Investidores boicotam indústria de armas

Enquanto ações da Taurus sobem, gestoras de recursos internacionais lançam fundos “weapon free”

Gestão de Recursos/Reportagem / 15 de março de 2019
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Investidores boicotam indústria de armas

Ilustração: Rodrigo Auada

Foi pela dor que mais uma vez o assunto veio à tona. O massacre protagonizado por dois jovens em março numa escola pública de Suzano, na grande São Paulo, realimentou os debates em torno das regras para posse e porte de armas de fogo no País — discussão que envolve um governo defensor do armamento da população, parte da sociedade contrária à ideia e, lateralmente, investidores que acabam por financiar a produção dos artefatos. A participação do mercado de capitais na cadeia da produção de armamentos, entretanto, está cada vez mais em xeque — principalmente no exterior.

No País, as polêmicas acerca do armamento civil ganharam força na corrida eleitoral. Em um dos debates televisivos entre os candidatos ao Planalto — sem a presença de Jair Bolsonaro, que se recuperava do atentado que sofrera em setembro —, Ciro Gomes evocou a expressiva valorização das ações da fabricante de armas Taurus. Segundo o presidenciável do PDT, era preciso saber “quem estava lucrando com essa história”. Provável desconhecida da maior parte dos telespectadores, a empresa sediada no município gaúcho de São Leopoldo é a única brasileira do setor listada em bolsa e integrante de um seleto grupo — a Associação Nacional das Indústrias de Armas e Munições (Aniam) tem apenas duas afiliadas além da Taurus.

A insinuação de Ciro era direcionada a Bolsonaro, defensor fervoroso da bandeira de flexibilização do comércio de armas de fogo. Àquela altura (4 de outubro), o aumento das chances da eleição do ex-capitão do Exército dava impulso extra aos papéis da Taurus — nos seis meses anteriores, a valorização foi de 166%. Mas se por um lado a postura do governo tende a favorecer os negócios da companhia, por outro incentiva a concorrência, o que pode explicar a queda de 21,3% das ações logo depois da assinatura de decreto presidencial que facilitou a posse de armas, em 15 de janeiro — mas foi um mero desconto diante da forte alta de 2018. Um projeto de lei de um dos filhos do presidente, o senador Flavio Bolsonaro, apresentado logo após o massacre em Suzano, também pode favorecer a competição no setor. O PL prevê a eliminação de uma reserva de mercado para empresas nacionais de armas datada da década de 1930.

Presença incômoda

A perspectiva de aquecimento da indústria de armas de fogo explica a empolgação de alguns investidores com o setor. A animação, no entanto, não obscurece o fato de o segmento começar a se juntar a outros dois — cigarro e combustíveis fósseis — muito malvistos em termos de responsabilidade social. A reserva torna-se ainda mais evidente quando se pensa nos chamados investimentos ESG (sigla em inglês para fatores socioambientais e de governança). Para os fundos que seguem essa diretriz, empresas que atuam com combustíveis fósseis e cigarros são candidatas óbvias a veto. Não é o que acontece imediatamente em relação às armas — há, por assim dizer, atenuantes que podem manter as fabricantes em alguns portfólios. Isso porque o setor abarca a fabricação de armas de uso pessoal e também equipamentos militares, que têm uma dinâmica um pouco diferente e, teoricamente, mais controles. Mas, dado o engajamento dos ativistas pró-ESG mais radicais, não deve demorar muito até que o segmento se torne uma presença indigesta nas carteiras.

País da bala

Impossível falar de armas sem analisar em detalhes o mercado americano. Por lá, já é intensa a pressão de investidores para a limitação do financiamento dessa indústria via mercado de capitais. Primeiro, às estatísticas: nos Estados Unidos, cerca de 40% da população vive em casas que têm armas, segundo levantamento de 2017 da Pew Research Center. O país tem a maior taxa de homicídios por arma de fogo entre as nações desenvolvidas, conforme dados da Organização Mundial da Saúde, e é cenário frequente de ataques a tiros em escolas e outros lugares públicos.

