Queda comemorada

Com a redução dos juros, gestores de renda variável preparam-se para receber os recursos que virão da dívida pública para as carteiras mais arrojadas

Gestão de Recursos / Temas / Reportagem / Edição 71 / 1 de julho de 2009
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Young Kim, chefe no Brasil da gestora sul-coreana Mirae, está assistindo ao remake de um filme que lhe traz ótimas recordações. O roteiro, escrito pela autoridade monetária, tem como protagonista a taxa de juros, uma personagem moldada ao sabor das condições econômicas. Há 12 anos, os tigres asiáticos passavam por uma tremenda crise que foi combatida pelo banco central de lá com rigorosos golpes na remuneração dos títulos públicos. Os diferentes papéis da dívida sul-coreana (KTB), que pagavam 35% ao ano, perderam atratividade até chegarem ao patamar de 5%, em 1999. Alguns anos de estabilidade na taxa básica de juros foram suficientes para que a Mirae, gestora criada em 1997 e especializada no mercado acionário, se tornasse a maior do mercado coreano, com cerca de US$ 60 bilhões sob gestão.

De diferente no filme, só o cenário. Agora, a história se passa no Brasil, onde a Mirae começou a operar ano passado. “Há um potencial enorme para a gestão de renda variável”, diz Kim. De acordo com informações da gestora, a média mundial de aplicação no mercado acionário gira em torno de 40% da poupança; no Brasil, a proporção é quatro vezes menor. A situação é fruto do histórico da taxa básica de juros no País, sempre alta. Há exatos dez anos, o título da dívida brasileira remunerava 39,4% em 12 meses. Era como se o investidor nacional tivesse o “direito divino” da alta taxa de retorno, com liquidez e sem risco. Mas a situação mudou. Em junho deste ano, pela primeira vez desde 1996 (quando a Selic passou a ser definida pelo Comitê de Política Monetária, o Copom), a taxa básica de juro anual da economia rompeu a barreira dos dois dígitos, chegando a 9,25%. Quem quiser retornos robustos terá de se arriscar, para alegria das gestoras de fundos de investimento mais arrojados.

É verdade que o Boletim Focus, divulgação do Banco Central das expectativas dos participantes do mercado, projeta a subida da taxa Selic em 2010. Ela terminará 2009 a 8,75% e chegará a dezembro do ano seguinte a 9,25%. Mas esse retorno da curva não muda o cenário otimista projetado pelas gestoras de fundos de investimento em ações (FIAs), de fundos de investimento em participação (FIPs), de fundos multimercados e até mesmo de fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs).

“O Brasil atingiu um novo patamar”, afirma André Lion, gestor de renda variável da BRZ Investimentos, para quem os juros exorbitantes dos títulos públicos ficarão bem guardados no passado. A política econômica implantada desde a criação do Plano Real, em 1994, permite ao País pagar menos para se financiar, sem que a inflação saia do controle. A BRZ projeta um corte até maior do que o aferido pelo Focus, do Banco Central. No fim de 2009, de acordo com a análise da gestora, a Selic estará em 8,25%. Mas o momento mais importante, diz Lion, aconteceu em 2007. Em setembro daquele ano, o Copom definiu os juros em 11,75%, rompendo uma marca significativa. “O investidor que colocasse seu dinheiro em alguma aplicação receberia menos de 1% ao mês de retorno.” Embora a taxa tenha voltado a subir em 2008, rompendo a barreira de 1% ao mês, o investidor passou a olhar para a renda variável com mais carinho.

A partir de 2007, o investidor pessoa física ganhou cada vez mais importância na bolsa. Hoje, é responsável por um terço da liquidez do pregão. Com a estabilização da taxa de juros por anos, os fundos com atuação em bolsa podem experimentar fenômeno parecido. A BRZ, embora admita que o foco continuará sendo o público institucional, espera captar com pessoas fisicas para a forte expansão que projeta. Nos próximos anos, a gestora pretende aumentar o patrimônio administrado dos atuais
R$ 2,7 bilhões para R$ 10 bilhões.

O APELO DOS DIVIDENDOS — A experiência da Mirae no mercado sul-coreano faz da pessoa física um objetivo natural. Cerca de 80% do patrimônio administrado pela gestora no mundo foi captado no varejo. Atingir a mesma proporção no Brasil, sem uma rede de distribuição, será mais complicado. Mas o perfil das carteiras que a Mirae gere costuma atrair esse tipo de investidor. “Conquistamos muitos clientes no mercado coreano com fundos que aplicavam em boas pagadoras de dividendos”, lembra Kim. A tática será replicada no mercado brasileiro.

Fundos de dividendos atraem investidores iniciantes na renda variável por serem menos arriscados que outras carteiras, já que contam com um colchão de segurança contra as variações negativas. Uma possível desvalorização dos papéis pode ser amenizada pela distribuição dos lucros das boas pagadoras. Essa lógica também é usada por especialistas em FIDCs para apostar no aumento da captação dessas carteiras. Mesmo não sendo um típico produto de renda variável, seu prêmio sempre é definido pelo DI mais um adicional. Apenas uma pequena parcela das cotas, as subordinadas, possui retorno variável. “Poucos investimentos deram retorno acima do DI durante a crise. O FIDC foi um deles”, conta Carlos Lopes, sócio da consultoria financeira Uqbar.

