Energia bem-vinda

Polêmica em torno do impacto dos biocombustíveis sobre preços dos alimentos não muda humor de investidores

Gestão de Recursos/Reportagem/Temas/Edição 59 / 1 de julho de 2008
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Um dia antes de deixar o cargo de relator da ONU para o direito à alimentação, no fim de abril, o suíço Jean Ziegler fez jus à fama de polêmico e mais uma vez atacou os biocombustíveis. Na opinião dele, a busca por uma matriz energética alternativa ao petróleo estaria elevando os preços dos alimentos e acentuando a fome no mundo. A declaração foi o estopim para uma acalorada discussão internacional em torno dos reais benefícios de combustíveis como o etanol. O Brasil, um dos países que mais aposta no álcool oriundo da cana-de-açúcar, ficou na linha de tiro. Mas o resultado, ao contrário do que se poderia imaginar, foi positivo. A exposição na mídia internacional acabou enfatizando as vantagens competitivas do produto brasileiro.

O principal argumento de Ziegler é que terras antes destinadas ao cultivo de alimentos estariam sendo tomadas por plantações de matérias-primas para a produção do biocombustível. Nos Estados Unidos, de fato, o etanol é produzido a partir do milho. O desvio da safra para a fabricação de combustível estaria inflando os preços dos alimentos, dentre eles a carne, dependente da ração animal que tem o grão como ingrediente principal. No Brasil, entretanto, o cenário seria totalmente diferente. O etanol é fabricado a partir da cana-de-açúcar, que não concorre diretamente com o plantio de alimentos. Surgiram outras críticas, como o uso de terras da floresta amazônica para o cultivo de cana. Mas a tese logo perdeu força. Além de o clima na Região Norte não ser propício, a distância dos pólos consumidores tornaria a produção de etanol em larga escala inviável. O país também foi citado em discussões sobre o uso de mão-de-obra mal remunerada e adoção de técnicas danosas ao meio ambiente, como as queimadas que antecedem a colheita da cana. Imediatamente, empresários do segmento reagiram com dados que apontam o fim da colheita manual até 2014 ou antes disso, como deve acontecer em São Paulo.

A discussão tem um claro viés político, evidenciado pelo comprometimento do próprio presidente Lula, que tem feito defesas ferrenhas do etanol em viagens internacionais. Há muitos interesses em jogo quando se trata da adoção de matrizes energéticas alternativas ao petróleo, cujos preços têm batido recordes sucessivos no mercado internacional. Ao mesmo tempo, a aposta na produção de biocombustíveis está cada vez mais difundida no mercado financeiro. George Soros e Vinod Khosla, megainvestidores internacionais, já colocaram suas fichas no setor. Além deles, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga e o ex-presidente da Petrobras Henri Phillipe Reichstul, nomes de peso da economia nacional, fazem suas apostas.

Diferenciar o etanol produzido no Brasil do combustível oriundo de culturas alimentícias, como acontece com o milho nos Estados Unidos, parece ter sido o maior benefício que o País poderia colher diante de tantos questionamentos. “O etanol brasileiro foi comparado ao etanol de segunda geração”, conta Plínio Nastari, da consultoria Datagro, referindo-se ao etanol feito a partir de insumos como os subprodutos de celulose, palha de milho e casca de arroz, que não impactam a agricultura direta ou indiretamente.

VANTAGENS COMPETITIVAS — No mercado, não há nenhum sinal de que as discussões tenham afetado o humor dos investidores. Na área de private equity, o noticiário intenso teria até ajudado a difundir informações sobre as oportunidades em território verde-amarelo. A Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCap) estima que os projetos de energia limpa ficarão com algo em torno de 20% a 40% dos US$ 10 bilhões em capital comprometido projetados para este ano. “Houve muita especulação por negócios na área. Sabemos de investidores que chegaram a desistir devido aos preços altos. Mas é evidente que quem detiver soluções de alto impacto na área de energia renovável lucrará”, observa Sidney Chameh, vice-presidente da associação.

A Mercatto, que atualmente capta recursos para um fundo de private equity focado em energia renovável, confirma que o debate não afetou o interesse pelo setor. A expectativa da gestora é arrecadar entre US$ 200 milhões e US$ 250 milhões até setembro. “O Brasil tem vantagens competitivas que não se compram: terra disponível e abundância de água. Os investidores compreenderam a diferença entre o etanol brasileiro e o fabricado na Europa ou nos Estados Unidos”, observa Paulo Roberto Todaro, sócio da Mercatto.

