Momento de recuperação

Depois de um ano terrível para as captações, gestores vêem boas perspectivas para o retorno dos investidores

Gestão de Recursos/Especial/Reportagem/Especial Private Equity 2010/Temas / 1 de Maio de 2010
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Num debate sobre como “marquetear” fundos no ambiente pós-crise, durante a 12ª Conferência Global de Private Equity — promovida pela Emerging Markets Private Equity Association (Empea) e a International Finance Corporation (IFC), nos dias 11 e 12 de maio — Loren Boston, diretor-superintendente da C.P. Eaton Partners, deu seu testemunho. Todos os anos, pouco antes do Natal, o executivo envia uma carta para centenas de pessoas compilando tudo o que leu nos últimos 12 meses, a respeito dos mais variados assuntos. Se, por acaso, contasse o que aconteceu em sua área de atuação em 2009, Boston não teria coisas muito boas para dizer. A C.P. Eaton é o que se pode chamar de “placement agent”. Sua missão é convencer investidores institucionais a depositar elevadas somas de seu patrimônio — no mínimo US$ 50 milhões — em fundos de investimento alternativos que a contratam. O ano passado, quando Boston ainda atuava na área de fundos de private equity do Merrill Lynch, foi árduo para os participantes do setor. Um total de 196 fundos de private equity focados em mercados emergentes captou US$ 22,6 bilhões, uma queda de 66% em relação aos números recordes de 2008, quando 210 veículos sugaram US$ 66,5 bilhões, de acordo com levantamento da Empea. A retração foi em linha com os resultados obtidos pelos fundos dirigidos a mercados desenvolvidos.

Mesmo depois desse baque, a entrada de recursos em fundos de private equity ocorre de forma mais lenta do que o esperado. Uma pesquisa da consultoria norte-americana Preqin indica que fundos de private equity espalhados pelo globo que encerram captações no primeiro trimestre de 2010 arregimentaram US$ 50 bilhões nesse período. Isso representa somente um ligeiro aumento em comparação aos US$ 48 bilhões do primeiro trimestre de 2009. “Vai demorar até que os gestores voltem a captar em níveis próximos ao do passado recente”, resignou-se Graham Thomas, chefe do segmento de private equity do banco sul-africano Standard, ao falar da dura realidade.

CISNES NEGROS — Apesar de tudo, a crise teve um lado bom. É inegável que o caos financeiro serviu para lustrar a vitrine desse tipo de investimento em economias emergentes. No livro A Lógica do Cisne Negro, Nassim Taleb, professor do Instituto Politécnico da Universidade de Nova York e o primeiro palestrante do evento da Empea e da IFC, discute a impossibilidade de se preverem situações que fogem à normalidade. Após a crise, os emergentes podem ser considerados os cisnes negros da vez. A noção de que eles são mais arriscados que os países do centro do capitalismo parece ter caído por terra.

“Na verdade, durante a crise e depois dela, o comportamento dos nossos investimentos diretos e por meio de fundos foi surpreendentemente bom. Isso mostra que os mercados emergentes são, provavelmente, um lugar mais seguro para investir, pelo menos nesse ciclo, que os mercados desenvolvidos”, disse Haydée Celaya, diretora do departamento de fundos de investimento e private equity da IFC e futura chefe de captação de fundos e marketing da asset da organização, que tem um portfólio de US$ 2,6 bilhões de fundos de private equity totalmente devotado a países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. No ano fiscal que se encerra neste mês, a IFC mais que dobrou sua meta de investimentos em private equity, de
US$ 400 milhões para US$ 900 milhões. “É no limiar de uma recuperação que residem os períodos mais promissores de investimento”, disse Lars Thunnell, vice-presidente executivo e CEO da IFC. Quando os efeitos da crise forem mais residuais, provavelmente a partir do próximo ano fiscal, a IFC deverá retornar aos níveis normais de atividade em private equity.
“É assim que funciona nosso ciclo. Quando o mercado está baixo, tendemos a fazer mais; se todo o mundo está investindo, agimos menos”, disse Haydée.

