração de um hospital em São Paulo e a pesquisa por informações das companhias às quais confia seu dinheiro. Para ele, só quem já sentiu na pele a dificuldade de obter um dado corriqueiro como o P/L (múltiplo que relaciona o preço ao lucro por ação) nos tempos idos sabe como é fundamental a transparência apregoada pela boa governança corporativa.

“A primeira vez que ouvi falar sobre o Novo Mercado rezei para aquela idéia dar certo. E, cada vez que uma empresa aderia à listagem, comemorava, pensando quando chegaria a vez de as minhas ações também migrarem para lá”, recorda. Apesar de sua formação não esbarrar com a área de finanças ou investimentos, sempre gostou desses assuntos. A ponto de lamentar muito quando soube que o governo federal havia tirado da Lei das S.As o direito ao tag along, em 1997, logo antes das privatizações no Brasil. Na época, Cerqueira era acionista do Banespa. “Se fosse hoje, isso não aconteceria tão facilmente. O minoritário aprendeu a lutar. Além disso, os próprios órgãos reguladores tornaram-se mais eficientes na proteção dos interesses dos investidores.”

Verdadeiro entusiasta das melhores práticas, Cerqueira faz questão de checar se o conselho de administração da companhia tem mecanismos que preservem sua independência. Perguntado sobre o que essas três décadas mais lhe ensinaram no ramo de investimentos, ele responde sem titubear: “Aprendi a me manter informado. Não tem outro jeito. É preciso ler o relatório, estudar o potencial de crescimento da empresa, avaliar quais variáveis externas podem afetar o seu desempenho e, por último, medir o grau de comprometimento da companhia com o minoritário”.

ARREGAÇANDO AS MANGAS — O segundo exemplo de investidor individual que usa a governança corporativa como a principal arma para exigir os seus direitos é o do engenheiro agrônomo João Antonio Lian, 46 anos. Quem conversa com esse produtor de café — natural de Espírito Santo do Pinhal, no interior de São Paulo —, não imagina que por trás de sua fala mansa existe um acionista para lá de exigente, determinado a encontrar os sinais das boas práticas nas companhias listadas na bolsa. A experiência como empresário o ensinou a pensar no futuro e, desde 1988, ele passou a aplicar o dinheiro em ações com o intuito de formar seu pé de meia para a aposentadoria.

De quantas assembléias participou até hoje, ele mesmo não se lembra. Só para acompanhar as disputas judiciais quando houve a incorporação da Cosipa pela Usiminas, em 2001, foram feitas várias reuniões. Assim como o médico investidor, Lian também sentiu o quanto a ausência do tag along faz toda a diferença em ocasiões como aquela. Detentor de ações da Cosipa, não se conformou quando soube que o valor a ser pago aos minoritários seria de apenas R$ 0,20. “Depois de muita briga, conseguimos elevar esse valor a R$ 0,85”, lembra.

Em 2002, foi a vez de Lian arregaçar novamente as mangas, para articular forças com os demais acionistas minoritários. A contenda era uma repactuação da dívida da então Rhodia-Ster — hoje nas mãos do grupo Mossi & Ghisolfi —, em que os investidores eram contra o valor dos juros pagos pela subsidiária brasileira para a matriz italiana, acima do mercado, na avaliação deles. “A luta na Justiça ainda não terminou, mas, na época, conseguimos substituir o controlador e nomear um representante no conselho fiscal”, orgulha-se o engenheiro.

Hoje, Lian respira mais aliviado ao saber da existência do Novo Mercado e da câmara de arbitragem. “Noto um amadurecimento do mercado brasileiro. Depois dos níveis da Bovespa, as conversas passaram a acontecer num outro nível, com mais transparência e informação ao acionista”, diz. Na sua avaliação, o processo de conscientização dos investidores individuais também deve muito aos gestores independentes de recursos. “Se eles deixam de investir numa determinada empresa, nos chamam e explicam o porquê da decisão. Isso nos ensina a sermos exigentes.”