Outra gestora de private equity que vem captando recursos para investir no setor é a DGF, da qual Chameh é sócio. A meta é captar R$ 250 milhões para aplicar em projetos novos, consolidações e empresas produtoras de equipamentos. Humberto Casagrande, gestor do respectivo fundo, está entusiasmado. “Somente a demanda interna gerada pela renovação da frota de veículos flex absorverá a produção do atual ciclo de investimentos”, conta. Casagrande lembra que a produção atual de etanol gira entre 18 bilhões e 20 bilhões de litros ao ano. A expectativa é crescer para 45 bilhões em dez anos, que poderão ser totalmente absorvidos pelo mercado interno, sem dependência da exportação. O atual excesso de oferta, que tem deprimido o preço do etanol, não arrefece as projeções do gestor. “Todo projeto deste tipo gera assimetrias entre oferta e demanda. O anúncio de novos projetos faz os preços caírem no começo”, explica.

Apesar da perspectiva positiva em relação à demanda interna, cuja frota de carros a bicombustível chega a 5 milhões, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) defende o fim das barreiras impostas à exportação do etanol brasileiro como uma das condições essenciais para o setor deslanchar. “O potencial de demanda externa existe. Só não sabemos o momento exato em que o etanol se tornará, de fato, uma commodity”, afirma Antônio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da entidade.

PREÇOS DEPRIMIDOS — Enquanto a exportação não acontece, o excesso de oferta impacta os preços das ações do segmento na bolsa. “Os papéis estão em baixa desde o ano passado por conta dos reduzidos preços do etanol”, observa Gabriel Levy, analista de renda variável da Modal Asset Management. Peter Ping Ho, analista da Planner Corretora, projeta preço-alvo de R$ 21,75 para as ações ordinárias da Cosan. Em relação à cotação do dia 24 de junho (R$ 28,19), a desvalorização seria de quase 30%, apesar de o valor projetado não levar em conta a recente compra dos ativos da Esso, o que deverá acarretar uma ligeira melhora na avaliação. A perspectiva de queda da ação, explica Ping Ho, deve-se ao fato de as empresas do setor, o que inclui São Martinho e Guarani, produzirem mais etanol do que é consumido e, ao mesmo tempo, estarem com as margens do preço do açúcar apertadas.

Mesmo com os preços do açúcar e do etanol em baixa, as apostas no setor continuam firmes. Prova disso é o custo das plantas industriais. Em 2007, os valores atingiram suas máximas históricas após a chegada de novos investidores. Os preços inflados arrefeceram o número de negócios, mas depois retrocederam, o que ajudou a atrair compradores novamente. De acordo com a consultoria Datagro, o custo de construção de uma nova usina, que há seis anos era de US$ 35 por tonelada de cana moída, hoje é de cerca de US$ 100. As plantas industriais prontas, que alcançaram máxima de US$ 124 por tonelada moída no ano passado, exigem, atualmente, o desembolso de cerca de US$ 110 dólares. Hoje, segundo a consultoria, os preços já voltam a assumir tendência de alta.

Uma exceção em meio à discussão sobre biocombustíveis é a Brasil Ecodiesel. Em 24 de maio, a ação ordinária da empresa fechou a R$ 4,53, valor 62% inferior ao preço da estréia, de R$ 12. A companhia tem sido muito malvista devido aos resultados operacionais negativos e, ao contrário das usinas produtoras de etanol, ela faz parte do universo de produtores de combustível que usa grãos alimentares como matéria-prima. “Atualmente não há competição direta com os alimentos, porque o volume de biodiesel produzido é muito pequeno em relação ao de soja. No futuro, se houver internacionalização da demanda, é possível que isso aconteça”, afirma Nelson Côrtes da Silveira, fundador da empresa e atual vice-presidente do conselho de administração.

Até agora, 92% da produção da Brasil Ecodiesel vem da soja. Em cinco anos, a meta da companhia é reduzir esse percentual para apenas 20%. Os outros 80% seriam extraídos de plantas como a mamona e o pinhão manso, que se adaptam a condições climáticas instáveis e podem expandir as fronteiras agrícolas do País. Essa característica faria com que o biodiesel deixasse de competir com a produção de alimentos, tanto direta quanto indiretamente — como na disputa por terras, uma vez que seria possível ocupar áreas subaproveitadas.

Não é controvérsia em torno da soja, contudo, que vem impactando o preço das ações da Brasil Ecodiesel, avalia Ping Ho. Segundo o analista, a explicação para o descontentamento dos investidores está no fato de a companhia continuar deficitária. Seus custos de produção estão atrelados às commodities e não há espaço no mercado para repassar esse aumento aos preços.


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Tags:  Cosan Brasil Ecodiesel Usina São Martinho Açúcar Guarani Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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