O que tem atrapalhado a captação de recursos dos general partners (GPs), claro, não são os méritos dos países emergentes. O problema continua vindo das economias do primeiro mundo. Investidores da Europa e dos Estados Unidos, os maiores patrocinadores do private equity no mundo, estão à espera de um momento melhor para sair de fundos de seus mercados de origem e, assim, poderem se comprometer mais com os emergentes. Além disso, a instabilidade de algumas economias da Europa e os temores de que uma regulamentação da União Europeia restrinja o acesso de gestores estrangeiros a recursos de investidores do continente inspiram cautela.

DEMANDA NOVA — O crescimento econômico dos emergentes é o principal canalizador de recursos para esses mercados. “Durante 2005 e 2007, os grandes bancos comerciais internacionais emprestavam agressivamente a mercados emergentes. Como isso mudou, as empresas precisam agora de dinheiro para crescer e acompanhar a demanda interna”, analisou Peter Marber, chefe global do banco inglês HSBC na área de renda fixa e moedas de mercados emergentes. Marber destacou outras vantagens dos mercados emergentes nesse momento. “Países do G7 estão com uma alta proporção de dívida pública em relação PIB, enquanto a média, nos emergentes, varia entre 25% e 40%.” O endividamento público dos Estados Unidos, por exemplo, beirou os 90% do PIB em maio.

A impressão é de que os investidores, no geral, estão embarcando nessa história de crescimento. De acordo com uma enquete feita pela Empea e pela Coler Capital, finalizada em abril, com “limited partners” (LPs) de todo o mundo, o desejo dos investidores é aumentar sua exposição ao private equity de mercados emergentes nos próximos dois anos. Hoje, os portfólios dos entrevistados têm dedicado aos emergentes de 6% a 11% do capital total comprometido. Caso as perspectivas se confirmem, essa faixa deve se elevar para 11% a 15%. A maioria também espera que os fundos baseados nesses mercados superem o retorno de fundos de private equity como um todo.

Que ninguém pense em caminhada tranquila. “Estamos ouvindo as melhores intenções, mas vamos ver como será a execução disso”, questionou Patricia Dinnen, diretora-superintendente da Siguler Guff, firma de private equity norte-americana que tem mais de US$ 8,5 bilhões de patrimônio e fundos de pensão e de universidades como clientes. O entusiasmo pode levar a crer que o retorno em mercados emergentes é garantido. “Mas é trabalho duro. O processo de due dilligence, em alguns mercados, é dificílimo”, ponderou Patricia.

NEM CHINA, NEM SUÍÇA — Houve um tempo em que pensavam que investir no Brasil, apontado como o mais atraente ao lado de China e Índia, seria nada menos que um desastre. “O risco agora é as pessoas acharem que o Brasil tem o potencial de crescimento da China com a estabilidade da Suíça”, provocou Álvaro Gonçalves, sócio da gestora de recursos Stratus. “Há investidores que são disciplinados na hora de fazer aportes em economias maduras, mas relaxam quando chegam ao Brasil e depois culpam o País”, lamentou. “Há burocracia mais acentuada em alguns estados e dificuldades para operar.”

A lição número um pregada exaustivamente nos debates: investidores preferem confiar naqueles que já conhecem. Pouco importa se a carta anual de Loren Boston, do começo deste texto, traz notícias ruins ou comentários engraçados. O que ele realmente busca com esse hábito é marcar presença nos corações e nas mentes de investidores. “Muita gente que me lê me trata como um velho conhecido”, disse ele. “Além do histórico de desempenho, relacionamentos são muito importantes em momentos como esse.” Quem estava no evento da Empea e da IFC sabia bem disso. Mais do que prestar atenção nas palestras, eles aproveitaram o convívio de dois dias com 850 participantes do mercado, entre investidores, advogados, consultores e, sobretudo, gestores de fundos, para reforçar e ampliar a rede de contatos.


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