Vocação para ser craque

Eliseu Martins

Contabilidade e Auditoria/Legislação e Regulamentação/Retrato/Temas/Edição 67 / 1 de março de 2009
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Todo contador conhece o “Manual de Contabilidade das Sociedades por Ações”, uma espécie de bíblia da profissão. O que poucos sabem é que algumas de suas 650 páginas foram datilografadas diante da TV, entre um jogo e outro da Copa do Mundo de 1978. Enquanto a seleção do técnico Cláudio Coutinho voltava da Argentina com o título de “campeã moral”, o torcedor apaixonado Eliseu Martins marcava mais um gol de placa, traduzindo os conceitos da contabilidade americana adotados pela nova Lei das S.As. O livro, uma parceria com os também professores Ernesto Gelbcke e Sérgio de Iudicibus, marcaria o início de uma carreira pontuada por vitórias suadas, como a adoção da correção monetária integral no balanço das empresas, na época da hiperinflação, e a atual convergência para as normas internacionais de contabilidade.

Conciliar as duas paixões — futebol e contabilidade — nunca foi problema para esse “corintiano roxo”. Extremamente concentrado nos estudos, desde os tempos do Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, Martins demonstrava pendores variados na adolescência, até deparar-se — e encantar-se — por acaso com as ciências contábeis. O professor se diverte contando a história, típica dos jovens de hoje e improvável para alguém que se tornaria uma das maiores autoridades da contabilidade brasileira. Martins é respeitado a ponto de merecer um apelo do próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, para que aceitasse uma diretoria na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que ocupará até dezembro.

Depois de ver o sonho juvenil da carreira de aviador podado pela preocupação da mãe, o jovem Eliseu resolveu sair do interior de Minas Gerais para estudar em São Paulo. Diante de um vago resultado no teste vocacional, optou por fazer o concurso para o Banco do Brasil e garantir precocemente a independência financeira. Mas havia um cinema no caminho. No trajeto para a sessão, o colega de colégio pediu que passassem antes na rua Doutor Vila Nova, onde faria a inscrição para o vestibular em economia. Ali, diante do funcionário da universidade, Martins precisou explicar que apenas acompanhava o amigo, reforçando que seu plano era trabalhar no Banco do Brasil. Mas acabou convencido a aproveitar o ensejo, a caminhada para o cinema, e fazer também a sua inscrição. Tudo assim, por acaso, recorda-se Martins, entre risos.

Ele acabou passando em ambas as provas — no concurso e no vestibular. Naquela época, a faculdade de economia começava com um curso básico que, mais adiante, dava ao aluno a chance de escolher entre aquela cadeira e outras quatro — dentre as quais se incluía a de ciências contábeis. “Achei aquilo tão bom, tão gostoso, tão simples, que acabei optando por seguir ciências contábeis no ano seguinte”, relata Martins. A carreira acadêmica decolaria sem que percebesse: foi chamado para monitor, depois assistente do professor, e o Banco do Brasil acabou abandonado de vez na época da pós-graduação, seguida do doutoramento.

A facilidade com uma disciplina considerada árdua para muita gente poderia ter feito do professor um grande especialista, e só isso. Não foi o que aconteceu, como mostra a trajetória marcada por vitórias profissionais que se traduziram em avanços para a contabilidade brasileira. “Nunca seja só um técnico”, aconselhou Martins, no último 25 de janeiro, para mais uma turma de formandos que o havia escolhido como patrono. “É preciso aprender a se relacionar, entender e respeitar o ser humano, perceber a importância de um processo de convencimento”, explica o professor, agora na entrevista concedida à CAPITAL ABERTO no auditório da CVM. “Talvez a minha carreira pendular, trabalhando ora para a universidade, ora para empresas e governo, tenha me ajudado a perceber isso.”

Ali, naquele mesmo auditório, Martins pôde ser visto exercitando a sua habilidade muito além da técnica em diferentes fases do mercado de capitais. Nos primeiros anos da CVM, a batalha era para explicar as alterações trazidas pela nova Lei das S.As.. As novidades eram objeto de um livro que ele escrevia a pedido do então presidente da autarquia, Roberto Teixeira da Costa. Já diretor da CVM, entre 1985 e 1988, o professor encontrou outra bandeira: restaurar a capacidade informativa da contabilidade, corroída pela inflação galopante. Nos últimos dez anos, abraçou a causa da adoção das normas contábeis internacionais, dedicando-se a convencer diferentes plateias. “O futebol brasileiro seria considerado o melhor do mundo se usasse regras diferentes?”, indagava ao auditório.

