O descolamento já era

Crise internacional põe abaixo as pretensões de blindagem dos Brics, mas Brasil e Índia tendem a ser os países menos afetados



 

Em agosto de 2007, quando os problemas decorrentes do fim da bolha imobiliária norte-americana começaram a dar seus primeiros sinais, muitos especialistas defendiam que os efeitos globais da crise do crédito subprime seriam mínimos. Em grande parte, os defensores da tese depositavam suas esperanças na capacidade dos países emergentes, em especial os Brics — sigla para designar Brasil, Rússia, Índia e China —, de tocar o barco em um eventual padecimento do Tio Sam. Por um ano, enquanto não se descobria a profundidade do buraco, o mundo seguiu andando sem grandes solavancos. Em setembro, com o anúncio da quebra do Lehman Brothers — um dos maiores bancos de investimento norte-americanos — por seu envolvimento com créditos podres, a crise mostrou que a força do monstro seria capaz de nocautear muita gente.

A partir daí, o que se viu foi um pânico generalizado nos mercados globais. Entre os Brics, não foi diferente. O Índice Bovespa (Ibovespa), que em 15 de maio fechava a 71.492 pontos, amargou 36.833 pontos em 15 de outubro — uma perda de mais de 48%. Nos 30 dias que se seguiram ao 15 de setembro, data do anúncio da quebra do Lehman Brothers, a oscilação foi de quase 24 pontos percentuais negativos. O Sensex, principal índice da bolsa indiana de Mumbai, desvalorizou-se mais de 37% entre 15 de maio e 15 de outubro, despencando de 17.353 pontos para 10.809 pontos. O índice da bolsa de Xangai, o SSE Composite, fechou o pregão de 15 de outubro a 1.994 pontos, 45% a menos que os 3.637 pontos de 15 de maio. O tombo russo foi o mais dolorido: o índice RTS perdeu 71,2% no período, de 2.478 pontos para 713 pontos.

A pergunta que fica é: depois que o pânico — e toda a volatilidade e irracionalidade a ele associados — diminuir nos mercados internacionais, quais serão os efeitos da crise em cada um dos Brics? Quem será mais afetado?

Exportação de serviços de TI não deverá diminuir na Índia, garantindo faturamento de US$ 87 bilhões ao país

Na opinião dos especialistas consultados pela CAPITAL ABERTO, Índia e Brasil serão os que menos acusarão o golpe. Cada um, a seu modo, possui particularidades que foram bastante úteis nos momentos de tempestade. Ambos beneficiaram-se do fato de não serem extremamente dependentes do bolso dos consumidores de outros países. As exportações respondem por 12% e 13% dos PIBs de Brasil e Índia, respectivamente. “Apesar de os Estados Unidos continuarem sendo o principal destino de produtos brasileiros — 14,1% de nossas exportações desembarcam por lá —, a pauta de exportações brasileira diversificou-se bastante nos últimos anos”, diz Jayme Alves, analista de investimentos da Spinelli Corretora.

Do lado indiano, uma vantagem competitiva salta aos olhos do mundo: boa parte do que o país vende para o mercado externo (35%) refere-se a serviços de tecnologia da informação (TI), setor em que tem poucos concorrentes e cuja demanda não deverá minguar, mesmo com a crise. No começo da década de 90, a indústria de software da Índia valia cerca de US$ 150 milhões. Dez anos depois, representava US$ 5,7 bilhões. Levantamento feito pela McKinsey prevê, para este ano, faturamento de US$ 87 bilhões para empresas de TI indianas — o que deverá representar mais de 7% do crescimento do país em 2008.

O Brasil, por sua vez, pode se amparar nos bons fundamentos de suas companhias, no volume de reservas internacionais e no balanço de pagamentos atual, muito menos dependente de fluxos de recursos externos que no passado. A posse de um setor financeiro forte, não contaminado diretamente pelos créditos subprime, também conta a favor do País. “Os grandes bancos brasileiros passaram por ajustes e reestruturações que lhe conferiram uma estrutura sólida”, afirma Alves.

GIGANTE FERIDO — Para o representante dos Brics no extremo Oriente, as previsões não são tão otimistas. Há alguns anos, a China estava habituada a alcançar crescimentos de dois dígitos já no mês de setembro. Neste ano, contudo, a história foi diferente. Em outubro, o país anunciou que havia engordado seu PIB em “apenas” 9,9% nos primeiros nove meses de 2008 — 2,3 pontos percentuais a menos que no mesmo período do ano anterior. Uma taxa de crescimento como essa faria qualquer líder político do mundo sorrir de orelha a orelha, mas o fato preocupa o Partido Socialista Chinês. O crescimento acelerado é uma necessidade na China, onde, a cada ano, as zonas urbanas incham com mais de 20 milhões de pessoas, vindas do campo em busca de oportunidades. Para evitar um desequilíbrio social, o governo chinês almeja crescimentos anuais de, no mínimo, 8%.