Mobilizadoras da opinião pública, essas tragédias reverberam no desempenho das empresas de armamentos em bolsa. Estudo publicado em 2017 por professores das universidades americanas Temple e de Maryland analisou os efeitos de 93 ataques a tiros em massa ocorridos entre 2009 e 2013 sobre duas empresas do setor. A percepção é de que, após esses incidentes, elas tendem a se beneficiar do consequente aumento da demanda por armas; ao mesmo tempo, as ações dessas empresas caíram entre 22,4% e 49,5% nos dias subsequentes a cada atentado, a depender do número de pessoas atingidas. “Os investidores tendem a reagir conforme as pressões da sociedade, então seu comportamento é também pautado pela maneira como os consumidores enxergam esses eventos e a indústria”, explica Brad Greenwood, coautor da pesquisa.

Em resposta a esses incidentes, gestoras de recursos lançaram fundos de investimento que banem empresas de alguma forma ligadas à indústria de armas. Uma das mais engajadas é a Calvert Research and Management, que gere cerca de 14 bilhões de dólares em recursos. “As armas são o novo tabaco, mas ainda é difícil retirar investimentos desses setores, geralmente bastante lucrativos”, diz o especialista em finanças comportamentais Meir Statman, professor da Santa Clara University, no Vale do Silício, sobre a dificuldade em se aliar valores sociais a retornos financeiros.

Para orientar os investidores que buscam fugir de fundos que coloquem recursos em armamentos, colaboradores da organização sem fins lucrativos As You Sow fundaram a plataforma Weapon Free Funds, que monitora gestoras de recursos para determinar o quanto elas investem no setor — em 261 fundos de ações da Fidelity analisados em abril, por exemplo, 51,45 bilhões de dólares estão alocados em fabricantes e vendedores de armas civis e militares. Considerando o patrimônio total desses fundos, isso corresponde, segundo a plataforma, a uma exposição a armas de 3,98%.

Sem partir para o boicote, um grupo de 13 fundos americanos com cerca de 5 trilhões de dólares sob gestão — entre eles State Street Global Advisors (SSGA) e Nuveen — iniciou no ano passado um movimento para mudar o comportamento de fabricantes de armas e de empresas que as comercializam. A coalizão visa pressionar a indústria para adotar tecnologias que tornem as armas mais seguras e facilmente rastreáveis. Também demanda o endurecimento de regras para compra de armas, com ações que partam das próprias empresas, o que pode livrá-las de situações negativas como a experenciada pela Remington. A empresa é fabricante do rifle de onde saíram os disparos do massacre ocorrido, em 2012, na escola primária de Sandy Hook. Por causa desse episódio, em 14 de março deste ano, a Suprema Corte de Connecticut sinalizou que a empresa poderia ser responsabilizada por anúncios e por vender armas semelhantes às usadas por militares a civis.

Em outra frente de pressão econômica, o Walmart impôs restrições ao comércio de armas, estabelecendo parâmetros mais rigorosos de idade para os compradores, por exemplo. Já o Citigroup anunciou, também em 2018, que exigirá das empresas do setor nas quais investir a verificação dos antecedentes dos compradores e o aumento da idade mínima para venda de armas. Dentre os 50 estados americanos, apenas oito (Nova York e Califórnia incluídos) têm políticas restritivas à comercialização de armamentos. Em geral, cidadãos americanos são autorizados a comprar armas de uso pessoal a partir dos 18 anos. Curioso observar que para adquirir bebida alcoólica legalmente precisam ter no mínimo 21.

Muitas assets também têm optado por exigir retratações das companhias de armamentos. Logo depois do massacre ocorrido em uma escola de ensino médio em Parckland, na Flórida, no início de 2018, a American Outdoor, fabricante da arma usada pelo atirador (que matou 17 pessoas) foi questionada sobre suas políticas de segurança por uma de suas principais sócias — a gigante BlackRock, que na época tinha 11% de participação na empresa. A gestora não deixou de investir no setor, mas já exibe em seu portfólio fundos com o selo “weapon free”.

“Diferentemente de outros setores, em que há maior consenso sobre seus estragos e é mais simples optar pelo não investimento, há quem continue a investir em armas sob a perspectiva do direito individual”, avalia Luciana Ribeiro, sócia da asset EB Capital. “Ao permanecer e exigir novas políticas, o investidor torna-se parte da solução do problema”, acrescenta.