A maratona para a adoção das normas internacionais não termina em 2009, com o fim do processo de implantação, lembra Martins, dividido hoje entre o trabalho no Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), a CVM e as aulas na universidade. “Norma implantada não quer dizer norma cumprida”, ressalta. O professor lamenta a agenda apertada e admite que resistiu à convocação da CVM. “Como já vivi experiências parecidas, achava que era a hora de dar lugar aos mais novos.” Os jovens talentos da contabilidade agradecem, mas preferem reverenciar o ídolo: aos 63 anos, Eliseu Martins ainda bate um bolão e é o craque da seleção.

Rotina – Fica dois dias da semana no Rio, por causa da CVM, dois dias em São Paulo e depois segue para Espírito Santo do Pinhal (SP), onde voltou a morar para ter mais qualidade de vida. “Mas agora tenho trabalhado nos fins de semana, minha mulher fica bronqueada.”
Conselho para quem está começando – Acreditar em si próprio e não ser apenas um técnico.
Um orgulho – A família. “É unidíssima, é meu bem maior.”
Cuidado com a saúde – Está sempre atento e se alimenta bem. “Como já tive câncer de próstata e tenho diabetes tipo 2, preciso me cuidar sempre.”
Hobby – Cuidar da plantação de mudas nativas no sítio onde mora, com 30 alqueires.
Paixão – O Corinthians e a Gaviões da Fiel. Assiste ao desfiles das escolas de samba de São Paulo todos os anos. “Pedi para minha mulher comprar ontem a camisa do Ronaldo para os netinhos, que também são corintianos.”
Relação com tecnologia – Tem um computador em cada lugar e anda com uma memória de 250 GB no bolso. “Não sei como consegui escrever teses e livros sem computador.”
Um arrependimento – Ter trabalhado muito quando os filhos eram pequenos. “Hoje tento compensar com os netos.”
Livro de cabeceira – Acabou de ler The black swan, do ensaísta libanês radicado nos Estados Unidos Nassim Taleb.
Para relaxar – Ouve música erudita, especialmente Beethoven, e toda quinta-feira assiste aos concertos da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). “Quer estragar meu humor? É só me arrumar um compromisso na quinta à noite.”
Talento que gostaria de ter – Tocar piano “pra valer”. “Meu pai mandou a minha irmã mais velha me ensinar, e eu odiei. Ela se casou, levou o piano e na época festejei. Mas quando já estava na faculdade, tive vontade de estudar novamente e fui atrás do piano, que ela tinha vendido para uma amiga. A amiga não quis vender, aí eu casei com ela.” O instrumento está na casa de um dos dois filhos do casal, ambos contadores como o pai.
Uma admiração – Sérgio de Iudicibus, que o convidou para ser seu assistente na faculdade. “Pelos ensinamentos e oportunidades que me deu.”
Fontes de informação – Assina em casa Folha de S. Paulo e Valor Econômico. Na internet, acessa os sites do International Accounting Standards Board (Iasb) e do Financial Accounting Standards Board (Fasb).
Momento de vitória – A implementação das normas contábeis internacionais no País. “Outro marco recente foi a Medida Provisória 449, que segregou a contabilidade para a informação com fins tributários.”
O que o tira do sério – Quando lê algo mal redigido: “Recebi hoje uma reclamação de acionista que tive vontade de colocar no lixo, só por causa dos erros de português.”
Daqui a dez anos – “Poderemos lutar pela melhoria da qualidade das normas internacionais. Venho incentivando as novas gerações a sermos ativos nessa fase, após a convergência.”
Dez anos atrás – Estava entregando ao ministro da Fazenda, Pedro Malan, o projeto da reforma contábil da Lei das S.As., que ficaria parado no Congresso até dezembro de 2007. “Depois foi aquela correria para a implantação.”
Transparência é… – “o cimento com que se constrói a economia e se desenvolve a sociedade. Ela é essencial para melhorar a nossa qualidade de vida.”



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Tags:  Legislação societária e regulamentação Contabilidade e Auditoria Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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