Para se manter bem informado, Lian lê muito, freqüenta as reuniões da Apimec e busca informações nos respectivos sites das companhias. De tanto conhecer o mercado, já pensou, inclusive, em abrir o capital da sua empresa, a Sumatra Café. Mas exatamente por entender o funcionamento da bolsa, sabe que é preciso crescer um pouco mais antes de dar um passo como esse. Por enquanto, prefere apenas aplicar as lições que a governança corporativa oferece ao seu negócio. “Um dia, quem sabe, vai chegar a minha vez de falar aos acionistas.”

GRUPO DE ESTUDO — Já na vez do investidor Wellington Lourenço Ramos, 35 anos, a governança corporativa foi sendo descoberta aos poucos. Como quem não queria nada, ele resolveu fazer uma vaquinha com outros três colegas de trabalho, em Guarulhos, na Grande São Paulo, para montar uma espécie de clube de investimentos. Em 1999, atraídos pelos altos lucros dos bancos, compraram algo perto de R$ 2.000 em ações dessas instituições. Pouco tempo depois, já realizavam lucros da ordem de 30% sobre a aplicação inicial.

Os investimentos passaram a ser encarados de forma mais séria quando Ramos começou uma pósgraduação na área de finanças e, em uma das disciplinas do curso, aprendeu as vantagens de se apostar em companhias com boas práticas de governança. Por sorte, acabou conseguindo um emprego na Visanet, empresa que já mantinha uma gerência de governança corporativa internamente. Assim que soube da existência desse departamento, tratou de montar no local um grupo de estudo sobre o mercado de capitais, que hoje conta com 15 pessoas. Uma vez por semana, eles se reúnem após o expediente para discutir o assunto mais em voga naquele período.

Eles acompanham as decisões da companhia, recorrem à CVM quando se sentem prejudicados e batem o pé na ausência de governança

“Um dos debates mais interessantes foi sobre a lei Sarbanes-Oxley”, lembra Ramos. Como ele trabalha na área jurídica da empresa e sua formação é em ciências contábeis, sugeriu que o grupo estudasse o impacto das exigências da legislação norteamericana nos procedimentos adotados por eles em suas rotinas de trabalho. “Foi uma experiência muito válida. À medida em que colocávamos as diretrizes da SOX em prática, entendíamos por que a lei foi criada daquela maneira e o quanto as empresas que seguem essas normas ampliam seus controles”, explica.

Por fim, na lista de investidores individuais e defensores da boa governança encontrada pela Capital Aberto, há o jovem bacharel em Direito, Julio Polato. Recémformado, 23 anos, ele abusa da disposição que lhe é conferida pela tenra idade e encara a árdua missão de convencer os investidores grafistas e outros especuladores sobre as vantagens de uma análise fundamentalista e baseada em governança. “Passo horas convencendo meus pais de que a bolsa não é um cassino”, desabafa. “Ensino que é possível lucrar com esse tipo de aplicação avaliando corretamente os fundamentos de uma companhia que ofereça uma gestão transparente e comprometida com os direitos dos minoritários.”

O jovem acionista, morador de São Paulo, tomou gosto pelo assunto de tanto ouvir falar do Novo Mercado da Bovespa e das recentes aberturas de capital. Decidiu, então, fazer cursos por conta própria, o mais recente na Profins Business School — uma instituição particular de ensino voltada à área de finanças. Hoje opera direto do seu sistema home broker e garante ter êxito com algumas boas escolhas. “Sempre no Novo Mercado”, gosta de frisar. Ainda não participou de uma assembléia. Mas gostaria de conferir de perto se o comportamento dos administradores e controladores nesse tipo de encontro é coerente com a imagem que a companhia costuma vender. O mercado brasileiro pode até menosprezar o poder isolado dessa nova geração de guardiões da governança. Mas o fato é que essa turma vem crescendo nos últimos anos, e até já faz verão no ainda imenso mar de investidores que estão longe de trocar suas análises gráficas — ou aquele bom e velho boato — por um representante no conselho de administração.


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