Disclosure neutro

Companhias tentam falar de sua preocupação com o aquecimento global, mas ainda há mais fumaça do que transparência nas informações divulgadas

Governança Corporativa/Temas/Reportagem/Edição 64 / 1 de dezembro de 2008
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A América Latina Logística (ALL) adverte: alterações climáticas podem descarrilar trens e derrubar receitas. A elevação brusca da temperatura pode entortar trilhos, ao passo que o frio intenso favorece a ocorrência de rachaduras nas linhas, que podem provocar acidentes e prejuízos. Com quase 70% do faturamento dependente do transporte de commodities agrícolas, a ALL também sabe que estiagens, tempestades e a proliferação de pragas dizimam safras inteiras. Caso o pior dos mundos se concretize como sugerem as cores fortes pintadas pelos ambientalistas apocalípticos, o futuro reservado à empresa tende a ser tenebroso. A ALL considerou que o acionista tem o direito de ser alertado sobre isso. Não apresentou esses riscos no prospecto da oferta pública inicial de ações (IPO), que se deu em 2004, mas o fez no Carbon Disclosure Project (CDP) de 2008.

De escala planetária e adesão voluntária, o CDP tem como objetivo divulgar a investidores como as empresas vêm se posicionando relativamente às mudanças climáticas em curso. O questionário do projeto, enviado a mais de 3 mil companhias de todo o mundo, visa a escarafunchar os riscos e as oportunidades identificados pelas empresas no contexto de alteração climática, como reagem a esses fatores, o quanto liberam de gases causadores do efeito estufa e como gerenciam a redução das emissões de poluentes. A idéia é fazer com que os riscos sejam explicitados e, conseqüentemente, mais bem precificados pelos analistas, cada vez mais exigentes em relação a boas práticas de sustentabilidade. Mas uma navegada pelo website www.cdproject.net, que publica somente as respostas das companhias que autorizaram a divulgação, nos leva a uma outra conclusão — a de que as empresas têm pouca noção do quanto contribuem para o aquecimento global.

Os mercados desenvolvidos, sobretudo o europeu, estão um nível acima dos demais no que se refere à qualidade das repostas fornecidas ao CDP. O grupo financeiro britânico Barclays e a química alemã Basf são tidos como referência. Do outro lado, os emergentes e a periferia do capitalismo apresentam . Companhias do primeiro mundo não só medem o quanto de carbono despejam, como certificam as emissões. os piores questionários. Não que a indústria dessa parte do planeta simplesmente polua mais. O fato é que demonstram estar se preocupando menos com o assunto. Na China, por exemplo, das 100 companhias convidadas a responder às perguntas, apenas cinco o fizeram. Já no Brasil, a maioria das empresas não tem dados sobre a quantidade de gás carbônico liberada na atmosfera, nem parece estar se preparando para esse trabalho

“Casos de respostas prontas, já dadas a outros questionários, como o do índice de sustentabilidade Dow Jones, diminuíram”, observa Roberto Gonzalez, assessor para assuntos de sustentabilidade da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec nacional) e diretor da TheMedia- Group, empresa que editou o relatório brasileiro do CDP. Mas ele admite que há muito o que melhorar. “É um processo de longo prazo”, diz o consultor Fernando Figueiredo, colaborador do projeto no País. Na amostra brasileira, um dos poucos destaques positivos é o questionário da Vale. Dentre as companhias do índice Global 500, ela se sobressaiu no setor de matérias-primas, mineração, papel e embalagens, alcançando 66 pontos no ranking de qualidade de disclosure, atrás de BHP Billiton, Alcoa, Rio Tinto e Xstrata. A empresa ressalta no formulário a alta dependência da indústria de ferro e níquel em relação ao consumo de energia e descreve como um aumento da restrição às emissões de gases do efeito estufa impactaria seus custos.

A maior parte das companhias, porém, ainda patina para discutir como está inserida no contexto de aquecimento global. Algumas delas, inclusive, entregam o questionário praticamente em branco, revelando desconhecimento sobre o tema. A Confab Industrial, que fabrica tubos de aço soldados para gasodutos e oleodutos, afirma não estar exposta a riscos de mudanças climáticas. A Lojas Americanas, por sua vez, sai pela tangente: informa não ter “dados precisos sobre riscos físicos relacionados às mudanças climáticas”. Entretanto, aponta que eventos como furacões, enchentes, secas e a proliferação de insetos vetores de doenças infecciosas, dentre outros desastres naturais, podem afetar seus consumidores, empregados e fornecedores (veja quadro na próxima página).

