A vez do rating ESG

Empresas usam desempenho socioambiental para melhorar custo financeiro

Captação de recursos / Artigo / 27 de Abril de 2018
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Cristóvão Alves*/Ilustração: Julia Padula

Em fevereiro deste ano, a Danone fechou um acordo com bancos privados no qual atrelou o custo financeiro de uma dívida de 2 bilhões de euros à evolução de seus indicadores de desempenho socioambiental. Ou seja, conforme a empresa melhore o desempenho em temas como direitos humanos, uso de recursos naturais e ética corporativa, será reduzido seu custo de capital. A “novidade” ganhou repercussão internacional, chamando a atenção de investidores e empresas.

Tradicionalmente, a integração de questões ESG (ambientais, sociais e de governança, na sigla em inglês) às decisões de investimento é capitaneada por instituições financeiras com um perfil determinado: investidores institucionais (como asset managers e fundos de pensão), com parcela grande de alocação em renda variável e em geral europeus ou americanos. Como parte de seu dever fiduciário — a responsabilidade de administrar os recursos de terceiros de maneira diligente —, esses atores entendem os fatores ESG como uma oportunidade para mitigação de risco e geração de valor na compra e venda de ativos.

O que o caso da Danone ajuda a destacar é que outros participantes do mercado também buscam oportunidades financeiras por meio da melhora do desempenho socioambiental. Não foi uma ação isolada; ela integra um movimento ascendente. No ano passado, pelo menos quatro operações vincularam o desempenho ESG aos juros pagos. Em abril de 2017, a holandesa Philips recebeu um empréstimo de 1 bilhão de euros de um consórcio de 16 bancos, com uma taxa de juros associada a um rating ESG independente. Em outubro, a concessionária de infraestrutura espanhola Abertis fechou um crédito de 100 milhões de euros com o grupo ING, o primeiro do tipo no setor. Em novembro, a produtora de óleo de palma Wilmar, da Indonésia, que já foi muito criticada por supostamente desmatar florestas tropicais, obteve um empréstimo de 150 milhões de dólares do ING. Já em 2018, a Iberdrola estendeu um empréstimo de 5,3 bilhões de euros em janeiro, com redução do spread bancário atrelado à melhora de indicadores de sustentabilidade, como a redução das emissões de gases de efeito estufa.

Essas operações evidenciam a intensificação da conexão entre desempenho socioambiental e acesso a crédito envolvendo empresas e investidores pioneiros. No mercado de capitais, essa relação se difundiu mais fortemente nos últimos anos. Em 2017, a emissão de títulos de dívida verdes (green bonds) somou cerca de 160 bilhões de dólares no mundo — e atingiu 4,1 bilhões de dólares no Brasil. Nos títulos verdes, os recursos captados devem ser usados em ativos ou projetos ambientalmente sustentáveis. Os recém-lançados “Green Loan Principles”¹ estendem a lógica de direcionamento dos recursos captados para empréstimos corporativos e sindicalizados. Já os casos da Danone e da Iberdrola inserem-se no segmento de crédito corporativo, no qual se estabelece uma estrutura de prêmio (ou punição) pelo desempenho socioambiental geral do tomador, sem a necessidade de direcionamento de recursos para ativos verdes.

Para que oportunidades como essas sejam identificadas e aproveitadas, é importante que se conheça os papéis dos participantes dessas operações:

— bancos que já integram análise ESG em crédito há mais tempo e que já perceberam que essa prática pode mitigar riscos; assim, estão mais dispostos a flexibilizar as condições de financiamento de acordo com o desempenho socioambiental do cliente;

— empresas com bom desempenho socioambiental e compromisso de mantê-lo e/ou melhorá-lo, alinhando a estratégia de sustentabilidade à estratégia de financiamento;

— agências de pesquisa ESG com expertise na avaliação do desempenho socioambiental das empresas.

No fim das contas, constitui-se um arranjo em que todos ganham. Com ele, o mercado passa a perceber o aspecto socioambiental das operações das empresas como um driver para geração de oportunidades, e não somente de mitigação de riscos. O rating ESG resultante da avaliação de empresas passa a ter uma importância adicional para os dois lados: ele contribui para reforçar o engajamento, dá maior profundidade e precisão às análises do lado dos investidores e encoraja práticas mais sustentáveis pelas empresas.

Enquanto cada vez mais investidores e financiadores demandam informações socioambientais das empresas que pleiteiam seus recursos, agências de pesquisa ESG propõem agora que as próprias empresas contratem análises desse tipo, a exemplo do que já ocorre no processo de rating de crédito tradicional. Assim, elas podem se posicionar como um ator ainda mais importante na integração de práticas de sustentabilidade ao setor financeiro — com benefícios para o mercado, o ambiente e a sociedade.


*Cristóvão Alves (calves@sitawi.net) é analista-chefe da Sitawi Finanças do Bem. Colaborou Guilherme Teixeira (gteixeira@sitawi.net), consultor da organização.

[1]Lançados em 2018 pela Loan Market Association (LMA), com apoio da International Capital Market Association (ICMA). Os princípios criam um padrão para empréstimos segundo o qual os recursos devem estar atrelados a projetos verdes, com as mesmas etapas e procedimentos dos Green Bond Principles.



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