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Mau estado dos mercados desenvolvidos convence fundos de private equity de que zona de conforto, no longo prazo, só mesmo nos emergentes

Gestão de Recursos/Temas/Reportagem especial/Edição 106 / 1 de junho de 2012
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Os sotaques das mais de 800 pessoas que circularam no espaço de convenções do hotel Ritz-Carlton, em Washington (DC), entre 15 e 16 de maio, eram prova viva das origens dos presentes na Global Private Equity Conference, coorganizada pela International Finance Corporation (IFC) e pela Emerging Markets Private Equity Association (Empea). Em sua 14ª edição, a conferência reuniu participantes da indústria de private equity e venture capital oriundos da África, das três Américas, da Ásia, da Europa e até da Oceania, algo imaginável para um evento apoiado pelo Banco Mundial — a IFC é o braço da organização multilateral ocupado com investimentos no setor privado. Mas o clima de confraternização universal era só uma aparência de que a festa não tinha donos. Eles, na verdade, estavam ali, distribuindo sorrisos: eram asiáticos, latinos, africanos. Em 1998, num primeiro encontro realizado no subsolo da IFC, a poucos metros dali, a tônica das discussões eram os riscos dos investimentos de private equity em economias em desenvolvimento — dinâmica essa que se repetiu por muito tempo. Dessa vez, num mundo que especula sobre a expulsão da Grécia de uma zona do euro em frangalhos, o foco das atenções está nas vulnerabilidades dos desenvolvidos.

Não que crises como a do subprime norte-americano ou a soberana europeia sejam comemoradas pela parte até então considerada a mais atrasada do planeta. Contudo, elas trazem certa tranquilidade e orgulho para os gestores de private equity de zonas mais tropicais, que nem se preocuparam em disfarçar o contentamento com a situação. Luiz Viana, sócio e presidente da gestora brasileira TMG Capital, resumiu bem a subversão de alguns velhos clichês de mercado: “O mundo descobriu que economias maduras também oferecem perigos; e que rentabilidade mais baixa não significa, necessariamente, risco menor”.

Falas e fatos mostram que o declínio das potências tradicionais está ajudando a colocar os emergentes em evidência. Segundo um levantamento da Empea divulgado em abril, com 109 investidores globais detentores de um patrimônio de US$ 400 bilhões, 75% deles planejam aumentar sua exposição a mercados emergentes, enquanto somente 26% disseram o mesmo em relação aos países desenvolvidos. O quadro é explicado pelo potencial de ganho: 72% dos investidores contam com um retorno de no mínimo 16% em seus fundos dirigidos a economias em desenvolvimento — parcela essa que se reduz para 26% no grupo dos focados no primeiro mundo.

FUTUROS EMERGENTES — Talvez a África seja o maior exemplo dessa tendência, conforme mostra a experiência da IFC. Como instituição de fomento, ela tem a missão de aportar recursos nos lugares onde eles são mais escassos. Desde 2007, passam da metade os fundos da IFC alocados nos países mais pobres da International Development Association (IDA), divisão do Banco Mundial que fornece empréstimos sem juros (ou a baixo custo) para projetos com impacto social em regiões do Haiti ou da Etiópia, por exemplo. A boa notícia é que esse viés social também trouxe retornos de caixa consistentes. Nos últimos dez anos, o continente africano tem sido responsável pelo melhor desempenho da carteira de fundos da IFC, com rendimento anual médio de 25%, comparados aos 18% da média do portfólio geral. “O retorno dos fundos de participações da IFC em países de baixa renda é um caso convincente de investimento”, observa Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, em discurso na conferência. “Ao longo dos últimos cinco anos, países em desenvolvimento proveram dois terços do crescimento global”, acrescenta Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial.