DISTANTE DO IDEAL — Como bem lembra Gonzalez, o panorama está longe do ideal. Defender boas práticas no gogó é fácil e tem efeito marqueteiro. O difícil é confessar os pontos falhos e mostrar o que está sendo feito para corrigi-los. Em 2000, ano em que o Pacto Global (conjunto de princípios da Organização das Nações Unidas voltados a direitos humanos, relações de trabalho, meio ambiente e combate à corrupção) foi lançado, mais de 600 empresas brasileiras se tornaram signatárias da iniciativa, segundo Gonzalez. “Quando começou a ser cobrado que elas contassem o que estavam fazendo em relação aos princípios, o número caiu para 73”, diz ele.

Metas e prazos para reduzir a emissão de poluentes são coisa rara de se encontrar. Companhias relevantes em suas áreas de atuação se recusaram a participar do CDP este ano, como Marcopolo, Lojas Renner, Positivo Informática e Rossi Residencial. “Setores como o bancário e o de papel e celulose evoluíram por pressões externas. Mas o setor de construção civil, por exemplo, é problemático para lidar com esse tópico no mundo inteiro”, afirma Gonzalez.

Esse cenário denota uma certa falta de percepção quanto à relevância dos impactos ambientais e sociais das companhias. Uma pesquisa da consultoria McKinsey divulgada em outubro, intitulada Como as mudanças climáticas poderiam afetar a avaliação de empresas, faz um alerta: esforços de eliminação de carbono vão influenciar e muito os fluxos de caixa. Portanto, é natural que investidores e analistas prestem cada vez mais atenção nesses aspectos. Do lado das áreas de Relações com Investidores (RI), contudo, não é bem o que acontece. No evento de lançamento do relatório brasileiro do CDP, no início de novembro em São Paulo, Gonzalez teve uma prova da distância entre as mudanças climáticas e a agenda dos RIs no País. Da platéia formada por cerca de 35 representantes de empresas, nenhum se identificou como RI, lamenta o especialista. “Gestores de assuntos de meio ambiente não são os profissionais apropriados para prestar contas a acionistas”, aponta.

Mesmo com o crescente escrutínio da sociedade em torno da responsabilidade ambiental das empresas, a liberação de gases causadores do efeito estufa não arrefeceu como desejado nos países industrializados. Ao contrário, cresceu 2,3% entre 2000 e 2006, segundo pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgada em novembro, apesar de se manter abaixo dos níveis de 1990. Há ainda muita fumaça escondendo o quanto as empresas estão de fato preocupadas com o aquecimento global. Somente 25% das companhias classificadas como de impacto climático “elevado” e “muito elevado” teriam um bom mecanismo de disclosure sobre seu posicionamento ante esses riscos, segundo levantamento de outubro da Eiris, organização britânica especializada em pesquisas de sustentabilidade.

A instituição compilou informações públicas de 2.344 companhias cujas ações integram o índice FTSE All-World Developed e identificou cerca de 630 com impactos climáticos significativos, que respondem por mais da metade da emissão mundial de gases de efeito estufa. Dessas, 36% não têm sequer um disclosure mínimo sobre o tema, de acordo com a Eiris. Sem contar que a publicação desse tipo de informação “não significa que a verdade esteja sendo dita”, pondera Giovanni Barontini, sócio-diretor da Fábrica Éthica Brasil, consultoria responsável por trazer o CDP ao País.

O baixo nível de transparência das companhias nessa seara faz com que investidores demandem até regulação. No fim de outubro, uma carta assinada por 14 grupos, dentre eles o fundo de pensão dos funcionários públicos da Califórnia (Calpers), foi entregue à Securities and Exchange Commission. O documento pede ao regulador norte-americano que inclua na reforma de seu sistema de informações a chamada “21st Century Disclosure Initiative”, uma série de exigências de divulgação relacionadas a riscos ambientais, sociais e de governança, conhecidos pela sigla em inglês ESG. Esse tipo de cobrança deixou de ser novidade, diz Barontini. Desde 2003, a ONU inclui a SEC entre seus interlocutores para questões ambientais.

