Nova renda fixa?

Juro baixo pode tornar os dividendos o novo objeto de desejo dos investidores dos EUA. No Brasil, mesmo com a Selic caindo, a história é diferente

Gestão de Recursos / Temas / Reportagem / Edição 106 / 1 de junho de 2012
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Com o juro baixíssimo nos Estados Unidos, vai-se o tempo em que era possível ter bons retornos e proteger o patrimônio da inflação com pouco risco. Ao mesmo tempo, avizinha-se uma era de pessoas mais velhas, com o desejo de ter rendimentos fixos e que lhes deem pouco trabalho. Com esse cenário à frente, a Blackrock, maior gestora de recursos do mundo, pontificou em estudo publicado em março: os dividendos são a solução. Em Means, Ends and Dividends — Dividend Investing in a New World of Lower Yields and Longer Lives, a asset coloca a distribuição de lucro das companhias como a nova renda fixa. Os dados da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram 738 milhões de aposentados em todo o mundo. As projeções para 2050 indicam que eles podem ser 2 bilhões. Enquanto isso, no Japão, na Inglaterra e nos Estados Unidos, o retorno dos títulos públicos de dez anos é superado pelo retorno médio dos dividendos das principais ações.

Por essas e outras, a gestora está sempre interessada nas empresas que distribuem dividendos frequentemente — como a Coca-Cola, por exemplo. A fabricante de refrigerantes reparte seus lucros a cada três meses. Em 2002, eles eram de US$ 0,20 por ação; em 2012, atingem US$ 0,51 por papel, fazendo brilhar os olhos dos caçadores de dividendos. “É importante que os proventos aumentem com o tempo e sejam constantes, diz Nick Nefouse, especialista da divisão de ações da BlackRock. Tais características afastam o fantasma da inflação corroendo os investimentos: enquanto a inflação acumulada norte-americana foi de 28% na década 2002-2012, o valor bruto dos dividendos da Coca-Cola cresceu 155%. Quem comprou uma ação da empresa a US$ 34,02 em 5 de março de 2009, valor mais baixo depois da crise de 2008, e a manteve na carteira até 22 de maio, quando fechou a US$ 74,19, recebeu, além da valorização de 118% do papel, US$ 5,79 em dividendos (17% do preço da ação no momento da compra). No mesmo período, a inflação foi de aproximadamente 7%.

Não à toa, a BM&FBovespa está engajada em fazer com que as empresas brasileiras paguem seus proventos de forma não apenas constante como frequente. A própria Bolsa estuda a possibilidade de distribuir lucros mês a mês a partir de 2013, e não mais trimestralmente, para dar o exemplo. O diretor-presidente Edemir Pinto aposta que a diminuição da periodicidade ou o aumento da parcela podem atrair os órfãos da Selic alta (ver artigo na página 19).

Os investidores norte-americanos, famintos por retornos mais robustos, vão aos poucos aplicando em fundos voltados para dividendos. Na IShare, braço de negociação de exchange traded funds (ETFs) da BlackRock, os recursos aplicados nesse tipo de investimento subiram para 26% do total administrado pela gestora no último trimestre de 2011. Um ano antes, representavam apenas 6%.

No Brasil, os 63 fundos de ações de dividendos acompanhados pela Associação Brasileira das Entidades do Mercado Financeiro e de Capitais (Anbima) acumulavam, em abril de 2012, um patrimônio líquido (PL) de R$ 4,684 bilhões. Essa modalidade representa 3,35% dos 1.882 fundos que operam apenas com ações e foi a que obteve o maior crescimento de PL em 12 meses (33,8%) dentre os 12 tipos de fundos de ação. Apesar de o aumento ser um bom sinal, esses fundos ainda estão bem atrás dos campeões em expansão do patrimônio líquido — os 274 fundos de “renda fixa índice”, que cresceram 58,61% e alcançaram um patrimônio de R$ 101,9 bilhões. Não é para menos. Enquanto os fundos de dividendos tiveram rentabilidade média de 16,02% nos últimos 12 meses, os “renda fixa índice” alcançaram 20,67% (os referenciados DI, de menor risco, renderam 11,57%). Essa valorização pode ser explicada pela farta presença de letras do tesouro do tipo NTN-B, que pagam uma taxa prefixada mais a variação do IPCA. Esses títulos que protegem da inflação e têm rendimento garantido tendem a se valorizar com a perspectiva de queda dos juros.

EXPANSÃO LIMITADA — Apesar do crescimento dos últimos tempos, os fundos de dividendos ainda são magros por aqui e, talvez, continuem sendo menos nutridos do que os fundos de ações livres ou os de renda fixa. Uma das explicações para isso pode estar na maneira como o Brasil é visto pelos investidores. “Somos um país emergente, e isso significa que o foco é investir em crescimento, e não em dividendos”, comenta Ricardo Almeida, professor de finanças do Insper. O relato dos investidores ouvidos pela reportagem confirma a percepção de Almeida. “Em algumas empresas, o dividendo não significa nada diante do potencial de valorização”, afirma Otávio Vieira, da Fides Asset Management, para quem a distribuição de lucro é uma parte do processo de decisão, mas está longe de ser o foco.