Ante incertezas levantadas a respeito da saúde da quarta maior economia do mundo, o governo tentou mostrar que o cenário não era tão feio assim. “Apesar da turbulência econômico-financeira mundial, a economia chinesa está em uma situação muito boa. As estruturas se mantêm sólidas”, declarou Li Xiaochao, porta-voz do governo. As medidas tomadas por Pequim, contudo, demonstram que a China não está tão despreocupada assim. Visando a manter a economia aquecida, o governo anunciou descontos nas taxas de exportação para alguns setores industriais, além do aumento do crédito para pequenas e médias empresas.

Especialistas concordam que o impacto da crise na China não será pequeno, principalmente no quesito exportações — responsáveis por mais de 37% do PIB do país. É bem verdade que, até setembro, o valor total de exportações chinesas foi 22,3% maior que o do mesmo período de 2007, atingindo US$ 1,07 trilhão. Mas o crescimento foi 4,8% menor que no período entre setembro de 2006 e setembro de 2007.

Estudo divulgado pelo banco Standard Chartered estima que o PIB chinês irá crescer 8,2% este ano — contra 11,9% em 2007 —, e o grande responsável por essa redução será a recessão nos Estados Unidos, destino de 19,1% das exportações do país. Alguns sintomas já puderam ser sentidos no começo de outubro, quando duas fábricas de brinquedos fecharam suas portas. Em declaração à imprensa, representantes das companhias creditaram a falência à grande dependência de suas atividades relativamente ao mercado norte-americano.

O que é dúvida para uns soa como oportunidade para outros. A idéia de uma brecada nas exportações não chega a ser um ponto totalmente negativo, pois pode trazer um aquecimento no setor de serviços. Nos primeiros nove meses deste ano, o consumo interno na China observou um incremento de 22%, 6 pontos percentuais a mais que o mesmo período de 2007. “A grande pergunta que fica é se a demanda doméstica será capaz de segurar o ritmo de crescimento que eles querem”, questiona Maurício Molan, economista-chefe do Santander. Sua dúvida baseia-se na premissa de que o gigante asiático, a despeito de seu crescimento estonteante, ainda não tem bala na agulha para se tornar um grande centro consumidor — como os Estados Unidos e alguns países da Europa. “Estados Unidos e Europa respondem praticamente por metade do PIB mundial. Será que o mercado consumidor chinês conseguirá dar conta do que americanos e europeus deixarem de comprar?”, questiona.

DEPENDENTE DO PETRÓLEO — As nuvens mais sombrias parecem pender para os lados da Rússia, e a razão para isso tudo pode ser resumida em uma palavra: petróleo. A queda no preço das commodities, em especial do “ouro negro”, promete causar feridas profundas na economia russa, extremamente dependente de sua exportação — petróleo e gás representam 65% da pauta de vendas externas do país. Produtora de mais de 10 milhões de barris diários, a Rússia deverá ter uma queda em sua produção já neste ano, em torno de meio ponto percentual, segundo projeção da International Energy Agency, feita em setembro.

Uma das críticas feitas ao modelo russo de crescimento é a de que, beneficiado pela escalada do preço do petróleo nos últimos anos, o país não foi capaz de aproveitar o boom do petróleo para incrementar a atividade da indústria local. As importações crescem em escala geométrica, enquanto a produção de manufaturados não segue o mesmo ritmo. Em 2007, a compra de produtos do exterior foi quase 40% maior que no ano anterior, ao passo que a produção interna cresceu apenas 5%. “Além disso, o mercado de capitais russo é muito fechado e pouco transparente, o que traz muitos problemas de confiança quanto à real situação da economia”, opina Jankiel Santos, economista-chefe do Banco Espírito Santo (BES).

A questão da transparência talvez seja a que mais atormenta investidores internacionais. O universo corporativo russo — visto como um reflexo do regime político autoritário que reluta a sumir do país — carece de um fluxo maior de informações. “Os trabalhos de auditoria feitos por grandes firmas internacionais nas empresas russas não são divulgados publicamente, o que deixa alguns investidores com a pulga atrás da orelha”, conta Antonio Carlos Rosset, presidente da Câmara de Comércio Brasil-Rússia.

A despeito de todas as previsões pessimistas para os lados do Kremlin, Rosset acredita que a tormenta não deverá tirar a Rússia do caminho do crescimento. “O país estagnou-se durante todo o período do regime socialista e se abriu há pouco tempo. Portanto, ainda há grandes oportunidades por lá”, opina. Para o longo prazo, Rosset aposta na qualidade da mão-de-obra russa. “A taxa de analfabetismo (0,05%) é a menor dos Brics, e isso fará diferença nos próximos anos”, aposta.


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