Papel dos conselhos na agenda ESG

Participação do board é imprescindível para avanços em sustentabilidade

B3 / 12 de novembro de 2017
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Há dez anos, o debate mais presente entre especialistas em sustentabilidade era a necessidade do engajamento e do envolvimento dos CEOs nessa agenda. Hoje a discussão está no nível dos conselhos de administração, cujo protagonismo é fundamental para que fatores ESG (environmental, social and governance) sejam encarados nas empresas em conjunto com fatores econômicos.

No Brasil, as questões de governança saíram na frente da agenda socioambiental, movimento motivado em grande parte pela inovação da Bolsa ao criar, em 2000, os segmentos especiais de listagem — de que o Novo Mercado representa o patamar máximo — e pela atuação do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Sustentabilidade prevê uma mudança de abordagem, e isso não se faz sem uma governança forte, estruturada, inovadora.

No âmbito dos conselhos há, primordialmente, um papel provocador nessa agenda. Uma pergunta feita por um conselheiro pode fazer toda a diferença no presente e no futuro da companhia. Quando o CEO e seus executivos debatem com o conselho o planejamento estratégico, é imperativo que seja questionado o quanto os riscos socioambientais foram considerados.

Se minha empresa não tem impacto ambiental direto, isso não é para nós? Será? Se a agenda socioambiental está nos debates do Fórum Econômico de Davos; se no último relatório de riscos publicado pelo Fórum — o “Global Risks Report” — as mudanças climáticas são classificadas como uma das três principais tendências para o desenvolvimento global nos próximos dez anos; se as questões sociais e ambientais representam três dos cinco principais riscos em probabilidade e quatro dos cinco maiores riscos em impacto… Não é mesmo para sua empresa? É imprescindível que conselhos de administração compreendam a relevância desse quadro e que sejam ativos na indução e na promoção da agenda.

Contudo, há também o lado da oportunidade. Cada vez mais o capital é alocado considerando-se a gestão das companhias nos fatores ESG. Os investidores institucionais, por dever fiduciário, lideram o movimento e cobram das empresas investidas se são capazes de concretizar objetivos de negócio incluindo esses aspectos.

Um exemplo é o movimento mundial de investidores chamado Portfolio Decarbonization Coalition (PDC), que visa sensibilizar investidores institucionais quanto aos riscos das mudanças climáticas. Ele controla 3 trilhões de dólares em ativos e se compromete a descarbonizar 600 bilhões de dólares; propõe, ainda, que investidores mensurem a pegada de carbono de suas carteiras e retirem recursos das empresas mais intensivas em carbono, privilegiando as que atuam com energias renováveis ou que tenham baixa emissão de gases de efeito estufa.

Também ilustra bem o impacto da agenda ESG nos negócios a indústria de seguros, que teve que se reinventar para responder a eventos inéditos. Em 2005, o furacão Katrina evidenciou a percepção da urgência do trato dessas questões. Por isso, em 2012, na Rio+20, foram lançados os PSI (Princípios para a Sustentabilidade em Seguros), hoje com 55 signatários (sendo 11 brasileiros) e cerca de 14 trilhões de dólares em ativos. Catástrofes climáticas resultaram em perdas financeiras estimadas em 1,9 bilhão de dólares entre 1995 e 2015, segundo o relatório “The Human Cost of Weather Related Disasters”, do Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Catástrofes (UNISDR).

As bolsas, como coração do mercado de capitais, têm um papel fundamental em todo esse movimento. A B3 sabe de sua responsabilidade e tem historicamente se dedicado a praticar a agenda e a fomentar essa discussão. Em 2004, foi a primeira bolsa do mundo a aderir ao Pacto Global da ONU. Em 2010, foi a primeira bolsa de mercados emergentes a se tornar signatária do PRI (Princípios para o Investimento Responsável), também da ONU. Em 2012, durante a Rio+20, tornou-se signatária fundadora o SSE (Sustainable Stock Exchanges), das Nações Unidas. No mesmo ano, foi indicada junto com a Bolsa de Johanesburgo como referência mundial em sustentabilidade pelo Relatório “Bolsas de Valores Sustentáveis – Relatório de Progresso”, produzido por PRI, Pacto Global, UNCTAD e Aviva Investors.

A B3 tem uma responsabilidade ainda maior por ser uma companhia que também tem a função de estimular as melhores práticas entre as empresas listadas. Tem uma política de sustentabilidade, aprovada pelo conselho de administração, cujo objetivo é formalizar e orientar diretrizes de atuação no tema. A política é estruturada em quatro pilares — mercado, ambiental, social e governança corporativa.

Outra parte desse trabalho se reflete nos índices criados, como Índice de Ações com Governança Corporativa Diferenciada (IGC), Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), Índice de Ações com Tag Along Diferenciado (Itag), Índice Carbono Eficiente (ICO2), Índice de Governança Corporativa Trade (IGCT) e Índice de Governança Corporativa – Novo Mercado (IGC-NM).

Caminhamos para um mundo que considerará as variáveis sociais, ambientais e de governança como parte dos seus riscos e oportunidades, assim como já ocorre na agenda econômica. E esse mundo não se desenvolverá plena e rapidamente sem o envolvimento da mais alta liderança das companhias, os conselhos de administração.


*Sonia Favaretto é diretora de Imprensa, Sustentabilidade, Comunicação e Investimento Social da B3


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Tags:  Governança conselho de administração sustentabilidade mercado de capitais board fatores ESG B3 Sonia Favaretto Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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