Em meio ao debate sobre os impactos dos tremores e temores da zona do euro nos mercados em desenvolvimento, Henry Obi, sócio e chefe de operações da Helios Investment Partners, gestora de private equity focada na África, faz sua provocação: “É irônico observar que, enquanto o mundo vai ficando mais arriscado, a África vai se tornando mais estável”. Em 2011, a Helios arrecadou US$ 900 milhões para investimentos no continente. Os investidores foram seduzidos por uma história que quase nunca falha: a ascensão de renda de uma classe média de 300 milhões de cidadãos. “São pessoas com demanda por bens básicos, como automóveis e televisores”, diz Obi. Ele inclui o crescimento expressivo do PIB de alguns desses países como atrativo. “Em rankings de facilidade de fazer negócios e corrupção, várias nações africanas ficam à frente de Brasil, Índia e Rússia, por exemplo”, ressalta, tentando desfazer a imagem frequentemente associada às empresas do continente.

Embora seja parte totalmente interessada em vender seu produto, Obi não é o único a pensar assim sobre sua região. No início de maio, em um seminário do BNDES no Rio de Janeiro, o CEO e principal acionista do BTG Pactual, André Esteves, anunciou os planos do banco de captar cerca de US$ 1 bilhão para um fundo de investimento em private equity dirigido à África. Segundo reportagem do jornal —, os recursos virão de brasileiros e do banco, e os alvos das aquisições estão em áreas como infraestrutura, energia e agricultura.

Além do magnetismo africano, o projeto do BTG Pactual reforça também o crescente fluxo de investimentos entre mercados do hemisfério sul, um sinal claro dos novos tempos. Grandes fundos do Oriente Médio olham cada vez mais para fora de sua vizinhança e se consolidam como provedores de recursos para mercados emergentes — vide o investimento de US$ 2 bilhões da Mubadala Development Company, de Abu Dabi, no Grupo EBX, de Eike Batista, concluído em abril. Outro caso é o da SinoLatin Capital, consultoria financeira e gestora de private equity sediada em Xangai, que investe em empresas latino-americanas com relações diretas com a China, como exportadoras de commodities. “A interdependência entre esses mercados só cresce”, avalia Mustafa Abdel-Wadood, CEO da Abraaj Capital, gestora que carrega o título de detentora do maior fundo de private equity focado exclusivamente em mercados emergentes, com mais de US$ 6 bilhões de ativos sob gestão.

O otimismo com os emergentes, claro, deriva de uma perspectiva de longo prazo, porque o momento atual certamente inspira cuidados. O desaquecimento econômico verificado nos Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) contém parte da euforia, e a instabililidade europeia traz pessimismo sobre a economia global e atrapalha as captações e as aquisições, além de aumentar a volatilidade do câmbio. Nas economias que apresentam expansão, o aumento de renda e de consumo intensifica os riscos inflacionários. Fora isso tudo, existem as vulnerabilidades internas, que ainda são consideráveis. “Não podemos nos esquecer que os ‘emergentes’ não são chamados assim por acaso. Eles têm seus próprios desafios para vencer”, pondera Abdel-Wadood.

CONTRATEMPOS INTERNOS — Ao falar do Brasil, Antonio Bonchristiano, copresidente da GP Investments, elencou alguns dos nossos riscos latentes, como a política cambial (“muda muito”) e a via-crúcis para a obtenção de licenças ambientais (“há muita incerteza causada por regras conflitantes”). “Nunca compre uma companhia que tem o governo como grande cliente ou fornecedor”, aconselha a seus pares. A escassez de mão de obra qualificada e os sistemas de gestão de algumas empresas familiares também são “dolorosos”, de acordo com o fundador da GP. Já outros preferiram assinalar as boas notícias: “Apesar de o PIB ter crescido pouco em 2011 no País, nossos shopping centers registraram crescimento de vendas superior a 10%”, enfatiza Tim Formuziewich, sócio-diretor da Brookfield Brazil Capital Partners, subsidiária brasileira da gestora canadense Brookfield Asset Management.