As pessoas físicas brasileiras, elas sim, tendem a ter mais interesse na segurança da renda fixa das ações do que os gestores profissionais — esses, afinal, são pagos para garimpar as minas e achar as pedras preciosas, e não para se acomodar no retorno líquido e certo dos proventos. Os investidores individuais, porém, podem levar alguns anos para se apegar aos dividendos. Só depois de digerir o novo cenário macroeconômico de inflação sob controle, Selic em baixa e poupança rendendo menos, os brasileiros devem começar a migrar para outros ativos. Conforme o professor de finanças da FGV Ricardo Rochmann, a cultura do investimento individual em boas distribuidoras de lucros — nos moldes da emblemática velhinha que representa o investidor norte-americano no imaginário popular — deve se consolidar apenas na nova geração. Contribui para a aversão a risco, em sua opinião, o mau desempenho dos IPOs de 2007: “Muitos investidores começaram a participar da bolsa nessa época. Depois disso veio a crise e vários ficaram traumatizados”, observa.

Um obstáculo para os dividendos se tornarem o novo DI brasileiro é a inconstância das empresas ao distribuí-los aos acionistas

Além do receio, Rochmann acredita que outro obstáculo para os dividendos virarem o novo DI é a inconstância das empresas ao entregá-los. Ele cita o exemplo da norte-americana International Paper para evidenciar a diferença de tratamento. A companhia paga dividendos trimestrais com precisão de um relojoeiro inglês: sempre em fevereiro, maio, agosto e novembro; sempre no valor de US$ 0,25, desde 1995. A situação só mudou entre maio de 2009 e fevereiro de 2011, período em que, por causa da crise, os dividendos caíram, passando a valores entre US$ 0,025 e US$ 0,188. Em maio de 2011, tudo voltou ao normal, mas, em vez de pagar os US$ 0,25 tradicionais, a companhia paga atualmente US$ 0,26, com o intuito de devolver aos acionistas o que deixou de ser entregue. Quem comprou a ação da companhia em 6 de março de 2009, quando ela fechou a US$ 3,80, está satisfeito. Hoje, esse investidor tem retorno de US$ 1,04 ao ano em dividendos, e as ações estão cotadas por volta de US$ 30. “No Brasil, não se pode contar com a mesma estabilidade”, avalia o professor.

Uma análise das empresas com maior participação no IDIV, o índice de dividendos da Bolsa, feita pela Economática, ilustra bem esse ponto. É raro uma companhia ter um valor fixo de dividendos ou juros sobre o capital próprio (uma figura de distribuição de lucros que oferece à empresa condições fiscais mais favoráveis). No Banco do Brasil, por exemplo, a distribuição de juros e dividendos é bastante variável, com relação tanto à periodicidade quanto ao valor. Em 2011, foram feitas cinco entregas de dividendos e quatro de juros, todas em valores diferentes, mesmo considerando os impostos pagos pelo investidor sobre os juros. Os proventos da Vale variam de R$ 0,32 por ação a R$ 1,07 desde 2007. Até a BM&FBovespa costumava variar o valor dos dividendos pagos por ação — desde agosto do ano passado, porém, eles estão fixados em cerca de R$ 0,12 por papel aos acionistas.

Apesar da constância das norte-americanas, a suspensão da distribuição de lucros em tempos de crise não é incomum naquele país. Segundo dados da Standard & Poors, 14 empresas do S&P 500 tomaram essa atitude e 62 diminuíram o valor dos dividendos entre 2008 e 2009. “Os investidores punem as empresas nessas situações”, ressalta Nefouse, da BlackRock. Um bom exemplo é a petroleira BP, que não pagou o dividendo trimestral de US$ 0,84 em novembro de 2010 e depois reduziu o provento pela metade do valor usual em fevereiro de 2011. A companhia britânica tomou essa decisão quando estava enredada nos prejuízos financeiros e ambientais de um gigantesco vazamento de petróleo no Golfo do México, na costa dos Estados Unidos. É difícil mensurar quanto da queda no valor das ações da BP tem a ver com os danos a sua imagem e qual parcela é culpa dos dividendos. Mas, para Nefouse, a distribuição de lucros mais mirrada teve uma boa contribuição para afastar investidores. Os papéis, que valiam por volta de US$ 60 antes do desastre, custavam menos de US$ 40 em 24 de maio.

Quanto aos investidores brasileiros, agora finalmente deparados com uma era de juros mais normais, é provável que eles também comecem a gostar cada vez mais de dividendos. Mas aos poucos. Tudo dependerá da postura dos gestores profissionais, da disponibilidade das pessoas físicas para encarar riscos, e do interesse das companhias em ser mais previsíveis e fiéis nesse quesito. A experiência norte-americana, contudo, não deixa de ser uma fonte de inspiração para o futuro. Quem sabe um dia, com um mercado de ações mais disseminado, a nova renda fixa deles também será a nossa.

Conteúdo extra

Clique e veja a pesquisa da BlackRock sobre o papel dos dividendos em tempos de juro baixo e população em envelhecimento.



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Tags:  EUA Renda fixa Selic Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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