Nervos de aço

Ações da Gerdau sofrem com demora da recuperação dos EUA e alta de matérias-primas

Bimestral/Relações com Investidores/Temas/Edição 88 / 1 de dezembro de 2010
Por 


Maior produtora de aços longos das Américas e uma das maiores do mundo no segmento, a Gerdau vem enfrentando um duro teste de resistência. Após fecharem 2009 com valorização de 95,86%, ante 82,66% do Ibovespa, as ações da companhia registravam recuo de 25,9% em 2010, até o dia 17 de novembro.

A performance das ações em 2009, na verdade, já não espelhava a realidade operacional da siderúrgica, que encerrou o período amargando quedas de 36,77% na receita líquida e de quase 80% no lucro líquido. Era, muito mais, fruto de uma aposta na capacidade de recuperação da companhia, baseada no bom desempenho da economia brasileira e, sobretudo, na perspectiva de retomada da atividade econômica nos Estados Unidos, mercado ao qual a Gerdau tem forte exposição. No fim do ano, nove dentre dez analistas carimbavam as ações da Gerdau com recomendação de compra.

Em 2010, depois de um começo de ano instável, elas retribuíram a confiança dos investidores, pelo menos até meados de abril, quando acumulavam valorização próxima a 10%. A partir de maio, tudo mudou. A constatação de que o céu permaneceria nublado na economia americana, a alta dos preços das matérias-primas e o acirramento da competição no mercado doméstico impactaram os resultados da companhia, invertendo o sinal de seus papéis.

“A empresa vai bem no plano interno, em função do bom desempenho da construção civil e do setor de infraestrutura, mas sofre no mercado externo, especialmente nos Estados Unidos, onde a recuperação pós-crise não se deu de forma tão intensa e veloz quanto nos países emergentes”, avalia o analista de investimentos Marco Saravalle, da corretora Coinvalores.

Seu colega Pedro Galdi, da SLW corretora, acrescenta que parte dessas dificuldades deve-se ao fato de que, na indústria americana, o aço longo é utilizado principalmente no setor de infraestrutura, que permanece estagnado. “Por isso, a receita líquida da Gerdau nos Estados Unidos, que corresponde a aproximadamente 40% do total, caiu muito. O que era vantagem virou uma pedra no sapato.”

Os resultados de 2010 mostram que a Gerdau ainda não conseguiu se livrar dessa pedra. No relatório do terceiro trimestre, a companhia registrou aumento de vendas e faturamento ante os meses de julho a setembro de 2009, mas com contração de margens. A receita líquida consolidada cresceu 20% na comparação com igual período do ano anterior, somando R$ 8,1 bilhões. De acordo com a Gerdau, esse desempenho refletiu, principalmente, a evolução de 14% nas vendas físicas consolidadas, que atingiram 4,4 milhões de toneladas, impulsionadas pela operação de aços especiais e pelo mercado interno. Porém, os custos impuseram uma redução de 8% na geração de caixa operacional
(Ebitda), que alcançou R$ 1,265 bilhão de julho a setembro. O lucro líquido terminou em R$ 609 milhões, 7% inferior ao verificado no mesmo período de 2009.

As pressões sobre as margens resultam basicamente de dois fatores: elevação dos preços das matérias-primas, em particular do minério de ferro; e aumento das importações de aços longos, que obrigou a siderúrgica a conceder descontos em seus produtos. “Neste último caso, trata-se de uma situação atípica, que a empresa está enfrentando de forma correta, visando a preservar seu market share e sua liderança a longo prazo”, avalia o analista Rafael Weber, da corretora Geração Futuro.

Para atenuar o peso das matérias-primas sobre os custos, o analista também julga acertada a estratégia da Gerdau de reforçar seus ativos de mineração. A companhia está investindo cerca de US$ 300 milhões na ampliação da produção de minério de ferro para 7 milhões de toneladas, de modo a assegurar, até 2012, autossuficiência à usina integrada de Ouro Branco, em Minas Gerais. “É uma defesa inteligente, baseada na verticalização e na diversificação, pois essa unidade produzirá chapas grossas que poderão ser usadas no desenvolvimento do petróleo do pré-sal, por exemplo”, diz Weber.

Os analistas acreditam que a recuperação da Gerdau deverá ter início ainda em 2011, a partir do segundo semestre. E, dessa vez, as chances de a profecia se cumprir são bem maiores do que há um ano. A companhia tende a se beneficiar não apenas das altas taxas de crescimento econômico, mas também das obras de infraestrutura para a Copa do Mundo, em 2014, e a Olimpíada, em 2016, que devem acelerar a demanda por aço de perfis variados.

Já no mercado americano — onde reforçou a presença este ano ao integralizar o capital da Gerdau Ameristeel e ampliar sua rede de usinas com a aquisição da Tamco —, projeta-se um aumento do consumo de aços longos a partir da retomada dos investimentos no setor de infraestrutura. O aquecimento é assegurado pelos altos fornos do Federal Reserve, que anunciou em novembro a decisão de injetar US$ 600 bilhões na economia americana nos próximos oito meses.

Pelas perspectivas favoráveis ainda não precificadas, analistas consideram que as ações da Gerdau podem significar uma boa oportunidade para os investidores mais voltados para o médio e o longo prazos. “Tudo leva a crer que o papel da companhia vai ‘andar’ bem em 2011, antecipando a recuperação de 2012”, prevê Galdi.




Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie


Tags:  Recuperação de Companhias Mineração e siderurgia Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Uma lei e um regulador para o mercado
Próxima matéria
Clima agitado



Comentários

Escreva o seu comentário sobre este texto!

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Recomendado para você





Leia também
Uma lei e um regulador para o mercado
Duas leis sancionadas pelo então presidente Ernesto Geisel e seu ministro da Fazenda, Mario Henrique Simonsen, em dezembro...
{"cart_token":"","hash":"","cart_data":""}