Um tour pelas ruínas europeias

Impressões de um turista acidental sobre as causas e os efeitos da crise financeira na Europa

Bimestral / Governança Corporativa / Temas / Prateleira / Edição 100 / 1 de dezembro de 2011
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Após nos entreter com Big Short, lançamento de 2010 em que explicou com seu tradicional humor cáustico a chamada crise do subprime dos Estados Unidos, o jornalista e escritor norte–americano Michael Lewis se questionou sobre o que havia ocorrido no resto do mundo. É simples entender como vários indivíduos não resistiram à tentação do crédito fácil para comprar a casa própria, alimentando um esquema de pirâmide que desmoronou a economia da maior potência do globo. Mas o que fizeram alguns países para se tornarem focos de incêndio financeiro na Europa? E como se comportou a Alemanha, diante do que se passava à sua volta? A curiosidade conduziu Lewis a Boomerang, livro que faz um tour pelas ruínas do desastre econômico europeu, revelando situações tão díspares entre si quanto as paisagens das nações do Velho Continente.

A investigação se inicia na Islândia, que, com apenas 300 mil habitantes e historicamente sustentada pela atividade pes–queira, foi berço de nada menos que cinco bancos de investimento no período de crédito abundante (entre 2002 e 2007). Atraindo depósitos que remuneravam com taxas de juros superiores à média europeia, os banqueiros da ilha financiaram os novos superempresários islandeses, que embarcaram em ondas de fusões, aquisições e investimentos desenfreados. O resultado foi a necessidade do governo de estatizar essas instituições financeiras para garantir as aplicações da população, chegando a uma relação dívida/PIB de estratosféricos 800%.

As histórias de Grécia e Irlanda não são menos dramáticas. No país mediterrâneo que toma conta das manchetes internacionais nos últimos meses, temos o paradoxo formado por um Estado inchado, aposentadoria aos 55 anos, uma sociedade que pratica a evasão fiscal ativamente e um sistema de arrecadação de impostos ineficiente. Na Irlanda, a origem dos problemas, assim como na Islândia, está nos bancos. Nesse caso, contudo, os recursos foram canalizados para os grandes empresários do ramo imobiliário. Em um território com 3 milhões de pessoas, muitos se perguntavam quem compraria tantas residências em construção. “Os irlandeses querem uma casa de campo”, era a resposta típica. A consequência foi mais um processo de estatização.

Sociedades inteiras sucumbiram à tentação de crédito farto e agora deverão pagar por seus pecados durante algum tempo. Desde a época dos romanos, a Europa sonhava com um modelo de união que limitasse a probabilidade de novos conflitos. No entanto, enquanto a ameaça do passado eram os bárbaros, a praga do século 21 foi o “creditus facilus et baratus”, um vírus invisível e intoxicante. Com Roma novamente em chamas e sem comando, nos perguntamos onde isso vai parar.

De volta aos Estados Unidos, Lewis encontra–se com o ex–governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger para entender como andam as finanças estaduais, aprofundando–se, em seguida, nos municípios. Depois de conversas com prefeitos e líderes regionais, o autor levanta um quadro perturbador de cortes nos orçamentos da educação, saúde e segurança. Com algumas cidades pedindo falência (em 10 de novembro, a prefeitura de Jefferson, no Alabama, declarou a maior quebra municipal da história dos Estados Unidos), fica no ar uma sensação de que o pior ainda está por vir.


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