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Dois lados

Nesse sentido, cabe uma reflexão. Qual seria a fronteira para se caracterizar uma empresa como socialmente irresponsável, não merecedora de recursos dos investidores? Nos Estados Unidos, os defensores do incentivo ao financiamento do setor de armas por meio do mercado de capitais argumentam que possuir e comprar armas são direitos constitucionais, dispostos na Segunda Emenda à Constituição, aprovada em 1791 (vale lembrar, tempo em que o país ainda era majoritariamente rural). Além disso, de acordo a National Shooting Sports Foundation (NSFF), grupo que representa o setor, a indústria americana de armas injetou 51,4 bilhões de dólares na economia em 2017, com uma cadeia produtiva que emprega em torno de 300 mil pessoas. No lado oposto, ativistas e investidores defendem a tese de que a ampla circulação de armas está relacionada aos elevados níveis de suicídios (um terço do total de mortes por arma de fogo nos Estados Unidos, segundo dados oficiais de 2016) e de homicídios, com destaque para feminicídios. Eles estão amparados por conclusões como a de que cada 10% de aumento de posse de armas representa 7,8% mais mortes de mulheres por conhecidos, conforme mostra estudo elaborado por professores da Universidade de Boston.

A linha entre o socialmente aceitável e o eticamente reprovável torna-se mais fina quando se divide o mercado de armas de fogo em duas vertentes: a de armamento pessoal e a destinada à defesa territorial e à segurança pública (nesses casos, com a gestão do Estado). A Taurus, por exemplo, atua nas duas frentes. É fornecedora oficial das polícias estaduais e também exporta armas civis e militares, seu principal filão.

Alta justificável?

Enquanto no exterior empresas de armamento sofrem boicotes, no Brasil a Taurus vive um dos seus melhores momentos. Nos 12 meses encerrados em 23 de abril, suas ações subiram 122%. A alta é impulsionada pelos bons resultados da companhia. Entre 2017 e 2018, a Taurus viu sua receita com exportações subir 18%; no mesmo período, as vendas para o mercado interno aumentaram 41,4%. Como consequência, sua receita operacional líquida atingiu 845,3 milhões de reais em 2018, 22% a mais do que em 2017. A Taurus tem operações no Rio Grande do Sul e nos Estados Unidos, e pretende se expandir ainda mais: em fevereiro assinou um memorando de entendimento para a formação de uma joint venture para desenvolver a indústria de armas na Índia.

No mercado interno, a empresa detém larga vantagem competitiva na área de armas vendidas para forças de segurança. Trata-se, na prática, de um monopólio, já que o regulamento do Exército brasileiro dá preferência a armas e munições de fabricação nacional. Esse fato torna ainda mais preocupante questionamentos em relação à qualidade de sua produção. A pistola 24/7, adotada por policiais militares, é conhecida pelos oficiais como “mata-sete”, uma referência à grande quantidade de disparos acidentais — o que motivou a proibição de sua venda pelo Exército em 2016 e a abertura de uma ação do Ministério Público Federal contra a empresa no ano seguinte. De acordo com o presidente da Taurus, Salesio Nuhs, entre 2015 e 2017 a companhia fez um plano para revisar todas as armas de instituições públicas, além de ter descontinuado a pistola questionada. “Se houver qualquer preocupação, não só de autoridades, sobre os armamentos, faremos revisões preventivas”, diz Nuhs.

Em seu guia de financiamentos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) afirma não repassar recursos para o comércio de armas. No entanto, como a Taurus não é apenas comercializadora, obteve uma série de empréstimos: foram 53,4 milhões de reais entre 2008 e 2015, segundo dados obtidos pelo Instituto Igarapé via Lei de Acesso à Informação. Em 2017, destacando a necessidade do BNDES de investir no setor de armamentos para reforçar a presença brasileira no comércio internacional, o ministro da Defesa do governo Michel Temer, Raul Jungmann, anunciou o lançamento de uma linha internacional de crédito para países que quisessem comprar produtos da indústria brasileira de defesa e segurança. Por ora, nenhum contrato foi fechado.

