Elas vêm chegando

Meia-dúzia de companhias estão prontas para desembarcar na Bolsa este ano, enquanto outras trabalham para ganhar musculatura e abrir o capital a partir de 2005

Edição 12/Reportagem / 1 de agosto de 2004
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ed12_p010-014_pag_1_img_001O mercado brasileiro de ações parece ter saído em definitivo da abstinência. Após dois anos de ressaca, sem que uma única empresa se aventurasse a abrir seu capital, a Bovespa revive uma onda de ofertas públicas que chegou a merecer destaques até nas páginas do diário britânico Financial Times. Natura, Gol e América Latina Logística (ALL) foram as primeiras companhias a quebrar o jejum no pregão, entre maio e junho deste ano. E o movimento terá continuidade a partir de setembro, quando os investidores americanos e europeus retornam das férias de verão no Hemisfério Norte.

“A expectativa é que pelo menos mais seis companhias lancem ações no segundo semestre”, diz Maria Helena Santana, superintendente de relações com empresas da Bovespa. As próximas da fila, segundo previsões de consultores do mercado, são Magazine Luiza, CPFL Energia, Delboni Auriemo e Grendene, todas previstas para chegar ao pregão ainda em 2004.

E o movimento não promete se esgotar tão cedo. Uma outra leva de companhias vem se preparando discretamente para ganhar musculatura e chegar ao pregão em boa forma nos próximos anos. Dispostas a compartilhar poder e resultado com milhares de sócios que acreditem em seu potencial de crescimento, elas vêm fazendo a lição de casa há algum tempo. Trabalham para aprimorar suas estruturas de governança corporativa e alcançar o porte necessário para pulverizar parte do capital atendendo à demanda dos investidores. Nesta futura leva de empresas que chegará à bolsa, Pierre Alexander, Troller, Zoomp, Ecorodovias e Microsiga são alguns exemplos.

Elas atuam em segmentos de negócios bastante distintos, mas programam seu desembarque no pregão com uma característica comum: todas pretendem listar ações no Novo Mercado, o que significa uma postura mais transpareed12_p010-014_pag_2_img_001nte, boas práticas de governança e respeito aos acionistas minoritários. Um avanço nada desprezível para as companhias abertas brasileiras, que até bem pouco tempo atrás ainda podiam dar pouca importância a essas questões.

A iniciativa de aderir ao Novo Mercado é voluntária, mas sua razão de existir é uma necessidade. Oferecer garantias como essas tornou-se pré-requisito para atrair investidores nacionais e estrangeiros escolados por surpresas não raro decepcionantes. Apenas para lembrar de um exemplo do mercado local, e mais recente, acionistas da AmBev viram o papel preferencial da companhia despencar com o anúncio da fusão com a belga Interbrew, em fevereiro. Seguindo estritamente o que estava na lei, os controladores deram apenas aos detentores de papéis ON o direito de acompanhá-los na venda das ações para os europeus.

A julgar pela conduta das novas candidatas ao pregão, são grandes as chances de ser repetido o sucesso das ofertas da Natura, Gol e ALL. A empresa de cosméticos Pierre Alexander, por exemplo, está arrumando a casa desde já, apesar de ter planos para estrear no mercado de ações só a partir de 2006. A companhia iniciou, há dois anos, um processo de profissionalização da gestão, contratando executivos do mercado para cargos estratégicos. Também adotou práticas de governança corporativa e criou um conselho de administração independente. A companhia, contudo, ainda não se considera pronta para lançar ações. “Precisamos consolidar a marca e crescer em faturamento”, afirma Juracy Monteiro, diretora geral da Pierre.

De capital nacional, a Pierre Alexander ocupa o terceiro lugar no ranking das maiores empresas de cosméticos no segmento de venda direta, atrás da Natura e da gigante americana Avon, cuja matriz já possui ações na Bolsa de Noed12_p010-014_pag_3_img_001va York. No ano passado, o volume de negócios com produtos da marca atingiu R$ 110 milhões. A intenção é triplicar esse valor. Para isso, conta Juracy, a empresa vai lançar em breve uma campanha publicitária com o objetivo de aumentar sua base de revendedoras, de 60 mil para 100 mil representantes. “Queremos ser uma marca conhecida não só no Sul, mas também no Sudeste”, diz Juracy. Segundo ela, isso é fundamental para que a marca tenha o mesmo sucesso da sua concorrente Natura na bolsa.