Construídos sobre direitos creditórios securitizados, os FIDCs apresentam dois grandes gargalos para seu desenvolvimento no Brasil. Primeiro, a percentagem ainda pequena do crédito em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), que ficou em 43% em maio, de acordo com o Banco Central. Em países mais desenvolvidos, o índice ultrapassa facilmente os 100%; nos Estados Unidos, a relação chega a 180%. O outro ponto é mais difícil de ser combatido: o desconhecimento por parte do empresariado. Poucos fazem uso da cessão de direitos creditórios como forma de se capitalizar. “E as empresas que fazem costumam confundir o FIDC com uma operação pontual, como a debênture”, conta Pedro Lérias, gestor de carteiras da Verax Serviços Financeiros. Ao contrário dos títulos de dívida, a securitização pode ser encarada como uma via de captação contínua para a empresa.

RISCO SIM, MAS PARA QUEM ESTÁ PREPARADO — Composto basicamente de institucionais, o perfil do investidor de FIDC dificilmente mudará nos próximos anos, mesmo com a queda dos juros. A Instrução 356, que regulamentou essa família de fundos, restringe a distribuição de cotas a investidores qualificados. Ainda que a exigência caia, uma mudança na regulamentação não traria resultado imediato. A complexidade da estrutura acaba por mantê-la distante do público de varejo. O mesmo se pode dizer do FIP, a carteira que investe em participações de longo prazo em empresas abertas e fechadas. O cotista compromete o capital no início da carteira e passa anos com os recursos aplicados. Poucos investidores de varejo têm essa “paciência”.

Ter cotistas pouco tolerantes a risco e despreparados para a liquidez reduzida também não é uma boa para as gestoras. A Neo Investimentos, que conta com um FIP em seu portfólio, sabe bem disso. No segundo semestre do ano passado, viu seu patrimônio cair pela metade — de R$ 1,1 bilhão, no início de 2008, para R$ 520 milhões, no decorrer do ano. “Mostrávamos ao cotista que não era o momento de sair, mas pouco adiantava”, lembra Henrique Alvares, coordenador da gestora. O movimento afetou, sobretudo, as carteiras multimercados, que costumam aplicar uma parcela em renda fixa e outra em bolsa. E são justamente elas as mais cotadas para crescer nos tempos que virão, com juros reduzidos.

“Será o grande teste para o suitability”, pontua Lion, da BRZ. O termo é usado para caracterizar o esforço das casas de investimento em adequar o produto ofertado à tolerância a risco do investidor. Uma das causas para os resgates sofridos pela indústria durante a crise foi justamente a inadequação do perfil do cotista. O investidor não estava preparado para assistir ao valor da cota acompanhando a queda da bolsa. O suitability, destacado por Lion, provavelmente contribuiria para evitar saques tão fortes em épocas de perdas.

Em julho, a indústria de fundos brasileira dá um passo importante para implantar o suitability: todos os administradores atestarão à Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), autorreguladora da indústria de fundos, que seus distribuidores possuem metodologia capaz de adequar os investimentos ao perfil de risco do investidor. A exigência foi feita em agosto de 2008 e, de lá para cá, os distribuidores incumbiram-se de desenvolver o método.

Coremec recomenda suitability

Na última semana de junho, o Comitê de Regulação e Fiscalização dos Mercados Financeiro, de Capitais, de Seguros, de Previdência e Capitalização (Coremec) recomendou a todas as entidades sob a sua alçada a adoção de normas com o objetivo de adequar os riscos do investimento ao perfil do investidor. Compõem o Coremec o Banco Central do Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Superintendência de Seguros Privados (Susep) e a Secretaria de Previdência Complementar (SPC). Não foi definido prazo para a implantação de regras.

Para Otávio Yazbek, diretor da CVM, a crise deixou evidente a necessidade de se adequarem os riscos do investimento ao perfil do investidor. “Os agentes desses mercados, assim como o investidor, também ficarão mais protegidos.” Ao identificar o perfil de risco do cliente, gestoras, seguradoras, fundos de pensão e intermediários serão obrigados a conhecer mais sobre os seus produtos.

Sob a responsabilidade da CVM ficará a oferta de investimentos feita por bancos, corretoras e distribuidores. Pelo fato de a autorregulação, comandada pela Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), estar avançada, a intenção da autarquia é publicar uma norma mais genérica. A CVM dará à associação apenas três diretrizes: regras concretas, aplicação e fiscalização eficazes, e prestação de contas à autarquia.

Espécie de órgão consultivo, o Coremec decidiu estender o suitability a vários mercados por recomendação da CVM. Em abril de 2007, a autarquia havia posto em audiência pública uma minuta com o intuito de determinar parâmetros e deveres de avaliação no mercado de capitais. A conclusão foi que uma regra como essa precisaria existir em vários ambientes regulados ao mesmo tempo. “Se houver suitability apenas em um mercado, basta lançar produtos em outros lugares para driblar a regra”, diz Yazbek.

O estudo que serviu de base para a decisão do Coremec, feito pelo Comitê de Supervisão Bancária da Basileia, dividiu as instituições em cinco categorias (gestoras de recursos, bancos, consultorias, seguradoras e corretoras); e os investimentos, em 21 tipos. (M.L.)


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