O que elas ainda fazem lá?

Vantagens na tomada de empréstimos e possibilidades de captações futuras levam empresas com baixíssima liquidez a sustentar suas ações em pregão

Edição 12 / Reportagem / 1 de agosto de 2004
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ed12_p016-019_pag_3_img_001Elas estão no pregão, contribuindo para engrossar o número de empresas listadas na Bovespa. Mas de nada servem para incrementar o volume financeiro. São ações pouco líquidas, de empresas que têm praticamente 100% do capital em poder dos principais acionistas e, a despeito de tal concentração, sobreviveram à onda de fechamentos de capital que varreu o mercado no fim da década de 90.

Não se fala aqui daquelas empresas que já sumiram do mapa, estão em concordata ou liquidação. Ao contrário, elas estão bem posicionadas em seus setores de atuação, entregam relatórios e informações financeiras religiosamente em dia e pagam todas as taxas para manter o capital aberto e suas ações listadas. Quanto aos benefícios mais usuais de ser uma companhia aberta, contudo, nada de relevante na prática. Devido à baixíssima liquidez de suas ações, elas não têm uma valorização que as favoreça em eventuais fusões ou aquisições e, muitos menos, que incentive alguma tentativa de captação de recursos. Uma relação custo-benefício curiosa, para não dizer sem sentido aparente. Por que, afinal, companhias com menos de 5% do seu capital social em circulação continuariam bancando esses custos?

Quem estiver interessado em investigar esse tema encontrará não só uma, mas múltiplas respostas. Algumas empresas enxergam benefícios intangíveis em manter suas ações listadas e o capital aberto. Elas encontram no mercado uma forma de garantir um padrão bem aceito de transparência e governança e de manter visibilidade diante da mídia. Outras percebem vantagens concretas e preferem manter a porta aberta para voltar a captar no futuro. Há também aquelas que não fecham o capital porque carecem de uma visão estratégica e de convicção sobre o caminho a seguir.

Um exemplo de companhia que tem baixíssimo percentual de ações no mercado, mas não cogita retirá-las da bolsa e nem fechar o capital, é a Kepler Weber, fabricante de silos para armazenagem, transportadoras e tanques, dentre outros itens. Controlada desde 1996 pelos fundos de pensão Aerus, Previ, Serpro e também pelo Banco do Brasil (BB), a Kepler tem apenas 1,25% das suas ações pulverizadas.

A última vez que a Kepler veio a mercado foi em 1999, quando emitiu debêntures. Em 1996, tinha emitido ações. O diretor-presidente da companhia, Othon D´Eça Cals de Abreu, não descarta a possibilidade de captar no futuro, se investimentos para aumentar a produção forem necessários. No entanto, ele considera que sai mais barato financiar a atividade produtiva via empréstimos tomados nos bancos porque sua política prevê o pagamento de elevados dividendos aos acionistas. A nova unidade da Kepler, que deve ser inaugurada em novembro, por exemplo, foi financiada com recursos próprios, do BNDES e do BB.

No caso da Kepler Weber, manter o capital aberto é também praticamente uma imposição legal. De acordo com a resolução 3.121 do Conselho Monetário Nacional, os fundos de pensão só podem investir em ativos que foram objeto de distribuições públicas registradas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o que requer que sejam companhias abertas. Ou seja, para fechar o capital, só se tivesse outros controladores.

A Fundição Tupy tem situação semelhante. Apenas 2,1% do capital da companhia está no mercado e, como conseqüência, os papéis trocam pouco de mãos. Os fundos de pensão Previ, Telos, Aerus, Ceres, além do BNDESPar e do Bradesco, detêm o controle da empresa desde 1995. A baixa liquidez das ações reflete o fato de os fundos reterem os papéis em carteira no longo prazo, afirma o diretor-presidente da companhia, Luiz Tarquínio Sardinha Ferro. Ele está direcionando os esforços para reduzir o endividamento da Tupy e considera que, após as finanças terem sido equacionadas, ela poderá algum dia voltar a captar.

Aparentemente, essas companhias não estão preocupadas com o custo de manter o capital aberto. Por dois motivos: elas encontram contrapartidas que justificam esses custos e, também, porque eles não são assim tão significativos para as empresas de grande porte. Contar com recursos dos fundos de pensão e fundos de private equity é uma dessas contrapartidas. Além do mais, diz Tarquínio, qualquer grande empresa tem a necessidade de produzir informações contábeis e gerenciais. Ou seja, o esforço extra de manter o capital aberto se resume basicamente ao desembolso financeiro. A análise de D´Eça, da Kepler Weber, vai na mesma direção: a companhia de qualquer forma tem de manter um controle adequado para si própria.