A estratégia de funcionar como empresa aberta mesmo antes de vir a mercado também está sendo adotada pela fabricante de jipes Troller. “Pretendemos lançar ações nos próximos três ou quatro anos”, revela Clécio Eloy, diretor executivo da fábrica. “Mas queremos desde já ter uma postura de empresa listada em bolsa para que potenciais investidores já estejam familiarizados com os números da companhia quando chegar o grande dia”, explica. Assim como a Pierre, a Troller foi profissionalizada e ganhou um conselho de administração independente, que hoje é presidido pelo executivo Ozires Silva, ex-presidente da Varig. Também passou a publicar demonstrações financeiras e, em breve, pretende converter sua contabilidade para o padrão US Gaap.

Criada em 1995, na cidade de Horizonte, no Ceará, onde mantém a linha de montagem, a empresa tem hoje cerca de 4 mil jipes Troller circulando pelo Brasil. Em 2003, lançou o jipe militar Troller T4- M e agora se prepara para apresentar a picape Pantanal no Salão do Automóvel do próximo mês de outubro. A expectativa da montadora é aumentar de forma significativa seu faturamento, hoje de R$ 69 milhões, até 2007, quando pretende levar suas ações a pregão.

O objetivo, conta Eloy, é fazer uma emissão primária no Novo Mercado e investir os recursos em aumento de capacidade, desenvolvimento de novos produtos e capital de giro. Eloy acredita que, apesar dos custos de ser uma companhia aberta, essa é a opção mais barata para se capitalizar. “Escolhemos o mercado de ações porque o crédito bancário é muito caro”, justifica.

Os obstáculos para tomar dívida de longo prazo no Brasil têm sido um grande incentivador para que as empresas comecem a incluir a bolsa de valores como alternativa de captação. A maioria das linhas de financiamento oferecida pelos bancos é de curto prazo e sai a um custo altíssimo. “Sem opção melhor, as companhias começaram a ver na emissão de ações uma boa fonte de recursos”, diz Raul Bier, sócio da consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC).

Além disso, diz ele, o bom desempenho das ofertas públicas realizadas este ano serviram para aquecer o mercado. “Até então uma empresa tinha receio de abrir o capital porque o preço das ações em mercado estava depreciado, o que não compensaria os custos da operação”, explica Bier. Na opinião do consultor, o preço satisfatório obtido nas últimas emissões se deve à forma como essas companhias lançaram suas ações, com compromisso de boas práticas de governança e transparência. “Isso gera confiança e se reflete nos papéis”, explica Bier.

PROCESSO ADIANTADO – Entre as companhias que se preparam para chegar à Bolsa, algumas avaliam que estão chegando perto de seu objetivo. É o caso da Ecorodovias, que já pode ser considerada de grande porte, mas pretende crescer ainda mais para realizar o projeto de lançar ações. A holding, que tem capital aberto desde o final de 2003 e administra as Ecovias Imigrantes (SP), Caminho do Mar (PR) e Ecosul Rodovias do Sul (RS), é o segundo maior grupo de concessionárias de rodovias do Brasil. “A empresa tem de aumentar de tamanho, caso contrário, não terá o apetite necessário para atrair investidores”, acredita Irineu Meireles, vice-presidente executivo da holding. O ideal, diz ele, é que o faturamento suba dos atuais R$ 500 milhões para R$ 1 bilhão, o que deve acontecer até meados de 2005, quando já terão sido realizadas as concorrências para a concessão de estradas federais e estaduais. “Se ganharmos qualquer uma dessas concessões já atingiremos o razoável para nos lançarmos a mercado no próximo ano”, garante Meireles. Os recursos captados serão utilizados para expansão.

Outra empresa que vê chances de atingir suas metas no curto prazo é a indústria de confecção Zoomp, que pretende ter as ações cotadas até o final de 2005. “Estamos nos preparando para lançar ações na Bovespa há cinco anos”, diz o diretor financeiro da grife, Márcio Guimarães. A companhia já tem conselho de administração independente, divulga informações contábeis e está prestes a concluir um programa de renovação de suas práticas de governança corporativa. Ao ser questionado em que nível da bolsa pretende lançar os papéis, Guimarães é incisivo: “No Novo Mercado, caso contrário ficaremos fora de moda”, – o último risco que a grife aceitaria correr.

