Depois de 2016

Incrédulos com o curto prazo, investidores estrangeiros projetam o Brasil que sairá da crise

Gestão de Recursos/Reportagem/Edição 139 / 1 de março de 2015
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depois-de-2016Não faltou emoção nos últimos meses para o investidor estrangeiro interessado no mercado brasileiro. Desde o resultado das eleições presidenciais, em outubro, foi preciso assimilar uma série de novidades vindas tanto do campo da política quando do econômico. Nesse período, Joaquim Levy substituiu Guido Mantega no Ministério da Fazenda, com o subsequente anúncio de medidas de ajuste fiscal. A crise de água e energia vem se agravando, enquanto os escândalos de corrupção envolvendo a maior empresa brasileira, a Petrobras, não param de pipocar na mídia e indignar a população.

Para saber como os estrangeiros estão digerindo a avalanche de más notícias, a CAPITAL ABERTO conversou com executivos de quatro importantes gestoras de recursos internacionais — F&C, Hermes, Aberdeen e Invesco. Embora o caminho sinalizado pela nova equipe econômica da presidente Dilma Rousseff seja bem-visto pelos gestores, há dúvidas quanto à capacidade do governo, cada vez mais enfraquecido no Congresso, de implementar mudanças significativas. Em outra perspectiva, porém, eles veem oportunidades para o País e para as empresas. Confira a seguir.

depois-de-2016-gareth“O Brasil perdeu uma chance preciosa”
Por Gareth Morgan

Com um patrimônio mundial sob gestão da ordem de £ 169 bilhões (R$ 745 bilhões), a britânica F&C Management não está totalmente descrente do Brasil. “Os investidores agora olham para depois de 2016”, diz Gareth Morgan, responsável pelo fundo de mercados emergentes da gestora. Segundo ele, o Brasil perdeu uma chance preciosa de melhorar a competitividade e fazer investimentos na década passada, quando a economia se expandia com vigor e o cenário internacional era mais favorável. Agora, diante da necessidade de aperto fiscal e pequeno crescimento, essa missão ganha complexidade. “A ausência de reformas que incentivem o setor privado nos últimos anos é um dos motivos para o baixo crescimento atual”, considera Morgan, que prevê estagnação da economia brasileira nos próximos dois anos, pelo menos.

Os escândalos de corrupção na Petrobras também desiludem os investidores. “A crise é, em boa parte, resultado da incapacidade de sucessivos governos de lidar com o problema da corrupção no País”, avalia o gestor. Apesar da crítica, ele tenta ver o copo meio cheio. O imbróglio na petroleira, afirma, é uma chance para o Brasil mostrar que tem instituições e um sistema judiciário fortes. “Pode-se tirar algo positivo daí”.

Com £ 41,3 milhões (R$ 185 milhões) investidos em mercados emergentes, a F&C não revela se pretende aumentar ou diminuir as alocações em companhias verde-amarelas diante dos últimos acontecimentos. Mas dá uma pista. “Continuamos em busca de oportunidades. Cada vez mais o Brasil compete com outros mercados ao redor do mundo por capital”, observa Morgan. A competição tem se acirrado. Entre os emergentes, Índia e México aguçam o apetite dos investidores com sua agenda de reformas fiscais, do mercado de trabalho e de setores como energia, telecomunicações e finanças. Ao mesmo tempo, a Colômbia e os países do Caribe roubam os holofotes por apresentarem taxas de crescimento mais robustas.

