Momento de ousar

Em tempos de juros reais abaixo de 2%, fundações selecionam os ativos de risco que vão compor suas carteiras em 2013

Gestão de Recursos / Reportagem / Edição 112 / 1 de dezembro de 2012
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Diante da sequência de dez cortes na taxa Selic promovida pelo governo entre agosto do ano passado e outubro de 2012, José Carlos Loureiro, diretor financeiro da Fundação Copel de Previdência e Assistência Social, tem a impressão de que “o céu caiu sobre a sua cabeça”. O fim dos gordos rendimentos pagos pelos títulos públicos acabou com a vida fácil das fundações de cumprir as metas atuariais sem correr riscos. A apreensão de Loureiro é compartilhada pelos diretores de investimento das fundações Forluminas de Seguridade Social (Forluz) e Sistel de Seguridade Social. São fundos de pensão de médio porte que, assim como as gigantes Petros, Valia e Funcef, estão tendo que flertar com a renda variável nesses tempos de taxa Selic de um dígito.

A Fundação Copel, por exemplo, aloca atualmente 20% de sua carteira em renda variável. No ano que vem, pretende elevar esse percentual para 30%. A decisão levou o fundo a analisar mais detalhadamente o universo que pretende explorar. “Começamos a analisar as small caps, os ETFs, e estamos tentando identificar o que sobrou de fundos de dividendos”, diz Loureiro, que reclama da intervenção do governo na economia. A fundação deve encerrar 2012 com um montante de recursos administrados 12% maior, somando R$ 6,5 bilhões em patrimônio. “Nossa meta atuarial está em 6% ao ano, e a inflação em 2013 preocupa”, afirma o executivo, que prevê um ano desafiador. Em sua opinião, o mercado de renda variável é “muito estreito”, e o governo deveria estimular a ida de mais empresas à bolsa.

A Forluz também tem planos de aumentar sua alocação em renda variável, bem como em fundos de private equity e ativos de crédito privado. Rodrigo Eustáquio Barbosa Barata, diretor de investimentos e controle da Forluz, conta que a fundação vem diversificando seus investimentos e alocando recursos em ativos de maior risco. Suas preferências são os fundos de Ibovespa ativo, small caps, dividendos e ações livres. “Atualmente, a Forluz investe cerca de 10% de seus ativos em renda variável”, comenta Barata.

O diretor explica que a Forluz realiza reuniões periódicas com seus gestores e macroeconomistas para subsidiar as decisões sobre o nível de exposição em ações. Metade dos recursos disponíveis para essa modalidade de investimento está aplicada, hoje, em fundos indexados ao Ibovespa; a outra parte, em fundos de diferentes modalidades. O objetivo, esclarece Barata, é gerar maior “alfa” (retorno acima do ativo de referência do mercado). Para 2013, a fundação planeja estudar investimentos no exterior — principalmente, em fundos de ações e private equity na Europa e nos Estados Unidos.

A Fundação Sistel ainda está avaliando os setores em que irá desembarcar na bolsa em 2013, mas já identifica algumas oportunidades. “Vamos aumentar a participação em infraestrutura”, planeja Carlos Alberto Cardoso Moreira, diretor de investimentos e finanças da Sistel. Também despertam seu interesse os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), os fundos de investimento em participações (FIPs) e ativos com lastro imobiliário. “Esses investimentos representaram, este ano, de 1% a 2% da carteira. Mas esse percentual deve crescer para algo entre 8% e 9% em 2013”, observa o executivo.

Forluz estuda ingressar em fundos de ações e private equity na Europa e nos EUA no próximo ano

O investimento total em renda variável da Sistel corresponde, hoje, a 15% de seu patrimônio; para o ano que vem, a expectativa é atingir 20%. A postura é bem diferente daquela de dois anos atrás, quando a fundação diminuiu suas aplicações em ações. A decisão foi motivada pelo cenário macroeconômico mundial, que não era dos mais favoráveis. “Nos últimos três anos, a bolsa ficou estagnada, e o custo de operação não estava interessante. Achamos melhor concentrar recursos em NTN-B, com as quais tivemos um ganho considerável”, lembra Moreira, referindo-se aos títulos públicos de longo prazo negociados pelo Tesouro Direto. A fundação, que tem meta atuarial de INPC mais 3,8%, possui um patrimônio consolidado de cerca de R$ 15 bilhões — um crescimento nominal de 18% sobre o ano anterior.

Alcindo Costa, diretor de distribuição de fundos do HSBC Global Asset Management, tem algumas fundações como clientes. Em sua opinião, este é um momento em que até mesmo os mais conservadores precisarão abraçar os investimentos em renda variável. Os dias de retornos exuberantes dos títulos públicos ficaram para trás. Para quem não se recorda, há exatos 20 anos, antes do lançamento do Plano Real, a taxa de juros real era da ordem de 31% ao ano. No fim de 2008, a Selic estava em 13,75% ao mês, e a taxa de juros real, em 7,85% ao ano. Esses valores minguaram, em 2012, respectivamente, para 7,25% e 2%.

Diante desse cenário, Costa acredita que os fundos small caps vão ganhar destaque, assim como os de infraestrutura. “Estes últimos serão um dos mais importantes em 2013”, avalia o executivo. O interesse no setor leva em conta os investimentos em telecomunicações, construção, transportes e energia, por exemplo, que serão necessários para o Brasil sediar a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

Para 2013, o HSBC Global Asset Management espera oferecer às fundações, também, veículos que invistam em ações de bolsas estrangeiras. “Seria um novo produto para fundos de pensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Brasília”, ressalta Costa. Até o início de 2012, a asset tinha dois times responsáveis pela gestão de renda variável no banco, um para ativos brasileiros e outro para estrangeiros. “Agora, juntamos os grupos, unindo nossas expertises”, destaca o diretor.

Na visão do diretor do HSBC, a tendência é que, nos fundos de pensão, a proporção entre aplicações de renda fixa e variável, hoje na ordem de 70% e 30%, respectivamente, se estabeleça, nos próximos três anos, em 60% e 40%. Com isso, o Brasil chegaria mais perto do perfil de investimento nos Estados Unidos, onde 70% dos recursos são aplicados em renda variável, e na Europa, onde esse patamar é de 60%. “Os atuais índices não demonstram a dinâmica da economia brasileira”, pondera Costa. “Ousadia com controle” é, na visão do executivo, o novo lema para os fundos de pensão.



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