Com 17 lojas próprias, além de outras 25 franqueadas e mais 600 pontos de venda multimarcas, a Zoomp registrou um faturamento de R$ 143 milhões em 2003. A expectativa é chegar a R$ 200 milhões em 2005 – ano da estréia no pregão. Depois de se lançar no mercado brasileiro, a confecção pretende alçar vôos mais altos e partir para a Bolsa de Nova York. “Mas para isso precisamos ter um tamanho maior, um faturamento de pelo menos R$ 500 milhões”, diz Guimarães.

Lançar ações no exterior também passou a ser o projeto da empresa de software Microsiga, que há alguns anos manifesta a intenção de abrir o capital. “O sucesso alcançado pelas companhias que abriram o capital este semestre está desenferrujando boa parte do mercado”, afirma José Rogério Luiz, vicepresidente da companhia. Segundo ele, a Microsiga espera abrir o capital até 2006, com uma emissão primária de no mínimo R$ 150 milhões. Atualmente, de acordo com Luiz, a empresa teria capacidade de fazer uma emissão de apenas R$ 80 milhões. O objetivo é se capitalizar para investir na expansão da empresa no Brasil e no exterior.

Além das candidatas que já estão trabalhando para chegar à bolsa de valores, existem aquelas que passaram a considerar a hipótese a partir do sucesso do lançamento das ações da Natura, Gol e ALL. De lá para cá, o número de empresas que buscam informações na Bovespa sobre abertura de capital mais que triplicou, segundo Maria Helena, superintendente da instituição. “Além disso, os executivos estão bem mais receptivos às nossas palestras e apresentações”, afirma. “Meses atrás, muitos deles nem nos recebiam.”

PRESTES A SAIR DO FORNO – Enquanto algumas empresas ainda pesquisam e outras se organizam para lançar seus papéis no mercado só a partir do ano que vem, várias companhias já estão na porta de entrada da Bovespa. Uma delas é a Grendene, dona de marcas consagradas como Melissa e Rider. Segundo fontes do mercado, a operação já está sendo estruturada e coordenada pelo banco Pactual. Fundada em 1971, na cidade de Farroupilha, Rio Grande do Sul, a companhia emprega hoje mais de 20 mil funcionários e está sendo avaliada em aproximadamente US$ 1 bilhão. Especula-se que a intenção da Grendene é lançar US$ 300 milhões em ações.

O bom desempenho das ofertas públicas realizadas este ano serviu para aquecer o mercado de ações

Em breve, o mercado acionário também terá à disposição os papéis da rede de laboratórios Delboni Auriemo, a maior da América Latina. Um dos objetivos da operação seria possibilitar a saída de um dos sócios da empresa, o banco Patrimônio, que entrou no negócio por meio de um fundo de private equity e adquiriu 49% do capital votante da companhia em 1999. O Delboni tem uma geração de caixa de R$ 100 milhões, o que poderia levá-lo a um valor de mercado na casa dos R$ 800 milhões.

Outra companhia que deve fazer parte da bolsa ainda este ano é a varejista Magazine Luiza. A empresa estaria interessada em captar entre R$ 150 milhões e R$ 200 milhões em uma emissão primária. Ou seja, todo o recurso obtido iria para o caixa da companhia e não para os controladores. Em junho a rede deu um passo importante, adquirindo os 51 pontos das Lojas Arno, do Rio Grande do Sul. O negócio altera o ranking do setor em faturamento anual. A empresa fica praticamente empatada com as lojas Colombo, atualmente em terceiro lugar. A primeira colocada é a Casas Bahia, seguida do Ponto Frio. Com a aquisição da Arno, o Magazine Luiza pretende fechar o ano com um faturamento de R$ 1,5 bilhão.

Na opinião de Giovanni Fiorentino, sócio da consultoria Bain&Company, a rede varejista é a que soube se defender melhor da agressividade das Casas Bahia. “A empresa está se aproveitando da demanda causada pela publicidade da concorrente em cidades do interior, onde tem presença forte”, explica Fiorentino. Ele acredita que a abertura de capital vai beneficiar não só a expansão da rede, mas também a transparência de todo o setor.

Outros nomes, como CPFL Energia, Nossa Caixa, Banco Santos, EDP Brasil e CTBC Telecom também estão sendo aguardados no pregão. “Tudo indica que, se o País não tiver grandes surpresas no cenário macroeconômico, o caminho para a bolsa será natural e não terá mais volta”, diz Bier, sócio da PwC. Bom para as empresas, que passam a ter uma opção de captação de recursos mais em conta. Melhor para os investidores, que ganham novas e promissoras opções de investimento em ações.




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