Por que os analistas de investimento ainda raramente recomendam venda, apesar das reiteradas críticas a essa postura?

Captação de recursos / Temas / Reportagem / Edição 73 / 1 de setembro de 2009
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Um seguidor fiel dos relatórios de analistas das áreas de pesquisa das corretoras, conhecidos como “sell side”, pode ter a impressão de que quase nunca é hora de se desfazer de suas ações. Levantamento feito pelo professor de finanças Ricardo Rochman, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EESP), mostra que, de 1.951 relatórios emitidos sobre ações de empresas brasileiras, entre janeiro de 2007 e junho de 2009, 54% apresentaram recomendação de compra, 37% de manutenção, e apenas 9% de venda.

O ambiente de estresse econômico favorece esse cenário, segundo Luciana Leocadio, chefe da área de análise da Ativa Corretora. “Tivemos uma grande depressão dos preços, e, portanto, várias ações receberam recomendação de compra”, explica. “Com a Bolsa se aproximando do valor considerado justo, é natural recomendarmos mais venda ou manutenção.” Mas essa lógica é posta em xeque pelo universo de relatórios pesquisados pelo professor. No período de junho de 2007 a junho de 2008, quando o Ibovespa atingiu suas máximas históricas, e o Brasil ganhou o selo de grau de investimento, 59% das análises recomendaram compra e 6,6%, venda. Com o agravamento da crise, até junho de 2009, em vez de a parcela de compra aumentar, caiu para 47,3%, enquanto o percentual de venda subiu para 12,2%.

Fato é que, dependendo do prestígio do analista, uma recomendação de venda pode causar estragos no valor de uma companhia. Por isso o profissional precisa se cercar de bons argumentos e ter uma certa dose de sangue-frio. Clodoir Vieira, economista-chefe da corretora Souza Barros, pondera que, muitas vezes, é difícil obter informações suficientes para fundamentar uma venda. “Prefiro retirar a recomendação para que o investidor tome sua própria decisão”, reconhece. Nesses casos, para o cliente que for bom entendedor, a ausência da palavra pode bastar.

O conflito de interesses vivido por analistas que atuam muito próximos às áreas de banco de investimento é outro motivo, segundo Rochman, para tantas recomendações positivas. Essas instituições fazem assessoria para empresas em processos de emissões de dívida, abertura de capital e fusões e aquisições. E as mesmas companhias, que pagam por esses serviços, são acompanhadas pelos analistas da instituição.

Criar uma barreira ética entre o departamento de research e o de underwriting — conhecida como “chinese wall” —, e assim garantir a independência dos analistas, foi uma das formas encontradas pelo mercado para mitigar esse conflito. No entanto, não há como garantir que esse procedimento seja respeitado. “Os bancos têm interesse em fazer negócios com companhias de capital aberto e, para conseguir isso, podem vedar coberturas desfavoráveis feitas por seus analistas”, afirma o professor. Essa questão será tratada com mais rigor quando a CVM publicar a sucessora da Instrução 388, que hoje rege a profissão dos analistas. “Teremos procedimentos mais detalhados sobre a estrutura de remuneração dos analistas para garantir que a sua imparcialidade não seja afetada”, conta Lucy Souza, presidente da Apimec Nacional.

Marcelo Brisac, estrategista da corretora do Itaú Unibanco, acredita que o próprio parâmetro utilizado para as recomendações pode gerar distorções. Ele cita, por exemplo, as corretoras que utilizam o Ibovespa como referência. “Os principais componentes desse índice são a Petrobras, a Vale e os bancos. Então, basta a companhia analisada bater o desempenho de três ou quatro empresas para receber uma recomendação de compra”, afirma. Mas o estrategista reconhece: “O que não pode acontecer é todas as companhias merecerem compra”.

As recomendações de venda acabam sobrando para as companhias em situações claramente insustentáveis. Ou ficam subentendidas, quando o buraco não é tão fundo assim. “Há um código no mercado em que a manutenção nada mais é do que uma forma polida de sugerir venda”, lembra Rochman. O jeito é manter os dois olhos bem abertos sobre as recomendações dos analistas. E se conformar com a ideia de que o trabalho desses profissionais não é feito para atender a investidores ingênuos.


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