Mesmo diante dos percalços, os gestores gostam da linha da crítica construtiva. A Índia, que já foi a queridinha dos investidores de private equity depois do boom experimentado pela China, tem decepcionado parte do mercado por não ter entregado os retornos tão propalados. A baixa que se abateu sobre as bolsas indianas fechou uma válvula de escape bastante utilizada pelos fundos que investem em empresas indianas. Para piorar, em um estrategema para combater a evasão fiscal, o governo tem ameaçado taxar os ganhos de capital de fundos de private equity em 20%, mesmo os daqueles baseados em jurisdições com as quais a Índia mantém acordos de isenção.

A falta de clareza sobre como essa medida se daria repercutiu mal entre os investidores internacionais, habituados a injetar recursos no país por meio de fundos offshore. Em maio, o Ministério de Finanças acenou com a possibilidade de reduzir a parcela para 10% e adiar a nova política fiscal para 2013. “O governo demonstrou estar atento a nossos feedbacks”, elogia Jonathon Bond, sócio da Actis, gestora com US$ 4,6 bilhões aplicados em mercados emergentes, entre eles, a Índia. Para Bond, esse é um sinal de que o país está disposto a manter o terreno propício para investimentos. E os fundamentos da economia indiana continuam de pé: mão de obra gigantesca que fala inglês, déficit em infraestrutura e vocação para o empreendedorismo, notadamente na área de tecnologia.

“É irônico observar que, enquanto o mundo vai ficando mais arriscado, a África se torna mais estável”

INVERNO ÁRABE — Passado mais de um ano da chamada “primavera árabe”, o movimento revolucionário que derrubou regimes autoritários de países como Tunísia, Egito e Líbia, os investidores titubeiam ao destinar seus recursos para a região conhecida como Mena (sigla em inglês para Oriente Médio e norte da África). “A percepção está muito negativa. Somos bastante procurados, mas, na hora de assinar o cheque, ninguém quer fazer nada. Por isso estou cada vez mais careca e com os cabelos mais brancos”, graceja Ziad Oueslati, diretor-superintendente e cofundador do grupo AfricInvest-TunInvest. Captar pode estar difícil, mas fazer compras, para quem tem folga no caixa, ficou melhor, com a queda de preços. “Companhias que perseguíamos há anos agora estão se abrindo para discutir”, revela Samir Assaad, chefe de private equity da Abu Dhabi Investment Company (Invest AD), empresa de investimentos do governo de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

Para o futuro, a avaliação é de que as oportunidades vão se ampliar, visto que as bases para a atração de capital, como a população jovem e a carência de serviços e infraestrutura, não foram alteradas e ganharam a companhia de um elemento novo: a democracia em ascensão. “Há um ano e meio, quando falávamos com investidores institucionais, a pergunta era o que aconteceria se Mubarak (Hosni Mubarak, ex-presidente egípcio que permaneceu 20 anos no poder) morresse. Agora, a questão é quem vai ser eleito, algo bem melhor de se responder”, lembra Hisham El-Khazindar, cofundador e diretor-superintendente da Citadel Capital, gestora sediada no Cairo, com patrimônio ao redor de US$ 9,5 bilhões sob gestão.

No discurso dos gestores e investidores, por maiores que sejam os perigos de uma economia global rastejante, é notória a disposição em prosseguir com a migração de capital para fora do eixo EUA-Europa. E na concorrência entre essas praças, o Brasil está longe de perder. Pelo quarto ano seguido, o País aparece como primeiro na pesquisa da Empea com investidores como principal destino de estreantes em mercados emergentes. Isso abre espaço para gestores que, hoje, quase não têm clientes estrangeiros, como a gaúcha CRP. “Só agora os fundos voltados a empresas pequenas e médias estão atraindo a atenção de investidores internacionais”, indica João Marcelo Eboli, sócio da CRP, que procurou costurar contatos durante o congresso. Se os prognósticos estiverem corretos, a hora de cultivar relacionamentos é essa mesmo.

Conteúdo extra

Clique e receba uma cópia da pesquisa da Empea com investidores de private equity.

Clique e acesse o levantamento trimestral da Preqin sobre a indústria.


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