Até que o Brasil recupere o fôlego, as empresas nacionais devem permanecer em desvantagem no portfólio da F&C. Em janeiro, do grupo de dez investidas pelo fundo de mercados emergentes da gestora, a única brasileira era o Itaú Unibanco, com 3,1% do capital total. O fundo costuma investir nos setores de consumo, tecnologia e finanças. “Talvez mais por temer a perda do grau de investimento do que por ideologia, o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff será menos intervencionista. É improvável, contudo, que ela faça as reformas necessárias para o Brasil deixar de ser um mercado cíclico”, opina Morgan. Ele pondera que o País exibe qualidades importantes: economia diversificada, situação demográfica favorável e boa liquidez no mercado de capitais.

depois-de-2016-gary“No longo prazo, a renda variável permanece a melhor opção”
Por Gary Greenberg

Para uma das maiores gestoras de recursos da Europa, a britânica Hermes, o panorama da economia brasileira no futuro próximo é nebuloso. De acordo com o chefe para mercados emergentes, Gary Greenberg, o sentimento dos investidores em relação ao Brasil atingiu o mínimo histórico. Isso se deve à atual situação macroeconômica, uma combinação de crescimento baixo, alta da inflação, preço de commodities em queda e déficit crescente da balança comercial.

Desde o início do ano, o aprofundamento da crise energética e de abastecimento de água adicionou dose extra de pessimismo em relação ao País. “Há a chance de que os racionamentos elétrico e de água cortem até 1,5% do PIB em 2015, conduzindo a economia à recessão”, estima Greenberg. Outro risco, segundo ele, é o governo ter que injetar capital para fortalecer o caixa da Petrobras, que continua sangrando com a revelação de diversos crimes.

Diante desse cenário, a gestora diz enxergar alguma melhora apenas no médio e no longo prazos. Isso vai depender, em grande parte, do sucesso do ajuste fiscal anunciado para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. A iniciativa, na visão de Greenberg, mostra que o governo está preocupado em resgatar a credibilidade e focado na política macroeconômica em horizonte mais extenso. Essa perspectiva deve diminuir a taxa de juros no futuro, beneficiando o mercado acionário. Segundo o gestor, a renda variável no Brasil perdeu atratividade para a fixa nos últimos quatro anos. No longo prazo, entretanto, “permanece a melhor opção”.

Para que o Brasil deslanche na preferência dos investidores estrangeiros — que começam a olhar com mais atenção para a agenda reformista de China, Índia e Indonésia —, é preciso tomar uma série de medidas, analisa Greenberg. Entre elas, estimular o financiamento privado das empresas e reformar as legislações trabalhista e previdenciária, consideradas “uma bomba relógio no horizonte mais distante”. “Há necessidade de mudanças profundas, mas não podemos afirmar que essa é a prioridade do governo no momento.”

Sem especificar quais empresas mais lhe agradam para investimento, o gestor se considera otimista com aquelas focadas no mercado doméstico com perfil resiliente, a exemplo das instituições financeiras e das companhias de bens de consumo essenciais, como bebidas e alimentos. Para Greenberg, a educação, queridinha do mercado nos anos anteriores, deve ser vista com cautela enquanto o governo define o novo modelo de financiamento do setor.

O investimento da Hermes no Brasil se dá por meio do fundo Global Emerging Markets. Atualmente, apenas 6,4% dos seus recursos, de £ 344,4 milhões (R$ 1,52 bilhão), estão alocados na América Latina — a segmentação por países não é revelada —, ante 47% na Ásia. “Temos investimentos seletivos no Brasil e estamos monitorando a situação”, conta Greenberg. “Investidores gostam de estabilidade e visibilidade. Se ficarmos mais confiantes nas políticas do governo, poderemos decidir melhor como investir no Brasil”, observa.

depois-de-2016-nick“A crise vai forçar as companhias a se tornarem mais eficientes”
Por Nick Robinson

Dona de um fundo de ações dedicado exclusivamente ao Brasil, a gestora escocesa Aberdeen dá por passageira a turbulência econômica enfrentada pelo País. Há mais de uma década investindo aqui, a gestora que administra £ 323 bilhões (R$ 1,43 trilhão) em nível mundial não almeja reduzir as alocações no mercado brasileiro. Muito pelo contrário. Pretende ampliar seus investimentos, caso surjam boas oportunidades. E a crise, na opinião de Nick Robinson, chefe de renda variável da Aberdeen no Brasil, trará algumas delas.