CDP ganha apoio de investidores


Em sua sexta edição, o Carbon Disclosure Project (CDP) ganhou o respaldo de 385 investidores internacionais, que geram ativos da ordem de US$ 57 trilhões, segundo o relatório dos organizadores publicado em outubro. Em 2007, os números tinham sido mais modestos, com 315 investidores e US$ 41 trilhões sob gestão. No Brasil, o interesse pela proposta cresceu substancialmente. Em 2005, quando participamos do programa pela primeira vez, apenas cinco instituições apoiaram a iniciativa. Hoje, 41 entidades brasileiras, dentre fundos de pensão, seguradoras, bancos e investidores institucionais, são signatárias do CDP.

O número de empresas nacionais que abraçaram a causa também aumentou, alçando o País à condição de um dos líderes do programa. Em 2007, 60 empresas foram convidadas a responder o questionário do CDP e 47 (78,3%) se preocuparam em atender à demanda dos investidores. Das 75 empresas procuradas em 2008, as de maior capitalização do índice IBrX da Bovespa, 60 entregaram o trabalho, o que significa um índice de 83 % de adesão. Essa taxa só foi menor que a do Reino Unido, país sede do projeto, onde 90% das companhias contatadas deram suas respostas. “Ficamos impressionados”, diz Linda Murasawa, superintendente de sustentabilidade do Banco Real, que, ao lado da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), ajuda a difundir o CDP no Brasil. A surpresa de Linda se deve à circunstância vivida por várias companhias participantes, ainda novatas na bolsa e mesmo assim atentas a essa tendência. A ALL, por exemplo, tinha se recusado a fazer o disclosure no ano passado, mas mudou de idéia desta vez.

Muita ficção, pouco conteúdo


Pergunte a uma criança matriculada no ensino fundamental o que pode acontecer se não cuidar dos recursos naturais do planeta. Certamente ameaças como furacões no Brasil, falta de água, elevação do nível do mar e cidades esfumaçadas pela poluição estarão na ponta da língua. Surpreendentemente, esses manjados riscos são também reportados por algumas companhias nos questionários do Carbon Disclosure Project (CDP). A iniciativa tem o objetivo de revelar a investidores os riscos e as oportunidades propiciados pelas mudanças climáticas, tanto no sentido de como as empresas impactam o meio ambiente — e amenizam esses estragos — como na forma que seriam prejudicadas pelo aquecimento global.

A varejista Lojas Americanas alerta para um risco curioso: “de acordo com algumas pesquisas, o aquecimento global é responsável pela proliferação de mosquitos e outros insetos que são vetores de doenças infecciosas”, diz o relatório da rede varejista. E o que isso tem a ver com a companhia? Para a Lojas Americanas, fatalidades como essas podem trazer “conseqüências aos negócios, empregados, clientes e fornecedores”. Ninguém duvida.

A Odontoprev, operadora de planos de assistência odontológica, enxerga até o lado bom de uma eventual elevação da temperatura do globo. “Inicialmente, ela diminuiria a taxa de mortalidade de idosos por problemas respiratórios durante períodos frios, trazendo um benefício para a companhia”, afirmou a empresa em seu relatório. Ou seja, provavelmente sobrariam mais clientes para consumir planos odontológicos. No entanto, esse breve respiro seria interrompido por um prejuízo maior. Segundo a Odontoprev, “poderia haver aumento em doenças como diarréia, problemas cardiorrespiratórios e infecciosos, de forma que a empresa estaria sujeita ao risco de ausências de funcionários ao trabalho e das conseqüentes perdas financeiras”.

Esses são apenas dois exemplos de como algumas empresas ainda escorregam ao falar de sustentabilidade. Para especialistas, respostas genéricas vão na direção oposta à seriedade que as companhias deveriam ter ao preencher questionários como o do CDP. Por acaso, investidores precisam ser informados de que as mudanças climáticas podem causar ventanias e inundar cidades costeiras? “Falta um pouco mais de ciência para as companhias tentarem apurar os riscos que estão diretamente relacionados ao negócio delas”, diz o consultor de Relações com Investidores (RI) Valter Faria. “Fazer considerações sobre mudanças de temperatura e ‘riscos bíblicos’ é muito mais ficção científica do que ciência.”

Acesse o estudo da McKinsey sobre o impacto das mudanças climáticas na avaliação de companhias.




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Tags:  Sustentabilidade e Responsabilidade Social Práticas de sustentabilidade Créditos de carbono Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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