Transparência e confiabilidade são os motivos apontados por José Mario Ferreira, vice-presidente de gestão e finanças da Método Engenharia, para a manutenção do capital aberto e listagem em bolsa. Ele considera o custo alto, mas avalia que compensa. Para a Método, que começa a atuar em outros países, ter o capital aberto confere maior credibilidade e facilita a obtenção de empréstimos bancários. A empresa, que segundo a Economática tem apenas 1,1% de free float (parcela do capital em circulação), abriu o capital nos anos 80, mas, no início da década de 90, decidiu fechar porque não vinha captando. Em 1998, quando o fundo Brazilian Equity, de private equity, tornou-se sócio da Método, suas ações voltaram ao pregão. O fundo queria realizar o investimento por meio do mercado de capitais. Desde então, a experiência de captação da companhia foi uma emissão de debêntures, no valor de R$ 48 milhões, absorvida por um único investidor.

Já a Melpaper, do grupo Melhoramentos, é um exemplo de empresa que não descarta a possibilidade de recorrer ao mercado e, por isso, mantém as ações listadas e o capital aberto. Atualmente, apenas cerca de 4% das ações estão em circulação. Quando a companhia abriu o capital e se listou na Bolsa, em 1994, o papel era mais pulverizado, mas os controladores recompraram parte do que estava sendo negociado no mercado. Para o diretor Eduardo Macedo, somente a realização de emissão de ações compensa o custo de manter o capital aberto. Se for só para emitir debêntures, afirma, sai caro e não vale a pena.

A VIA-CRÚCIS DO FECHAMENTO – Existe ainda um grupo de empresas que têm papéis em circulação, mas baixo free float, porque não conseguiram fechar o capital. Outras, nem tentam. Sabem que os minoritários não iriam aderir. Ou então não têm recursos para comprar os papéis.

Fechar o capital não é nada simples, até mesmo para quem tem menos de 5% das ações em circulação. Independentemente do percentual que estiver no mercado, a companhia não escapa de fazer uma oferta pública. Neste processo, deve conseguir uma adesão de pelo menos dois terços dos minoritários. Se sobrar menos que 5% do capital social em circulação, aí sim ela pode partir para o resgate dos papéis, pagando por eles o valor estipulado em laudo de avaliação preparado por uma instituição independente. Supondo que esses acionistas não sejam identificáveis, a companhia deposita os recursos em uma instituição financeira e cancela a ação, explica a advogada Renata de Lins Schesinger, do escritório de advocacia Lobo & Ibeas. Dependendo dos títulos já emitidos, a conta acaba saindo ainda mais salgada. Para fechar o capital, as empresas também têm de resgatar todas as debêntures emitidas.

E por que elas simplesmente não retiram suas ações da bolsa, reduzindo com isso ao menos um dos custos? Embora o simples fato de “deslistar” o papel não implique o fechamento de capital, as empresas costumam associar as duas coisas. Ou seja, se retiram as ações do pregão, é para pedir o cancelamento de registro de companhia aberta, afirma Reginaldo Pereira de Oliveira, gerente de registros da Comissão de Valores Mobiliários. Retirar pura e simplesmente os papéis do ambiente de negociação é uma prática prejudicial aos minoritários.

VANTAGEM PARA PEDIR EMPRÉSTIMOS – Outras companhias com presença tímida nos pregões não estão interessadas em transparência e nem pretendem vir a captar recursos no mercado. Na realidade, elas estão preocupadas em facilitar o acesso a recursos de organismos como o BNDES e o BID. Ter o capital aberto e ações listadas é algo que marca pontos a favor na hora de obter um financiamento junto a essas instituições.

Também chama a atenção o número de empresas de economia mista – especialmente os bancos – cujas ações têm baixíssimo free float. Casan, Banpará, Banestes, Banrisul, Celg e Banco do Estado do Ceará são algumas empresas que têm menos de 5% fora das mãos dos quatro principais acionistas, de acordo com levantamento da Economática que mostra a participação de até quatro dos acionistas mais importantes no total de ações preferenciais e ordinárias. Muitas estatais passaram a ter suas ações listadas porque seriam privatizadas e, para isso, a legislação exigiu que os papéis estivessem em um ambiente de negociação organizado. Outras entraram no pregão logo após a sua fundação, e, por lei, têm de permanecer lá, mesmo que não captem recursos. Para as estatais, explica o advogado José Eugenio Muller Filho, também do Lobo & Ibeas, fechar o capital ainda é mais complicado porque requer um passo anterior à oferta pública: a aprovação por parte do poder legislativo.

Quais são as chances de essas empresas voltarem ao mercado para captar ou mesmo de terem papéis mais negociados e o capital pulverizado? Com a elevação dos padrões de governança corporativa, elas provavelmente teriam de fazer uma série de ajustes em suas práticas de gestão e transparência. Para fazer jus aos recursos que ainda encontram porto seguro e tranqüilo na renda fixa. Por isso, mesmo para as empresas que têm papéis com baixa liquidez e baixa pulverização, o presidente da regional São Paulo da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais, Milton Milioni, recomenda que elas mantenham políticas de divulgação eficientes e permaneçam no radar dos analistas. Ele acredita que, sem uma boa visibilidade e uma política coerente de relacionamento com o mercado, novas captações estariam certamente comprometidas.


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