Segundo o gestor, o cenário desafiador da economia — projeções apontam recessão neste ano e crescimento reduzido em 2016 — forçará as empresas a se tornar mais eficientes. Com isso, quando o PIB der sinais de crescimento, estarão bem posicionadas para ampliar os lucros. “Olhamos companhias capazes de se manter saudáveis, cortar custos e continuar crescendo mesmo em tempos difíceis”, descreve o gestor.Duas investidas pela Aberdeen com esse perfil são a varejista Renner e a distribuidora de combustíveis Ultrapar. Mesmo com o consumo das famílias se retraindo no ano passado, a Renner se mostrou resiliente, diz Robinson. Já a Ultrapar, afirma, conseguiu registrar bom desempenho financeiro apesar das incertezas no setor de energia, da queda no preço do petróleo e das intervenções governamentais. “São companhias que refletem nossa estratégia de investimento: têm boa gestão e governança, balanço forte e posição competitiva no mercado”, explica. “Queremos investir mais no Brasil e faremos isso se essas ou outras empresas com tais características ficarem baratas.” A calçadista Arezzo, o banco Bradesco e a mineradora Vale são outros exemplos de integrantes do portfólio atual da gestora. As participações variam entre 5% a 17% do capital acionário.

Na origem do otimismo da Aberdeen está também a confiança de que a economia brasileira se recuperará a partir de 2016. Para Robinson, a falta de disciplina fiscal que corroeu a confiança dos investidores deve terminar, com a indicação da nova equipe econômica e o anúncio de medidas de ajuste das contas públicas. Já a inflação e a taxa de juros elevada são uma fase do ciclo econômico. “O mau momento não vai durar para sempre. No longo prazo, o Brasil se sairá bem”, conclui o gestor. Hoje, o patrimônio sob gestão da Aberdeen no País, entre renda fixa (15% do total) e variável (85%), é de R$ 28 bilhões.

depois-de-2016-sean“Derrota na Câmara dificultará as medidas de austeridade”
Por Sean Newman

O entusiasmo com o Brasil parece ter ficado no passado da americana Invesco, que administra US$ 786,5 bilhões no mundo. Há cinco anos, o País era a estrela das análises da gestora.

“A perspectiva não é promissora”, sentencia Sean Newman, diretor de portfólio de renda fixa da Invesco para mercados emergentes. No centro do pessimismo, estão os riscos relacionados ao cenário político adverso para a presidente Dilma Rousseff e ao impacto do ajuste fiscal numa economia já enfraquecida. Apesar de considerar positiva a nomeação de Joaquim Levy e Nelson Barbosa para a equipe econômica, Newman acredita que o time terá dificuldade de implementar medidas de austeridade, como mudanças nas regras de seguridade social. A derrota sofrida pelo governo na Câmara dos Deputados em fevereiro, quando perdeu a eleição para a presidência da casa, reforça a desconfiança. “São tópicos sensíveis, que devem enfrentar forte oposição no Congresso”, diz ele.

O desafio é ainda maior quando se considera o ano complicado que o Brasil terá pela frente. Na análise da gestora, com a economia sob ameaça de recessão (no último boletim Focus, o Banco Central previa recuo de 0,42% do PIB em 2015), a arrecadação tributária sofrerá um impacto. Com isso, o governo ficará de mãos atadas para investir em áreas-chave como a de infraestrutura. Já a balança comercial deve padecer com a continuidade da tendência de queda no preço mundial das commodities.

Para completar o cenário sombrio, a crise na Petrobras arrisca paralisar projetos de investimento da estatal que poderiam ajudar a empurrar a economia, conjectura Newman. Em resumo, será um período de crescimento fraco, taxa básica de juros alta (a gestora estima que a Selic atinja 13% até o fim do ano) e risco de racionamento de água e energia, opina. Todos elementos nefastos ao desenvolvimento dos negócios.

O gestor não revela quais companhias estão no foco do fundo da gestora para mercados emergentes, mas ressalta que as exportadoras podem ser beneficiadas pelo real depreciado. “Em empresas bem-administradas, haverá ganho de competitividade por causa do câmbio”, prevê.


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