Com o decreto de flexibilização da posse de armas, o governo espera atrair empresas do setor para o mercado brasileiro — inclusive para a instalação de fábricas. Mas o processo não deve ser tão fácil. No ano passado, Jungmann anunciou a instalação de uma unidade fabril de munições da empresa suíça Ruag em Pernambuco, com investimento inicial de 15 milhões de euros. O plano, entretanto, foi abandonado. O governo da Suíça, principal acionista da Ruag, recomendou que, por causa de “riscos reputacionais”, a fábrica não fosse instalada no Brasil, um país conhecido pela violência com uso de armas de fogo — a taxa média foi de 21,6 homicídios por 100 mil habitantes em 2016, conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2006, para se ter uma ideia, esse número era de 19 mortes. Diante do crescimento — e de tragédias como a de Suzano —, a decisão do governo de flexibilizar o comércio de armas de fogo no Brasil é questionável. E com certeza causa uma péssima impressão entre os investidores socialmente responsáveis.

Sem medo da concorrência

Presidente da Taurus, Salesio Nuhs diz que atenderá à nova demanda com facilidade

O governo federal lista a posse e o porte de armas civis como prioridade. Como esse cenário impacta o crescimento da empresa?
Nossa expectativa é de que o mercado se expanda porque, com esse novo governo, é muito grande a exposição do tema armas e munições. O consumidor brasileiro, preocupado com a sua defesa e a de seus bens, tomou conhecimento do direito de comprar armas e, com mudanças na regulamentação para aquisição de armas, haverá aumento da procura. O consumo nacional é muito pequeno comparado à produção da companhia, então, por mais que a demanda no Brasil aumente — o que vai acontecer — temos capacidade de atendê-la sem nenhum problema e, inclusive, com prioridade. Além disso, a companhia vem passando por um aumento significativo da sua base acionária: um grande salto ocorreu entre 2017 e 2018, quando houve um aumento de cerca de 220%.

Com o potencial aumento de demanda interna, o senhor acredita na ampliação da concorrência nesse segmento?
Esse não é um assunto que nos preocupa. Acho que isso dificilmente vai acontecer, por causa das condições atuais da nossa legislação tributária e regulatória. A indústria nacional se submete a uma carga tributária que representa boa parte do valor do produto, enquanto ao exportar não há essa mesma proporção. Na questão regulatória, a situação é tão ruim quanto. Para se lançar produtos, considerando a extensão da fila para homologação — hoje a Taurus tem 183 produtos em espera —, pode demorar muitos anos, ao passo que a indústria estrangeira não se submete a isso. Dificilmente haverá a entrada de novas empresas se não houver mudanças nessas áreas. E, mesmo que elas entrem, somos uma empresa globalizada e concorremos no mundo inteiro, inclusive no mercado americano, altamente competitivo.

Para os próximos anos, qual é o modelo de expansão das exportações, principal frente da companhia, considerando o memorando firmado para uma joint venture na Índia?
Pretendemos atender as necessidades dos mercados interno e externo, principalmente Estados Unidos, onde temos uma forte presença desde o início dos anos 1980 e somos a quarta marca mais vendida, mas sem esquecer a abertura de novos mercados, como Ásia e África.

Em exportações, o foco será no mercado civil ou militar e de segurança pública?
Como o governo americano possui arsenal que suporta as demandas das forças armadas, cerca de 90% das nossas vendas no país é de produtos para o mercado civil. No resto do mundo, acontece o contrário — a maioria é destinada a órgãos públicos.

Como a Taurus tem trabalhado para desconstruir a imagem de que a indústria de armas tem impacto social negativo?
A Taurus é considerada uma empresa estratégica de Defesa. Nosso comprometimento é produzir produtos que contribuam com o trabalho das forças policiais e atendam às necessidades de defesa e segurança das pessoas. Com 80 anos de existência e reputação sólida, a companhia emprega cerca de dois mil colaboradores, recolhe 155 milhões de reais em impostos por ano, gerando impacto social e econômico positivo no País.


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